É uma iniciativa educativa, pluri-religiosa, com presença global e que conta com o apoio pessoal do Papa. Respondendo a uma proposta do então arcebispo Jorge Bergoglio, numa Argentina em tumulto no início deste novo século, este projecto tem como lema “construir a paz através da educação e tecnologia” e já tocou as vidas de mais de meio milhão de comunidades espalhadas por todo o mundo. Em entrevista, o director mundial do Scholas Ocurrentes, José Maria del Corral, explica a sua génese, objectivos e modus operandi
POR HELENA OLIVEIRA

O Scholas Ocurrentes inspira-se em dois projectos criados pelo então arcebispo de Buenos Aires. Como é que uma ideia local se converteu num projecto de inclusão digital global já presente em tantos países?

Os inícios do século XXI encontraram a Argentina do então arcebispo Jorge Bergoglio mergulhada numa profunda crise social, política e económica, a qual deixou morte, pobreza e um grito comum: “que se vão todos”. No meio do caos e da desesperança disfarçada de indiferença absoluta, Bergoglio reuniu os docentes José María del Corral e Enrique Palmeyro e deu-lhes a missão de escutar o coração dos jovens porque só assim, a partir das suas dores, nasceria uma nova cultura. A intenção desta proposta era fazer da diversidade a sua maior riqueza, portadora de confiança e de beleza.

Composto o primeiro grupo de estudantes de escolas das comunidades católica, judia, muçulmana e evangélica, de gestão pública e privada, e dos bairros mais distintos da cidade, elegeram o sistema educativo como a causa da sua maior dor, por lhes propor uma educação distanciada das suas vidas. Mas este grupo de adolescentes decidiu que não se resignaria e não se contentaria com protestos, levando à legislatura da cidade uma proposta que, votada por unanimidade, se converteria na Lei 2.169 “Buenos Aires, Cidade Educativa”.

Este grupo inicial de 70 jovens finalizou o ano em conjunto com milhares de outros adolescentes que, e sem o saberem, marcariam a origem do Scholas.

“Construir a paz através da educação e da tecnologia” é o principal objectivo desta iniciativa pluri-religiosa e que conta com o apoio do Papa Francisco. Na prática, quais são os critérios para que as instituições educativas se possam juntar à plataforma e dar vida aos seus projectos?

O Scholas é um chamamento para escutar a vida e para assim criar uma cultura que a celebre. Uma educação que ensine a encontrar-se com nós mesmos e com o outro, para capturar o sentido que se cria nesse encontro. Ensinaram-nos que devemos “ter”, ter conhecimentos, ferramentas, diplomas; para depois “fazer”, trabalhar, produzir, provar; e assim chegar, por fim – e só para alguns – a “ser”, a “ser alguém” na vida.

Esta equação, para além de adiar e condicionar o “ser”, submete-o a um modelo, a uma categoria, na qual ou nos encaixamos ou somos excluídos.

O Scholas rompe com esta lógica, educando para a escuta do “Ser”, de esse único e consequentemente belo que cada um é; para que o “fazer” seja criação, seja a expressão de si mesmo: e, por último para celebrar um “ter” que ao corresponder a quem sou, não necessita de mais, nem menos.

O Jogo, a Arte e o Pensamento, capazes de escutar e expressar esta realidade, constituem a linguagem do Scholas e todas as suas experiências têm como objectivo representar esta intenção.

O Scholas tem como lema “reunir o que resultou: a técnica com a paixão, a razão com o sentimento, e a vida com a educação”. Como funciona este lema na prática e como se integram as comunidades educativas – em particular as que têm menores recursos – nestas “aulas globais” e nesta rede mundial de comunidades educativas?

[As comunidades educativas] integram-se através do Scholas Cidadania, que é a experiência fundamental do Scholas. Ao longo de seis dias, entre duzentos e quatrocentos jovens de diferentes escolas de uma mesma comunidade encontram-se no mesmo lugar.

A experiência começa, todas as manhãs, com um espaço chamado “Re-Creio”: um tempo de gratidão onde o jogo, a arte e o pensamento expressam a unicidade de cada um – a sua beleza – o “ser” que precede qualquer “fazer”.

De seguida, os jovens reúnem-se para seleccionar dois problemas que os afectam no seu quotidiano e, ao longo de cinco dias a aprofundar esses mesmos problemas, comprometem-se a criar novas soluções que apresentam depois às autoridades da comunidade.

Esta experiência, a primeira do Scholas, foi vivida nos últimos quatro anos por mais de 25 mil jovens, de países tão diversos como: Paraguai, Colômbia, México, Argentina, Brasil, Peru, República Dominicana, Haiti, Honduras, Emiratos Árabes Unidos, Israel, Palestina, Cuba, Estados Unidos, Itália, Espanha, Portugal e Moçambique.

E envolveram-se na implementação desta experiência directores, docentes e educadores voluntários de todo o mundo, com o apoio de governos, organismos internacionais, comunidades religiosas, fundações e empresas.

Estes jovens elegeram e criaram soluções para problemas como: as carências do sistema educativo, a discriminação, os estereótipos, o bullying e o ciberbullying, o suicídio juvenil, a poluição ambiental, a insegurança, a falta de oportunidades, a desocupação juvenil e a indiferença.

