Tem vindo a afirmar-se continuamente no desenvolvimento e difusão de novos modelos organizacionais e a emergir como uma forma alternativa de se pensar e reorganizar a economia e a sociedade. A economia social está no mapa-mundo e conta agora com novos apoios institucionais de que são exemplo a Comissão Europeia, a OCDE ou o Fórum Económico Mundial, entre vários outros. O seu papel enquanto parte de um ecossistema, a sua acção enquanto agente de mudança e as parcerias que está a desenvolver com decisores políticos e líderes do sector com fins lucrativos são explorados neste artigo por um conjunto de especialistas na área
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA
© Stanford Social Innovation Review

Na Europa, a economia social tem sido tradicionalmente vista como uma forma de abordar falhas do mercado ou do Estado, de que são exemplo a exclusão financeira de pessoas que vivem na pobreza ou a ausência de respostas adequadas para os sem-abrigo. E, na prática, durante um longo período de tempo, esta “pré” economia social assentou somente na existência de organizações de assistência social, de cooperativas, de sociedades de ajuda mútua, de associações cívicas, entre outras entidades similares. Este tipo de organizações continua a desempenhar um papel importante na prestação de serviços sociais, defendendo os grupos mais vulneráveis da sociedade e contribuindo para a coesão social e para a solidariedade.

No entanto e nas últimas duas décadas (e mais ainda de há 10 anos a esta parte), o desenvolvimento e a difusão de novas formas e modelos organizacionais alargaram o conceito e as acções de economia social. Em particular, começou a ser reconhecido o seu papel na promoção de uma transformação “verde” e social que tem as premissas da inclusão, equidade e responsabilidade nos seus princípios fundamentais, os quais devem ser igualmente abraçados para se alcançar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pelas Nações Unidas. Neste processo, a economia social deixou de ser o parente pobre do mercado e do Estado e, em vez disso, está a emergir como uma forma alternativa de pensar e organizar a economia e até mesmo a própria sociedade.

De forma não surpreendente, a economia social assenta em duas componentes principais: na comunidade que, e segundo o professor da Universidade de Chicago Raghuram Rajan, foi demasiadas vezes deixada para trás pelos mercados e pelo Estado; e na solidariedade, que e nas palavras dos professores do European University Institute , Philipp Genschel e Anton Hemerijck, consiste  na “ expectativa normativa de apoio mútuo entre os membros de grandes grupos anónimos (a classe, o partido, a nação)… que devem partilhar os riscos e os fardos uns dos outros para assegurar os objectivos e a coesão do grupo como um todo”.

Esta alteração da economia social pode ser vista em toda a sociedade, mas particularmente no sistema económico global, o qual se encontra numa busca desesperada para se reinventar e abraçar o propósito como a sua força motriz. Actualmente, por exemplo, as pessoas vêem o empreendedorismo social menos como uma forma organizacional particular e mais como um método universal de acção inovadora que visa procurar soluções para os problemas sociais através de abordagens não convencionais. Esta metamorfose pode ser igualmente observada nas mudanças céleres e “pró-sociais” dos modelos empresariais que ocorreram em resposta aos desafios provocados pela Covid-19 e na emergência do que alguns chamam de “cooperativismo de plataforma”, que procura combinar elementos de acção baseados em valores, inovação “aberta” e digitalização como forma de dar origens a formas pioneiras de conduzir os negócios.

Os apoios Institucionais para a economia social

São várias as instituições europeias que estão a promover este conceito alargado da economia social. O Programa da UE para o Emprego e Inovação Social (EaSI) da Comissão Europeia tem tido uma dupla missão, centrada nas questões do emprego (o que se poderá considerar como a “velha maneira” de se pensar sobre este tipo de economia), mas também no apoio ao empreendedorismo e à inovação social, em conjunto com o financiamento para o impacto (reflectindo esta nova “compreensão” do seu conceito). Esta abordagem será ainda mais reforçada quando o programa se tornar uma parte central da versão actualizada do Fundo Social Europeu para o emprego (FSE+).

Além disso, a Comissão Europeia anunciou recentemente a visão de “Uma Europa Social Forte para Transições Justas” num plano de acção para a economia social, a fim de reforçar o investimento e a inovação social e impulsionar o potencial das empresas sociais para a criação de emprego, incluindo para as pessoas que mais afastadas estão do mercado de trabalho. Espera-se que esta iniciativa política emblemática seja adoptada no quarto trimestre de 2021, ou seja, muito brevemente.

