Dados científicos comprovam que, nos últimos 500 milhões de anos, o Planeta Terra já sofreu cinco extinções, todas elas causadas por catástrofes naturais. Numa viagem a vários cantos do mundo, a jornalista Elizabeth Kolbert, em conjunto com especialistas de várias áreas, testemunhou os efeitos daquela que pode ser considerada como a 6ª extinção. A diferença é que, desta vez, não são os eventos extremos os responsáveis, mas sim a espécie humana
POR HELENA OLIVEIRA

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Elizabeth Kolbert, jornalista do The New Yorker e também da National Geographic, lançou, em Fevereiro último, o seu mais recente, complexo e assustador livro. Em The Sixth Extinction: An Unnatural History, Kolbert descreve a viagem que fez a vários locais do mundo para documentar a extinção em massa de espécies que se está a desenrolar mesmo diante dos nossos olhos. Mas e ao contrário das demais cinco catástrofes que alteraram para sempre a história do Planeta Terra, esta é bem diferente, pois está a ser causada por nós, seres humanos. “As qualidades que nos tornaram humanos – a nossa inquietude, criatividade, a capacidade que temos para cooperar e que nos permite resolver problemas e completar tarefas complexas – estão a mudar o mundo de uma forma tão rápida e profunda que as demais espécies não estão a conseguir acompanhar”.

Na sua viagem pelo globo, a autora acompanhou, falou e discutiu com cientistas proeminentes de várias áreas que estão a “perseguir” a transformação, a cargo da humanidade, daquele que é o nosso único planeta. E a principal conclusão de Kolbert é a de que esta mudança está a decorrer a um ritmo tal que está a colocar em perigo extremo todas as espécies, incluindo, eventualmente, a humana.

A jornalista argumenta que uma nova vaga de extinção está a ocorrer na era moderna por nossa causa – não só pelo que os humanos estão a fazer mas, e em última análise, pelo aquilo que são. A catástrofe anunciada por Kolbert poderá a vir a ser tão significativa quanto a que varreu os dinossauros da face da Terra. Mas se as cinco anteriores extinções em massa foram causadas por fenómenos naturais, o livro demonstra, de forma muito bem documentada e cientificamente comprovada – que a “6ª extinção” terá “mão humana”. “Um terço de todos os recifes de corais, um terço de todos os moluscos de água doce, um terço dos tubarões e das raias, um quarto de todos os mamíferos e um sexto de todos os pássaros”, afirma a autora, “estão a caminhar para o esquecimento”.

De uma forma geral, e como noticiou o Wall Street Journal, a extinção em massa que serve de temática às crónicas de Kolbert é produto de um paradigma recente, aquele que defende que a acção humana – e não a evolução ao longo de vastos intervalos de tempo ou os eventos naturais catastróficos – está a colocar as espécies à beira da extinção. Desde a Revolução Industrial, escreve Kolbert, que os seres humanos têm vindo a alterar a composição da atmosfera queimando as fontes de energia subterrâneas e libertando dióxido de carbono. Alguns animais e plantas conseguem ajustar-se através de algum tipo de adaptação, mas muitos ficam à mercê da má sorte e acabam por não resistir.

Os mesmos atributos que ditaram o nosso sucesso biológico enquanto espécie estão a alterar o clima e a reduzir drasticamente a variedade de espécies no planeta Terra.

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E são vários os exemplos bem documentados de inúmeras espécies que estão, simplesmente, a desaparecer: o do colapso de populações de anfíbios e de recifes de coral, ou da morte em massa de milhões de morcegos, muito provavelmente devido a um fungo transportado à volta do mundo pelas viagens e comércio próprios da globalização, entre muitos outros.

Kolbert visitou também, em conjunto com vários investigadores que rastreiam os efeitos do aquecimento global, a floresta peruana, na qual muitas plantas se estão a “movimentar” em sentido ascendente de forma a encontrarem uma zona climática mais elevada e mais fria. A jornalista narra também as histórias de extinções iminentes, como a de Suci, um rinoceronte de Sumatra que vive no jardim zoológico de Cincinnati e que não consegue ovular a não ser que sinta que existe um macho por perto. No caso de Suci, “o macho elegível mais próximo encontra-se a milhares de quilómetros de distância”, diz a autora.

Em todas estas histórias emerge um padrão comum. As extinções em massa que ocorreram no passado (que foram cinco, sendo que a mais recente ocorreu no final do período Cretáceo) não são comparáveis a esta “6ª extinção”, causada pela exploração humana do globo, na medida em que está a ocorrer a um ritmo sem precedentes relativamente à escala de tempo geológica. Um dos exemplos que espelha bem esta “velocidade” é a taxa de extinção entre os anfíbios, que poderá ser 45 mil mais elevada do que a taxa normal [extinção estimada em tempos “normais”].

E, mais uma vez, a autora culpa o nosso desassossego interior, o nosso intelecto e os nossos apetites, em conjunto com a propensão humana para caçar, para causar o extermínio dos mamutes de largo porte, sem esquecer a sua urgência em explorar, exemplificado pelo abate em massa das florestas e pelas emissões de CO2 que estão a alterar o próprio clima. Ou seja, os mesmos atributos que ditaram o nosso sucesso biológico enquanto espécie, estão a alterar o clima e a reduzir drasticamente a variedade de espécies no planeta Terra.

