Acredito que a realidade é moldável pelas nossas ações. Ninguém me convence que a manutenção das desigualdades indignas é condição de competitividade. Também não compro a ideia de que essa desigualdade é um dado adquirido apenas desfeito pelo crescimento económico que um dia surgirá. Faço uma aposta: se as empresas não adotarem práticas genuinamente responsáveis e respeitadoras da dignidade, quem está dotado do poder decisório e da capacidade de influência acabará por canalizar muitos frutos desse crescimento em seu benefício próprio

POR ARMÉNIO REGO

Eis o que, na véspera de Natal, foi escrito em editorial do Financial Times: “Uma força de trabalho saudável e educada é um dos mais importantes pré-requisitos do crescimento, e postos de trabalho seguros, bem remunerados e de elevada qualidade estão entre os melhores alicerces protetores do bem-estar mental. O desemprego e o trabalho de fraca qualidade podem facilmente destruir o sentido de autovalor das pessoas, ao mesmo tempo que um setor privado robusto é essencial para gerar rendimentos fiscais destinados à saúde e à educação. O objetivo deveria ser a criação de um tipo de sociedade em que o crescimento económico e o bem-estar andam de mãos dadas”.

Pouco tempo antes da publicação desse editorial, havia sido criado o Conselho para o Capitalismo Inclusivo. O movimento assume-se como “uma colaboração histórica de CEOs e líderes globais que atuam sob orientação moral do Papa Francisco, visando usar o poder dos negócios para fazer o bem”. A sua missão é contribuir para a construção “de um sistema económico mais inclusivo, sustentável e confiável que atenda às necessidades das pessoas e do planeta”. A motivação subjacente é assim descrita: “O capitalismo retirou milhares de milhões de pessoas da pobreza, mas muitas foram deixadas para trás e o planeta tem pago um preço. Existe um imperativo moral de enfrentar este desafio”. Os membros aderentes assumem compromissos orientados para a igualdade de oportunidades, a distribuição equitativa, a justiça inter-geracional focada no ambiente, e a participação justa na atividade económica. 

O editorial do FT e o Conselho para o Capitalismo Inclusivo convergem para a noção de que os negócios devem contribuir para fazer o bem. Esta “teoria” não é nova. Mas a pandemia enfatizou quão necessário é que a tomemos a peito e a implementemos – com ações. Se queremos que muitos dos nossos concidadãos e seus filhos acedam a condições de saúde e educação dignas, não devemos esperar que seja uma entidade abstrata a criar tais condições e assim nos livremos do sentimento de culpa. É necessário que as empresas, o Estado e os cidadãos em geral se comprometam a agir em prol dessa dignidade real. Infelizmente, as narrativas sobre responsabilidade social e sustentabilidade são frequentemente vazias de ação concreta. Prosseguem objetivos reputacionais que não se consubstanciam em práticas fomentadoras dessa dignidade. Por vezes, quando boas práticas são adotadas, permanecem apenas enquanto servem o interesse próprio – mas logo são descartadas quando deixam de dar jeito. A Google, que se assumiu como grande paladina da diversidade e da inclusão, despediu um engenheiro que criticou o que, do seu ponto de vista, eram práticas enviesadas e discriminatórias adotadas pela empresa. A Wayfair, empresa norte-americana de comércio eletrónico dedicada à venda de móveis e artigos domésticos, doou cem mil dólares para apoiar pessoas com “extremas necessidades básicas na fronteira” – mas vendeu o dobro desse montante, em camas, à organização que geria os centros de detenção de crianças migrantes. 

Este tipo de “piedosas” ações sugere que, por vezes, o desejo de inclusividade, diversidade e respeito pela dignidade da pessoa humana é sobretudo instrumental e pouco genuíno. É por essa razão que devemos ser cautos com empresas e líderes que defendem a responsabilidade social das empresas baseando-se no argumento de que ela é boa para os lucros. Não tendo a prática raízes genuínas, logo é abandonada quando deixa de ser boa para os lucros. Algo similar ocorre com a pessoa que é honesta porque entende que a honestidade é a melhor política – logo abandonará a honestidade se melhor política surgir. O tema é demasiado complexo para ser tratado, em profundidade, num texto como este. Mas quando o novo ano começa, e respondendo ao convite do VER, permito-me partilhar alguns dos meus sonhos, anseios e preocupações. 

