Nesta época de crises sucessivas é inegável que devem ser estabelecidas prioridades. O que resta saber é se a ética é uma delas. Infelizmente para muitas empresas, não. O Ethiscore, metodologia de rating ético das empresas e dos seus produtos desenvolvida pela Ethical Consumer, permite descobrir um admirável mundo novo, de listas e bases de dados, sites especializados e críticas fundamentadas. Resta saber se as empresas portuguesas aderirão a esta metodologia e colocarão a ética no topo das suas prioridades, ou se as OTS acharão que merece o investimento para garantir uma parceria exemplar
POR CLÁUDIA PEDRA*

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Nesta época de crises sucessivas é inegável que devem ser estabelecidas prioridades. O que resta saber é se a ética é uma delas. Infelizmente para muitas empresas a ética não está no topo das suas prioridades.

A Ethical Consumer, Organização do Terceiro Sector (OTS) especializada na investigação independente dos registos sociais e ambientais das empresas e dos seus produtos, criou uma metodologia de rating ético das empresas e dos seus produtos – o Ethiscore. Para quem tem o prazer de receber formação nesta metodologia é como descobrir um admirável mundo novo, de listas e bases de dados, sites especializados e críticas fundamentadas, que nos mostram o perfil da empresa de um modo como nunca o costumamos ver – do ponto de vista da ética.

Pressão dos consumidores reduz riscos reputacionais
É evidente que este rating tem uma história: a Ethical Consumer está baseada no Reino Unido, onde os consumidores representam uma importante força de pressão e onde as empresas não se podem dar ao luxo de ignorar as suas preferências ou até as suas queixas. Por isso as empresas não só pedem para lhes fazerem esse rating, como posteriormente envidam sérios esforços para subir na escala; afinal, ninguém quer estar na base da pirâmide!

Inicialmente desenhado para ajudar os consumidores a diferenciar entre empresas para fazer um consumo mais responsável, rapidamente se verificou que muitas OTS procuravam a Ethical Consumer em busca de uma metodologia que lhes permitisse escolher parceiros mais consentâneos com a sua cultura organizacional e que, acima de tudo, não representassem riscos reputacionais. Com o tempo as empresas começaram a utilizar a metodologia não só para si próprias, mas também para fazer benchmarking da concorrência dentro do mesmo sector. Até o Estado pode utilizá-la, para decisão nas suas políticas público-privadas.

“Na base de dados Corporate Critic pode-se aceder ao rating ético de quase trinta mil empresas, a quem a metodologia Ethiscore já foi aplicada” .
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Mas afinal em que consiste o Ethiscore? Uma análise transversal da empresa com base em cinco áreas: Ambiente – Mudanças climáticas, Poluição e tóxicos, Habitats e recursos, Reporting Ambiental, Energia Nuclear; Pessoas – Direitos Humanos, Direitos dos Trabalhadores, Política da Cadeia do Produto/de valor, Marketing irresponsável, Ligação à Indústria do Armamento; Animais – Testes em Animais, Factory Farming, Outros direitos dos animais; Políticas – Engenharia genética, Boicotes, Actividades Políticas, Finanças Anti-Sociais, Código de Ética da Empresa; e Sustentabilidade do produto – Produtos orgânicos, Produtos do Comércio Justo, Factores Ambientais Positivos, Outros Factores de Sustentabilidade.

Estas áreas dividem-se depois em quatrocentas subcategorias, com uma análise detalhada, como qualquer investigação que se preze. Há muitas fontes de informação, abertas e fechadas, desde relatórios da própria empresa, a inquéritos a stakeholders, base de dados e sites especializados, grandes OTS internacionais, revistas e jornais de renome, manuais de defesa e armamento, entre outros.

A informação é posteriormente tratada e analisada e colocada numa base de dados, a Corporate Critic, com acesso semiaberto, onde se pode aceder ao rating ético de quase trinta mil empresas, a quem a metodologia já foi aplicada.

Os ratings poderão ser surpreendentes… ou nem por isso, mas, seja como for, merecem uma consulta. E não se pense que só as multinacionais passam neste crivo, múltiplas PME constam também dessa base.

A Ethical Consumer cede a sua metodologia a alguns parceiros especializados por todo o mundo, onde se inclui a Stone Soup Consulting, para que o rating ético seja disseminado como a boa prática que é.

Resta saber se as empresas portuguesas aderirão a esta metodologia e colocarão a ética no topo das suas prioridades, ou se as OTS acharão que merece o investimento para garantir uma parceria exemplar. Em ambos os casos, a questão que se põe é sempre a mesma – a ética é uma prioridade?

*Managing Partner, Stone Soup Consulting