Como escreve o The Seattle Times, numa crítica ao livro, Kolbert não mostra censura nem condenação nas crónicas que escreve sobre a indiferença humana (que, muitas vezes, chega a ser crueldade) face às demais espécies existentes neste planeta comum. Mas talvez o aspecto mais perturbador deste livro resida no facto de todos nós, sem excepção, sermos cúmplices destes “assassínios em série”: afinal, todos continuamos a conduzir os nossos carros, a esgotar os solos, a consumir em excesso e a não sermos capazes de conter o crescimento “desordenado” da população humana.

Considerada como uma observadora extremamente astuta e como uma sintetizadora soberba, Kolbert consegue ainda acrescentar um toque de humor a uma matéria tão alarmante. O problema é que esta 6ª extinção aqui retratada está já a acontecer e não existem quaisquer motivos para sorrir se pensarmos que o planeta Terra está mesmo a caminho da sua própria destruição.

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Politizações perigosas
O livro anterior de Elizabeth Kolbert , Field Notes from a Catastrophe, tinha como temática principal as alterações climáticas e o aquecimento global. E, tal como acontece com muitos outros autores e especialistas que escrevem sobre esta verdade inconveniente – parafraseando Al Gore -, o livro não foi recebido com muito entusiasmo, mas antes com o cepticismo de quem continua a acreditar, ou a fingir que o faz, que as alterações a que o clima está sujeito e as terríveis consequências que se fazem sentir em todo o planeta não passam de mais uma teoria da conspiração.

Numa entrevista concedida por Kolbert ao prestigiado The Guardian, a autora explica que, em particular nos Estados Unidos, a questão das alterações climáticas continua a ser extremamente politizada, o que consiste numa poderosa barreira para as pessoas pensarem, sequer, sobre o assunto. No seu novo livro, duas das temáticas que estão igualmente a contribuir para a extinção em massa – as espécies invasivas e a acidificação dos oceanos – ainda não foram politizadas, de acordo com a autora, a qual recorda, porém, que a acidificação é exactamente o mesmo fenómeno que o aquecimento global, na medida em que ambos estão relacionados com as emissões de carbono.

E a verdade é que o apelo mais urgente contido nas páginas do livro diz exactamente respeito à condição actual dos oceanos. Também “graças” à Revolução Industrial e desde o seu início, que a quantidade de dióxido de carbono absorvido pelos oceanos aumentou em 30%. E o resultado específico desta realidade é que impede que os “calcificadores” – animais tão diferentes como os corais ou os bivalves e até algumas plantas – formem as suas estruturas, com resultados desastrosos para a cadeia alimentar marinha. A acidificação dos oceanos significa que todos os recifes de coral – que sustentam mais de nove milhões de outras espécies – se terão “dissolvido” daqui a cerca de 50 anos. O que nos leva a outra verdade inconveniente: o planeta Terra teria muito mais hipóteses de sobreviver se não existisse a espécie humana. Apesar de considerar esta ideia radical e misantrópica, a autora confessa que apesar de algumas (poucas) espécies ganharem com a presença dos humanos, a verdade é que, na sua maioria, estariam bem melhores sem os mesmos por perto.

É no desequilíbrio entre o que os humanos podem fazer e o que a natureza consegue suster que reside o maior problema

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Uma outra evidência parece ser a de que desde que os humanos “chegaram” à Terra, têm trabalhado continuamente para a destruir. “Existem evidências inegáveis que quando os humanos chegaram à Austrália, há cerca de 50 mil anos, de imediato se precipitaram para dar início à extinção da sua própria espécie”, afirma ao The Guardian. “Os marsupiais gigantes, as tartarugas gigantes e um número significativo de pássaros igualmente gigantes acabaram por desaparecer um ou dois milénios depois da chegada dos humanos”, acrescenta.

Mas uma história pode ser sempre compreendida de acordo com pontos de vista variados. Por exemplo, um dos dias que concorre, na história do Planeta, para figurar como um dos piores da sua existência, foi aquele em que um asteróide de proporções gigantescas embateu na Terra e ditou o fim dos dinossauros. Como afirmou a autora numa entrevista na National Geographic, “existe consenso de que os dinossauros estavam muito bem há 66 milhões de anos e que, muito provavelmente, assim continuariam por mais 66 milhões de anos se o seu modo de vida não tivesse terminado devido ao impacto de um enorme asteróide”.

A grande ironia das catástrofes anteriores reside no facto de que, sem elas, nenhum de nós estaria aqui, como recorda a jornalista. “A vida no planeta é uma contingência, tal como nós, seres humanos, o somos também”, afirma. Mas também é verdade que, apesar de fazermos parte desta já longa história, acabámos por ser uma espécie “extremamente incomum”, acrescenta, na medida em que, de acordo com o que temos vindo a fazer, “não existe qualquer precedente”. Kolbert recorda também que a “razão devido à qual este livro foi escrito por um bípede com cabelos tem mais a ver com um infortúnio ‘dinossáurico’ do que com alguma virtude em particular doa mamíferos”.