Baseada na tecnologia, na arte e no desporto, o Scholas tem o objectivo de dar corpo a um “pacto educativo para que uma sociedade pacífica e integrada seja uma realidade”. Uma das iniciativas mais conhecidas para cumprir este objectivo é o exemplo da “oliveira virtual da paz”. Que outros tipos de acções e iniciativas tiveram já lugar e que planos existem para o futuro próximo?

Através do programa “Compromissos pela Paz” estamos a realizar um conjunto de eventos desportivos e musicais em vários países, com a participação de artistas e desportistas de primeiro nível que nos apoiam para dar voz à cultura do encontro.

No que respeita à tecnologia, a parceria que fizemos com a Code.org permitiu-nos criar a campanha “Programando pela Paz”, que traz a tecnologia, de uma forma simples, a todas as comunidades onde estamos presentes. Os jovens têm pela primeira vez ao seu alcance a possibilidade de aprender a programar e de tornar reais projectos com os quais sonham.

Como se cultiva, através do processo de gamificação [a utilização de técnicas características dos videojogos em situações do mundo real aplicadas em variados campos de actividade, sendo a educação um deles] esta “cultura de encontro” de que o Papa tanto fala?

Os nossos projectos como as “Escolas de Formação” e as “Escolas de Jogo, Arte e Pensamento” são experiências que complementam e reforçam o trabalho das comunidades educativas e dos jovens que já participaram nos programas do Scholas, contribuindo assim para a sustentabilidade das redes e colocando em prática as propostas geradas pelos jovens e novas propostas de maior alcance. É muito importante oferecer um espaço de encontro e diálogo entre os distintos actores sociais, estimulando a cultura do encontro e a participação cidadã, através de processos de integração e de aprendizagem que cativem todos.

O Scholas tem também um acelerador de projectos educativos, que se centra na tecnologia e na inovação – o Scholas Labs. Como se processa este acelerador?

O Scholas Labs é um programa que junta inovação e tecnologia a favor da educação com responsabilidade social, percepcionando-a não como um mero instrumento ao serviço de uns poucos, mas como uma ferramenta que é posta ao serviço do bem comum e que é capaz de transformar e restabelecer o pacto educativo, longe da visão instrumentalista e enviesada que ocupa hoje o cenário educativo.

A missão do programa está orientada para a busca e desenvolvimento de soluções inovadoras ao serviço da educação através de diversos projectos e iniciativas de base tecnológica; procura, em concreto, acelerar projectos educativos e apoiar empreendedores tecnológicos comprometidos com a inovação e a educação, com o propósito de fomentar a integração e a paz.

Inclui experiências específicas como o “Scholas Labs Jam”, uma iniciativa que junta, durante vários dias, estudantes, empreendedores e empresários, para ajudar a criar serviços e modelos de desenvolvimento que resolvam algumas das necessidades mais urgentes das comunidades que os rodeiam.

Este modelo de trabalho incentiva o pensamento criativo dos estudantes e gera, através de técnicas e ferramentas próprias do service design, ideias e propostas úteis para a comunidade educativa. Os estudantes têm a oportunidade de aprender novas metodologias aplicáveis a qualquer âmbito do estudo ou do trabalho, para além de se poderem integrar com outros alunos na procura de soluções práticas que sejam úteis para resolver as suas problemáticas quotidianas.

Para além do apoio da Santa Sé, com que outros contributos conta o Scholas e como pretende apoiar um número significativo de projectos de inclusão em todo o mundo?

O Scholas desenvolve as suas experiências educativas em todo o mundo muito graças ao generoso apoio de doadores individuais e corporativos, organismos internacionais e governos locais, regionais e nacionais.

O Scholas trabalha igualmente na criação de sinergias e geração de vínculos e pontes entre actores sociais distintos que permitem assessorar e apoiar técnica e economicamente o desenvolvimento dos seus projectos educativos. Graças a estes apoios, o Scholas continua a plantar a oliveira e a semear os valores da cultura e do encontro.

Desta forma, contamos com o Scholas Social, que é um programa com um carácter integrador e transversal, do qual se servem vários dos programas do Scholas, e que tem como eixo de articulação uma plataforma digital que facilita a integração de escolas tanto públicas como privadas, laicas e de todas as confissões religiosas, bem como de redes educativas de todas as culturas, de todos os países do mundo.

Este programa e a respectiva plataforma permitem que mais de 500 mil comunidades educativas, nos seus diferentes níveis, entrem em contacto e partilhem as suas experiências, metodologias, projectos e avanços dos mesmos.

A partir do diálogo directo entre educadores de 190 países, geram-se projectos que são impulsionados pelo Scholas para mudar e sensibilizar para um novo conceito de educação, com vista a retomar o seu valor como eixo transformador da sociedade.

Enquanto plataforma dinâmica e centrada no utilizador ou, por outras palavras, nos mais de um milhão de estudantes, docentes e investigadores, participantes, formadores e voluntários dos programas Scholas, está em constante revisão, ampliação e fortalecimento para melhorar a sua utilização e aproveitamento, aspectos que vão desde as melhorias nos sistemas de articulação e sinergia dos projectos apresentados pelas escolas, até ao desenvolvimento de conteúdos educativos digitais.