A educação não é um acaso, e a sorte não faz parte da equação que a estrutura. Num Portugal em crise, em que as famílias reinventam formas de estar mais económicas, a responsabilização positiva de pais e educadores para a hipótese de transformar as gerações futuras, é uma oportunidade, diz, em entrevista, Susana Jones, presidente da Lavoisier, a propósito do Congresso que a Associação realiza com vista à reflexão de estratégias e soluções educativas conjuntas, tendo em conta os novos desafios
POR GABRIELA COSTA

© DR

A Associação Lavoisier realiza, no dia 20 de Abril, o 7º Congresso Gente Pequena Grande Aposta. Sob o tema ‘Na Educação não há azar nem sorte’, o evento direccionado a pais, professores e educadores reúne, no Centro de Congressos de Lisboa, especialistas como Nuno Lobo Antunes, Nuno Colaço, Paula Teles, Paula Trigo da Roza, Pedro Caldeira, Carlos Neto e Tomaz Morais, que irão debater novas estratégias de prevenção e novas soluções para os problemas emergentes dos filhos e/ou alunos, num Portugal em crise.

Com menos poder económico, as famílias “reinventam os tempos livres e há uma maior preocupação em poupar e reaproveitar”. Este novo paradigma “traz diversos desafios aos professores e famílias, que se vêem confrontados com problemáticas que vão para além da sua capacidade ou possibilidade de intervenção”. É sob este pressuposto que esta IPSS especializada em Psicologia, que actua na área da promoção da saúde mental, leva à discussão, no seu 7º Congresso Gente Pequena Grande Aposta, um conjunto de temáticas que procurarão “tentar trazer uma mensagem positiva para uma mudança que todos temos de fazer, seja ela de atitude, de comportamentos ou no trabalho”.

Em entrevista ao VER, Susana Jones, presidente da Associação Lavoisier sublinha que a necessária mudança “começa em casa, na educação dos nossos filhos e na escola, no ensino dos nossos alunos”, até porque “filhos mais amados são mais optimistas, têm mais auto-estima e mostram menos desinteresse, agressividade ou outras problemáticas”.

A Associação Lavoisier, que desenvolve a sua actuação em quatro pilares – Prevenção, Diagnóstico, Encaminhamento e Acompanhamento em Saúde Mental – através de uma equipa técnica multidisciplinar que integra psicólogos clínicos e educacionais, educadores e professores, fisioterapeutas, estagiários curriculares, monitores de áreas criativas e culturais e voluntários, dá especial atenção à reabilitação e apoio a idosos e crianças vulneráveis.

Sem subsídios ou apoios estatais, esta IPSS depende de donativos (financeiros, através por exemplo da Campanha Ser Solidário, disponível nos Multibancos, ou em géneros) de empresas e particulares e das quotas dos seus associados para levar a cabo a sua missão: Agir na área da saúde mental, antes do problema existir sob forma de doença.

Os fundos angariados com as inscrições no 7º Congresso ‘Gente Pequena Grande Aposta’, que podem ser efectuadas no site oficial e na página do Facebook da Associação, revertem para o desenvolvimento dos inúmeros serviços que disponibiliza – avaliação psicológica e diagnóstico, encaminhamento integrado, aconselhamento parental, terapia familiar, apoio psicopedagógico ao aluno, etc. – incluindo para quem não pode pagar.

“Uma aventura de alegria e desafios”, que implica “estar sempre a inovar, a repensar estratégias e a procurar pontes de parcerias e apoios”, conclui Susana Jones.

.
.

Susana Jones, presidente da
Associação Lavoisier

.

Quais são os grandes objectivos deste evento direccionado para pais, professores e educadores?
Na Associação Lavoisier, como especialistas na área da Psicologia e com o objectivo da Prevenção, agimos antes do problema existir sob forma de doença. E realizamos, há já seis anos consecutivos, um congresso anual com o grande mote “Gente pequena Grande Aposta”.

Tendo em conta o contexto actual em que vivemos, acreditamos que devemos tentar ajudar os nossos educadores (pais, professores, etc.), dando-lhes ferramentas essenciais para o seu desempenho, para optimizá-lo.