Kolbert afirma ainda, num artigo publicado pelo The Telegraph, que nesta nova era – a do Antropoceno [O termo Antropoceno é usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história do Planeta Terra. Ainda não há data de início precisa e oficialmente apontada, mas muitos consideram que começa no final do Século XVIII, quando as actividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas] – na qual nós, humanos, utilizámos as nossas competências para produzir destruição, “os nossos ‘grandes feitos’ serão reduzidos, no futuro, a uma mera camada sedimentar tão fina quanto o papel que embrulha os cigarros”.

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A viagem aos sinais visíveis da próxima extinção
Apesar de Kolbert ser uma jornalista que escreve, há largos anos, sobre ambiente – e também sobre política – e no seguimento do seu primeiro livro sobre alterações climáticas e das colunas que assina também na afamada revista National Geographic – no que a esta temática em particular diz respeito, a autora sublinha, nas várias entrevistas que tem dado, que tudo o que escreveu está comprovado e documentado por inúmeros cientistas, de várias especialidades e dos vários cantos do globo, não sendo, por isso, este livro o resultado da “sua própria visão”.

E é por isso que, no livro em causa, os leitores são convidados a viajar com a autora aos vários locais do planeta que escolheu para recolher material que comprovasse que alguns sinais da “próxima extinção” são já bem visíveis.

Por exemplo, em conjunto com cientistas de renome, a jornalista visitou a Grande Barreira de Coral, “sinalizada” como o mais provável primeiro ecossistema inteiro a ser destruído devido aos impactos provocados pelos humanos, em grande parte devido à acidificação dos oceanos e às alterações das temperaturas da água. E foi também à Amazónia, que está a ser abatida e dividida, comprovando que a fragmentação das suas terras tem um impacto substancial em todos os seres vivos que vivem na sua floresta. Ou à Cordilheira dos Andes, que está a sofrer efeitos muito rápidos e extremamente destruidores devido ao aquecimento global. E os exemplos continuam…

O que Kolbert pretende explicar é que quando utilizamos os combustíveis fósseis, estamos a inverter a história geológica ao “retirarmos” organismos que estavam enterrados há milhões de anos e a “bombear” o seu carbono de volta para a atmosfera a um ritmo ultra-rápido. Ou que se formos à Antárctida, um organismo que se tenha colado à sola dos nossos sapatos pode ser devastador para uma forma de vida que ali evoluiu sem qualquer defesa para o mesmo.

Ou, em suma, os humanos aceleraram o ritmo de mudança do seu próprio mundo, enquanto o ritmo mediante o qual a evolução é adaptativa é muito mais lento. E é neste desequilíbrio entre aquilo que os humanos podem fazer e aquilo que a natureza consegue suster que reside o maior problema.

“O asteróide actual somos NÓS”

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Numa outra entrevista concedida ao The New York Times (onde também foi jornalista antes de, em 1999, se ter juntado à redacção da revista The New Yorker), a autora foi questionada sobre o que sabia, realmente, relativamente às extinções passadas ou aos eventos que ocorreram nos últimos 500 milhões de anos. Assumindo que pouco se sabe sobre alguns destes eventos, a autora recorda que a comunidade científica acredita que, neste período de tempo em particular [nos último 500 milhões de anos], a Terra sofreu cinco grandes extinções. A terceira, ocorrida há cerca de 250 milhões de anos, é considerada como a pior na medida em que aproximadamente 90% das espécies existentes na altura desapareceram. “A teoria sobre esta terceira extinção e as lições que dela já se retiraram são extremamente relevantes para a actualidade”, afirma. E porquê? Porque foi causada por uma erupção vulcânica maciça e duradoura, que libertou doses elevadíssimas de dióxido de carbono. O resultado foi um aquecimento global tremendo e a acidificação dos oceanos a uma escala dramática.

Já a quinta extinção, que acabou com os dinossauros, foi causada por um asteróide. E, hoje em dia, de acordo com as palavras da própria autora, são muitos os cientistas que afirmam que “nós somos o asteróide”.

Assim, uma questão impõe-se. E o nosso futuro? Ao National Geographic, Kolbert respondeu: “somos muitos bons a destruir os habitats de outras espécies e a consumir os seus recursos. E até agora, esta tem sido uma estratégia muito bem-sucedida”, ironiza. “Existem actualmente cerca de 7,2 mil milhões de pessoas no planeta e muitas outras espécies que estão a ser reduzidas ‘à sua última centena de indivíduos’. E existe ainda muita biomassa para consumir. E o problema é que aprendi que é ainda possível causarmos prejuízos enormes às demais espécies e ao mundo natural antes de sermos nós a senti-los primeiro”.

Depois de mais um grito de alerta veiculado esta semana pelo Painel Intergovernamental da ONU para as Alterações Climáticas, o livro de Elizabeth Kolbert deveria ser também de leitura obrigatória para os líderes mundiais.

Editora Executiva