Por seu turno, a Comissão Europeia não está sozinha na tentativa de reforçar a economia social, com a mesma tendência a disseminar-se um pouco por todo o mundo. Em 2020, a OCDE lançou a Acção Global “Promover Ecossistemas de Economia Social e Solidária“, um projecto que incluirá mais de 30 países e terá uma duração de três anos. Também o Fórum Económico Mundial iniciou recentemente uma “Aliança de Resposta à COVID para Empreendedores Sociais”, a qual tem como objectivo acelerar a “colaboração inovadora” entre fundações, empresas e o sector social, numa tentativa de quebrar barreiras que mantêm os actores destes diferentes pilares desligados uns dos outros. E, por fim, o proposto Green New Deal nos Estados Unidos tem como propósito estimular uma transição para um sistema comercialmente viável de abastecimento a partir de fontes de energia renováveis, que as organizações que integram o movimento social há muito provaram não ser apenas uma utopia desejável, mas uma realidade com resultados positivos.

Para explorar estas tendências, os autores deste artigo (v. Nota) promoveram a denominada “Social Economy Science Conference”, que se realizou em Novembro de 2020 para discutir a economia social na Europa. A conferência atraiu mais de 800 participantes a trabalhar no terreno, bem como políticos e académicos, servindo como um fórum para debater formas actuais e futuras para transformar a sociedade e a economia. O tema foi analisado pelos promotores do evento a partir de três perspectivas por excelência: a economia social enquanto parte de um ecossistema, como um agente de mudança e como parceira por excelência dos decisores políticos e do sector com fins lucrativos. Cada uma destas perspectivas é explorada seguidamente.

A economia social como um ecossistema

Nos últimos anos, o pensamento sistémico tem crescido em popularidade como forma de as organizações criarem mudanças sociais, apesar de as tentativas para o aplicar ficarem muitas vezes aquém do desejado. 

O pensamento sistémico é mais eficaz quando as pessoas adoptam uma perspectiva mais ampla e ambiciosa, ao memo tempo que utilizam o conhecimento contextual e tentam puxar as “grandes alavancas” da mudança social. Este tipo de pensamento pode ser melhorado através da análise da relação entre a economia social e as tendências sociais mais amplas, tais como a digitalização, a adopção pelos mercados financeiros de métricas de impacto social ou os novos processos de mobilização dos cidadãos, de que é exemplo o crowdsourcing.

Enquanto a inovação dos modelos empresariais está a ter lugar, muitas das ferramentas disponíveis para criar sistemas de mudança – de que é exemplo o Social Business Model Canvas da Comissão Europeia – representam apenas meras derivações do mundo empresarial, não abraçando totalmente a mudança social. Ou seja, estes instrumentos que se concentram menos em organizações individuais e optam por uma visão mais alargada na resolução de problemas sociais, tal como o Social Economy Canvas da Comissão Europeia acima referido, estão a emergir, mas estão apenas disponíveis numa versão beta. O que torna o desafio ainda mais complexo em termos de implementação são as rápidas mudanças na tecnologia digital e a exacerbação dos problemas sociais, que aumentaram a velocidade necessária para que os actores da economia social consigam adaptar as suas estratégias. 

Os dados abertos (open data), a digitalização e inteligência artificial oferecem ferramentas poderosas para dominar estas adaptações, mas enquanto a tecnologia para o “bem social” está a crescer, muitos destes modelos referem-se a organizações que também criam valor para a sociedade. Todavia, os exemplos organizacionais onde a tecnologia social é aplicada explicitamente para uma resolução mais eficaz de problemas sociais são muito mais raros. O que pode melhorar a implementação da tecnologia para a criação de valor social são os esforços multi-stakeholder e em grande escala, capazes de iniciar processos abertos de inovação social. 

Uma barreira persistente à adopção de uma abordagem sistémica dos problemas sociais reside na falta de recursos financeiros necessários para transferir, difundir e escalar essas soluções. Embora os mercados financeiros sustentáveis e sociais, de que é exemplo o investimento para o impacto, estejam a crescer, verifica-se com demasiada frequência uma falta de criação de valor conjunta e colaborativa entre os investidores de impacto e aqueles que beneficiam desse mesmo investimento. Uma das razões para esta falha são as ideias divergentes, ou subdesenvolvidas, de como medir e fazer o reporte do impacto social, que conduzem a um desajustamento entre as esperanças requeridas para contribuir para um mundo melhor através de uma revolução de impacto e os efeitos reais que são priorizados e alcançados.

A economia social como agente de mudança

Embora a utilização do pensamento sistémico seja uma forma importante de criar uma mudança duradoura e profundamente enraizada, é igualmente importante que a economia social desenvolva soluções indirectas para os problemas, que nem sempre são óbvias e, portanto, frequentemente ignoradas. A economia social não só cria melhorias necessárias à sociedade, como também pode funcionar como um farol para que outros a sigam – sejam eles actores empresariais ou decisores políticos que são levados a reavaliar e a rever as suas práticas estabelecidas.