Convidamos sempre especialistas conceituados em diferentes áreas de intervenção, para dar respostas às questões prementes e pertinentes da vida dos nossos educadores. A forma de comunicação do congresso e a sua linguagem tende a ser mais ampla e simplificada, sem grandes termos especializados, para fazer chegar as mensagens a um público mais vasto. As edições anteriores foram um sucesso, trazendo, em média, quinhentos participantes e tornando-se, assim, um dos congressos não especializados mais concorridos do nosso país.

A que se deve o tema central do Congresso – ‘Na Educação não há azar nem Sorte’ – no contexto da actuação da Associação Lavoisier?
Há épocas e locais onde podemos pensar que é mais fácil educar os nossos filhos. Mais uma vez, sublinhamos que não se trata de ser mais fácil ou mais difícil: temos apenas que lidar com diferentes factores, logo, a nossa estratégia terá de ser outra.

A experiência da Lavoisier no terreno, junto de centenas de famílias, faz-nos ver que a educação dos nossos filhos não é um acaso, e que a sorte não faz parte da equação na estrutura da educação dos nossos filhos e no resultado dessa educação. Por um lado, é uma responsabilização de nós, enquanto pais e educadores, mas de uma forma positiva: “colhemos o que plantamos”, ou seja, temos a hipótese de transformar as gerações futuras se intervirmos agora nos nossos filhos e alunos.

Os nossos “erros” de hoje não precisam de ser os dos nossos filhos amanhã. A nossa atitude, comportamento e forma de viver está a ser observada por quem fazemos crescer e, tendo isso bastante presente, podemos “plantar mais e melhor”.

Que antevisão faz do congresso ao nível dos oradores convidados (incluído inúmeros especialistas na área) e das temáticas que serão abordadas?
Fazemos sempre questão de convidar personalidades de diferentes áreas de intervenção e pensamento. Irão ser abordadas temáticas relacionadas com diversas idades, desde a Primeira infância até à adolescência, sob a perspectiva de diversas áreas, como a saúde mental, representada por psicólogos clínicos, pedopsiquiatras e psiquiatras; a Educação, representada por psicólogos educacionais, educadores e psicomotricistas; e o desporto, representada por um psicólogo do Desporto e um treinador, ambos com conhecimento profundo de gestão de equipas e de capacidade de liderança.

Essa variedade traz a diversidade necessária, e dá aos nossos educadores ferramentas, por um lado, para ajudar a delinear estratégias de prevenção para usarem junto dos seus filhos, família ou alunos e, por outro, para abrir portas de reflexão e colocar em causa ideias preconcebidas.

Que importância tem a discussão destas temáticas – estratégias de prevenção e soluções para os problemas emergentes de filhos e alunos, e desafios com que os professores e as famílias se vêem confrontados – no actual contexto de crise socioeconómica que o país atravessa?
Estas temáticas vêm tentar trazer uma mensagem positiva para uma mudança que todos temos de fazer, seja ela de atitude, de comportamentos, de trabalho, etc. A forma como lidamos com uma série de aspectos na nossa vida tem de mudar. E porque não aproveitar e mudar uma série de questões que já estavam a deteriorar-se no seio das nossas famílias e nas escolas, antes mesmo desta crise económica?

Encarar a crise como uma oportunidade de mudança, em que somos nós que temos a responsabilidade e a capacidade de mudar, sem esperar que tal passe pelos “outros”, começa em casa, na educação dos nossos filhos e na escola, no ensino dos nossos alunos. Como o podemos fazer? Vamos reflectir em conjunto.

Defende que face à actual realidade, “a estratégia educacional tem realmente de ser repensada”. De que modo?
Temos um potencial enorme enquanto povo que ama, que tem história, que gosta de partilhar e de viver. O consumismo exacerbado estava a conduzir-nos para caminhos menos saudáveis e de solidão. Os nossos filhos estavam a ser criados sem figuras significativas numa grande parte do tempo; as actividades individuais ou o olhar para um ecrã estavam a substituir o convívio e a partilha de jogos e brincadeiras; o “comprar coisas” surgia de uma necessidade de compensar mais os filhos, em que os pais se sentiam em culpa por estarem pouco tempo com eles, quando só estavam a amar de outra forma – trabalhando para a família. Tudo parecia descartável, de “usar e deitar fora”.