Enchemos a boca com argumentos meritocráticos ao mesmo tempo que criamos nas pessoas pobres e pouco qualificadas o sentimento de culpa e de vergonha pela condição em que vivem. Recorremos a argumentos de competitividade para continuarmos a remunerá-las com salários miseráveis. Como podem essas pessoas financiar a educação dos seus filhos? Como podem alimentar-se com “comida saudável” e zelar pela sua saúde? Como podem aceder a condições justas de afirmação do seu mérito? Quantos danos são causados à sua autoestima e ao seu sentido de dignidade pessoal quando as lideranças que lhes pedem sacrifícios, lhes impõem cortes salariais e as despedem são as mesmas que se autoatribuem incrementos remuneratórios? 

A discussão sobre condições de trabalho e o salário mínimo está de tal modo contaminada por tensões simplesmente ideológicas que se torna quase impossível estabelecer um diálogo sadio. Alguns agentes procuram manter o status quo com argumentos alegadamente económico-racionais – mas basta escutar meia dúzia de economistas para compreender que a discussão está enviesada ou é, no mínimo, incompleta. Oiço frequentemente o argumento de que o aumento do salário mínimo é perverso para o emprego e prejudica os que poderiam vir a recebê-lo. Todavia, um estudo recente publicado no The Quarterly Journal of Economics mostrou que “a quantidade global de empregos de salário baixo permaneceu essencialmente intacta nos cinco anos após o aumento [do salário mínimo]”. Não foi encontrada qualquer evidência de aumento do desemprego como consequência do aumento do salário mínimo. Um documento do Economic Policy Institute corrobora: “Os críticos que se socorrem do argumento da quebra do emprego para rejeitar aumentos do salário mínimo estão a usar um quadro de avaliação distorcido. Focam-se apenas nos potenciais custos do aumento do salário mínimo e ignoram os benefícios resultantes do aumento dos rendimentos dos trabalhadores com mais baixos salários.” Acredito que haverá argumentos e modelos matemáticos que sustentem teorias bem distintas. Mas não posso deixar de lembrar que a resistência à abolição da escravatura também assentou em argumentos económicos. Também nunca compreendi porque o salário é motivador para quem aufere milhões – e não haveria de sê-lo para quem recebe centavos. 

Acredito que a realidade é moldável pelas nossas ações. Ninguém me convence que a manutenção das desigualdades indignas é condição de competitividade. Também não compro a ideia de que essa desigualdade é um dado adquirido apenas desfeito pelo crescimento económico que um dia surgirá. Faço uma aposta: se as empresas não adotarem práticas genuinamente responsáveis e respeitadoras da dignidade, quem está dotado do poder decisório e da capacidade de influência acabará por canalizar muitos frutos desse crescimento em seu benefício próprio. A iniquidade perpetuar-se-á. Os populismos singrarão. Impedir que tal cenário se concretize requer esforços e sacrifícios conjuntos – de empresários, de gestores, de trabalhadores e dos próprios académicos. Aos direitos precisamos de acrescentar deveres. Temos que reconhecer que muitos empresários são dotados desse sentido de dever em prol do bem comum – e dele têm dado mostras durante esta pandemia. Por isso concluo reiterando o que escreveu o Financial Times e que o Papa Francisco subscreveria: “O objetivo deveria ser a criação de um tipo de sociedade em que o crescimento económico e o bem-estar andam de mãos dadas”. Para que esse empreendimento seja bem-sucedido, mais empatia é necessária – para que nos coloquemos no lugar do outro que, sofrendo na pele a dor da indignidade, protesta e se revolta. Se estivéssemos no seu lugar, protestaríamos ainda mais.

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