As empresas sociais, por exemplo, promovem certos princípios de estrutura organizacional (como hierarquias planas e descentralização) e práticas organizacionais (como a tomada de decisões participativa), tornando-se assim um terreno fértil para testar soluções para a democratização do trabalho e da vida nas organizações. As empresas sociais funcionam também como um motor de inclusão, sendo vários os estudos recentes que mostram que pelo menos 50% dos empreendedores sociais são mulheres, demonstrando uma realidade com a qual outros sectores apenas sonham.

A economia social também criou processos de inovação colaborativos e acções conjuntas, orientadas por valores, que podem servir de modelo para outros. Veja-se, por exemplo, o movimento ascendente do Catalyst2030 que visa acelerar as transformações dos sistemas, utilizando o princípio orientador da auto-organização. Um ramo emergente de outras actividades concentra-se explicitamente no aproveitamento do conhecimento das instituições do ensino superior gerado através da investigação e dos próprios currículos para apoiar o desenvolvimento de capacidades, que se repercutem depois em outros sectores com vista a chegarem mais perto das metas que integram os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.

O próximo Plano de Acção Europeu para a Economia Social está a posicionar o sector social como um farol que ajude outras entidades a se orientarem na recuperação pós-Covid. Alguns autores têm argumentado que a economia social é o domínio por excelência para se encontrar valores sociais, princípios éticos e práticas de solidariedade sobre os quais o mercado e o Estado devem ser construídos. Outros utilizaram o termo para defender uma mudança social nas nossas economias de mercado globais, para se orientarem mais fortemente pelo princípio da solidariedade. De facto, os relatos da acção da economia social durante a crise da Covid não só apontaram as deficiências nas decisões estratégicas tomadas pelo sector empresarial, ao mesmo tempo que constituíram um exemplo a seguir por este último.

Ao manterem o princípio da solidariedade em todas as suas actividades, as organizações de economia social são vistas como guardiãs do crescimento inclusivo, em oposição à agenda mais geral de “crescimento inteligente” nos países ocidentais. E são também motores de processos de inovação social nos países em desenvolvimento que permitem um desenvolvimento social e económico integrado, ancorado nas fortes ligações das organizações da economia social aos seus grupos-alvo.

A economia social e as parcerias

O pleno potencial da economia social só pode ser realizado se for possível criar parcerias entre as organizações que a praticam, empresas e organizações estatais. As parcerias são particularmente importantes para a integração de práticas inovadoras que visam impulsionar o processo de inovação social. Embora as organizações da economia social sejam frequentemente pioneiros no que respeita às inovações sociais, podem também beneficiar dos vastos recursos das empresas e da formulação de políticas e legitimidade política do Estado.

Iniciativas governamentais nacionais como a Le French Impact ou a Portugal Inovação Social estão a utilizar fundos públicos para estabelecer estas parcerias, na esperança de produzir melhores resultados. Os títulos de impacto social (TIS) têm uma função semelhante, embora em menor escala, oferecendo a promessa de promover formas mais arriscadas de inovar e estimular a experimentação na prestação de serviços sociais

Por outro lado, as plataformas digitais que envolvem um conjunto de actores variados não só mostram as melhores práticas na esperança de que outros as possam replicar, como também as disponibilizam a outros actores para uso conjunto e colaborativo, bem como para um maior desenvolvimento, oferecendo ainda uma forma mais rápida de amplificar as abordagens socialmente inovadoras face ao escalar do trabalho de uma única organização.

NOTA

Sobre os autores:

Gorgi Krlev é investigador sénior no Centro de Investimento Social da Universidade de Heidelberg e professor visitante no Politecnico di Milano. É o co-editor da Social Innovation-Comparative Perspectives (Routledge open access, 2019).

Giulio Pasi trabalha na Comissão Europeia, onde dirige o seu trabalho sobre inovação social, economia social, e o futuro do Estado Providência. Tem um conjunto alargado de publicações nas áreas do investimento para o impacto e da reforma do sector público, bem como no que respeita à engenharia financeira de sistemas de bem-estar e de transformação digital.

Dominika Wruk é professora assistente de Empreendedorismo Sustentável na Universidade de Mannheim. Uma das áreas de investigação em que se concentra é o desenvolvimento de novas formas de organização, a sua distribuição pelos cenáriosorganizacionais, e o seu impacto social, ecológico, e económico.

Marika Bernhard é directora de programação e bolsas no DFL Stiftung, fundadora e presidente da Social Entrepreneurship Baden-Württemberg e uma das fundadoras da Cimeira de Inovação Social.

Traduzido com permissão de “Reconceptualizing the Social Economy”. © Stanford Social Innovation Review 2021.

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