Depois de três intensos dias ligados a Assis, é tempo de revisitar mais serenamente a Economia de Francisco, para recolher ideias e apelos que vão amadurecendo e indiquem caminhos por onde este movimento possa continuar a crescer. Fui partilhando, em cada dia do encontro, um “Diário de Bordo” no Ponto SJ com as minhas impressões, pelo que não voltarei em detalhe aos vários momentos do evento. Agora, inspirado em S. Francisco de Assis e S. Inácio de Loyola, pretendo apresentar três atitudes espirituais que guardo deste encontro que me parecem essenciais para construir a Economia de Francisco (e para a nossa vida em geral)
POR AFONSO ESPREGUEIRA, sj

1. Louvar

«Acreditai-me, Fílon, toda a Terra está amaldiçoada e manchada. Existe uma perpétua guerra acesa entre todas as criaturas vivas. A necessidade, a fome e a carência estimulam os fortes e corajosos; o medo, a ansiedade e o terror agitam os fracos e enfermos. O início da vida angustia a criança recém-nascida e os seus miseráveis progenitores; a fraqueza, a impotência e a agonia acompanham cada estágio da sua vida, que termina, por fim, em agonia e horror» (Hume, Diálogos sobre a Religião Natural).

É certamente possível olhar à nossa volta e ver, como Hume, apenas miséria e destruição. É fácil pintar um mundo no qual parece que não vale a pena viver. Em tempos de pandemia, crise económica, problemas ambientais ou guerras sangrentas como em Cabo Delgado, quando os jornais quase só anunciam desgraças, podemos de facto cair num pessimismo lamurioso e decretar que o mal vai mesmo vencer.

Contudo, no início da Economia de Francisco, D. Domenico Sorrentino, bispo de Assis, começou por invocar o Cântico das Criaturas de S. Francisco: «Altíssimo, omnipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. / A ti só, Altíssimo, se hão-de prestar e nenhum homem é digno de te nomear. / Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas…».

Pode parecer um contrassenso que alguém seja capaz de ver beleza na Terra e dar graças a Deus, se estamos rodeados de tantas desgraças. E, no entanto, foi assim que arrancou o encontro de Assis, ecoando a atitude com que S. Francisco pautou a sua vida. A sua época tinha também os seus problemas, mas isso não o impedia de reconhecer o bem no mundo e, por essa via, louvar o Criador. De facto, se olharmos com cuidado, podemos concluir que, afinal, o nosso mundo está repleto de bondade. O bem à nossa volta pode não ser tão ruidoso como o mal, mas está lá, a sustentar a realidade e a permitir a vida. Está presente no vigor e na beleza da natureza. Revela-se nos pais que cuidam dos seus filhos, nas empresas que produzem bens essenciais ao nosso dia-a-dia, nos voluntários que ajudam a suprimir as carências de outros, nos políticos que procuram medidas que vão de encontro às necessidades das populações… E, mesmo que tal não seja evidente ao primeiro olhar, a verdade é que o nosso mundo é amável (isto é, passível de ser amado).

Para que isto se torne mais claro, podemos pedir, como S. Inácio sugere nos Exercícios Espirituais, a graça do “conhecimento interno de tanto bem recebido, para que eu, reconhecendo-o inteiramente, possa, em tudo, amar e servir a sua divina majestade” (EE 233). Esta vontade de reconhecer o bem deve cultivar-se diariamente e, por isso, o exame inaciano começa pela ação de graças.

Procurar o bem no mundo, reconhecê-lo, dar graças e louvar a Deus é a primeira atitude que fundamenta a Economia de Francisco. É este olhar que nos enche de esperança e desejo de levar o bem aonde ele não está.

2. Reparar

Dizer que o mundo é bom não nos impede de reconhecer que há mal no mundo, que há gente a sofrer por causa de uma economia que mata e que o ser humano causa danos à natureza. É, aliás, essa consciência e a vontade de fazer algo novo que move a Economia de Francisco. Reparar tem, pois, um duplo sentido: por um lado, ver o bem e o mal no mundo; por outro, sarar as feridas com que nos deparamos.

Desta forma, o pedido que Cristo dirigiu a S. Francisco há quase 800 anos continua vivo e a interpelar-nos: «Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está em ruínas». Inicialmente, o jovem Francisco pensava que Jesus falava apenas da igreja de S. Damião, mas foi percebendo que era um apelo mais amplo para ir ao encontro das realidades sofridas. O convite de Cristo a Francisco foi repetido pelo Papa na carta que escreveu a convocar o encontro em Assis e novamente lembrado no seu discurso de conclusão do evento online, onde, ao longo dos dias, se foi também fazendo eco desta vocação de S. Francisco. Trata-se de um movimento de saída, rumo às periferias existenciais, para levar a alegria do Evangelho a todo o mundo.

Quando nos Exercícios contemplamos a Encarnação e pedimos a graça do conhecimento pessoal de Jesus, para mais O amar e seguir (cf. EE 101-109), somos igualmente introduzidos a esta dinâmica. Inácio propõe que imaginemos a Trindade a olhar a Terra: ao ver como os homens se perdem, as pessoas divinas decidem que chegou a hora de os salvar. É um processo contemplativo que desemboca no desejo de colaborar na missão reparadora de Cristo, à qual Ele nos chama, e a agir nesse sentido.

No contexto da Economia de Francisco, isto significa pensar a economia para além do homo economicus e procurar um equilíbrio saudável em tensões como Trabalho e Cuidado, Vocação e Lucro ou Gestão e Dom (alguns dos 12 grupos de trabalho da Economia de Francisco), a fim de gerar um sistema económico que promova o florescimento de cada pessoa.

Reparar, no duplo significado já exposto, é pois a segunda atitude basilar da Economia de Francisco.

3. Colaborar

A Economia de Francisco é um movimento colaborativo, que acolhe a diversidade e quer dar voz aos mais pobres. Quer-se trabalhar com os pobres, não para os pobres. Trazer mais gente para o processo permite ultrapassar respostas fragmentadas ou parciais e chegar, assim, a soluções mais completas. Contudo, esta atitude não é fácil, leva tempo e implica um diálogo demorado com o diferente. É necessário, portanto, cultivá-la, não só pelos melhores resultados a que se pode chegar, mas também porque o outro é um irmão e encontrar-me com ele é, em si, bom.

S. Francisco considerava todos como irmãos, até o sol, a terra ou a água. Foi com este ideal de fraternidade que partiu ao encontro do Sultão Malik-al-Kamil, no Egito, numa época de cruzadas, para construir a paz, mesmo que isso lhe tenha sido altamente custoso por força da sua pobreza, da distância e das diferenças de língua, cultura e religião (cf. Papa Francisco, Fratelli Tutti, 2).

Da mesma forma, S. Inácio não quis caminhar sozinho e, desde cedo, procurou reunir um grupo de companheiros que partilhassem com ele a missão de Cristo. A Companhia de Jesus não foi fundada apenas por Inácio, mas por um grupo de 10 homens que queriam colaborar na mesma missão. Além disso, Inácio de Loyola, convida-nos a «salvar a proposição do próximo» (EE 22), isto é, a pressupor que o outro está bem intencionado. E isso é condição essencial para um diálogo franco e frutífero.

Colaborar é, pois, a terceira atitude fundamental da Economia de Francisco, porque o outro é um irmão que quero encontrar, porque não quero ir sozinho, porque o diálogo e a persecução de um objetivo comum permitem ir além de diferenças culturais e de ideias, fazendo delas uma força, mais que uma fraqueza.