© DR

Gosto de falar no passado, porque nós já estamos a mudar. As famílias sem dinheiro para comprar e fazer as coisas “do costume”, como ir ao cinema, a parques temáticos, etc., estão a reinventar formas de estarem em família, tal como voltar aos piqueniques, aos jogos de tabuleiro, aos passeios, ao convívio em casa. As roupas têm de ser usadas por irmãos e primos, tal como os livros. E alguns pais que ficaram desempregados encontraram uma nova ocupação que até é mais próxima daquilo que sempre quiseram fazer, mas nunca tiveram coragem.

Estas mudanças trazem novas realidades para a escola: filhos mais amados e “olhados” são mais optimistas e têm mais auto-estima e, por outro lado, mostram menos desinteresse, agressividade ou outras problemáticas.

A educação é um assunto sério que deve ser trabalhado em equipa. Uma equipa formada pelos pais e formadores, e que, como qualquer equipa deve ter uma estratégia e objectivos definidos. A crise no país reflecte-se obviamente nas famílias e nas escolas. A estratégia deve, pois, ser pensada em conjunto, e tendo em conta os novos desafios.

Os professores têm o grande desafio de conseguir motivar os jovens apesar de todas as contrariedades, de levar um grupo de jovens a reflectir sobre problemas que não lhe dizendo directamente respeito, fazem parte da sua educação, e transmitir os valores essenciais, quando a própria sociedade actual não os respeita.

Em que consiste a abordagem que desenvolvem através de actividades criativas em ateliers de estimulação psicopedagógica, recorrendo a uma equipa técnica multidisciplinar?
Agir antes do problema existir sob forma de doença é o nosso objectivo principal. A psicologia é a nossa ferramenta de base. A presença do psicólogo permite desmontar, trabalhar e reformular determinados comportamentos e pensamentos do indivíduo, tornando-o assim mais capaz, mais criativo e mais saudável física e psicologicamente.

“A crise no país reflecte-se obviamente nas famílias e nas escolas. A estratégia deve, pois, ser pensada em conjunto, e tendo em conta os novos desafios” .
.

Desenvolvemos projectos nas mais diversas áreas, como por exemplo no envelhecimento activo, em que trabalhamos as competências através das artes, da informática, da jardinagem e da nutrição, entre outras. Na infância e na adolescência, através de Congressos e Conferências, damos ferramentas aos pais e educadores para o crescimento saudável das novas gerações, e na família, trabalhamos a optimização da rede de comunicação e estrutura familiar.

Acreditamos no trabalho em equipa, e porque só queremos o melhor para quem nos procura, temos os melhores parceiros nas diferentes áreas.

Na Associação Lavoisier, temos como objectivo fazer chegar a Psicologia a todas as faixas etárias e a todos os estratos sociais.

Dedicam-se em especial à reabilitação e apoio a idosos e crianças vulneráveis. De que forma prestam uma atenção particular às comunidades mais carenciadas?
As comunidades carenciadas devem ter o mesmo acesso a serviços de qualidade de psicologia, seja para uma avaliação psicológica da sua criança, seja para uma intervenção numa problemática da família que está a ser difícil resolver sem ajuda, seja numa dificuldade de aprendizagem ou comportamental, entre outras. A nossa experiência diz-nos que todas as pessoas são iguais nas dificuldades gerais, por isso, todos devem ter o mesmo acesso a meios para desbloquear problemáticas que, sem ajuda, seriam mais difíceis.

Relativamente à população mais idosa, ela é uma preocupação da Lavoisier já muito antiga, que desde 2004 leva até esta população ateliers psicopedagógicos, de intervenção no seu envelhecimento saudável e digno, acreditando que existe sempre hipótese de mudar e de melhorar a nossa vida. O carácter colectivo destas actividades visa estimular a descoberta do prazer de (re)criar; a imaginação, a capacidade de (re)inventar e a destreza manual; a aquisição de novas ferramentas para lidar com novas situações; a facilidade na socialização; a promoção de auto-estima e de autoconfiança; e o crescimento de conhecimentos ao nível da relação consigo e com os outros.

Conduzimos assim rumo à reabilitação de capacidades esquecidas, desvalorizadas ou, até mesmo, nunca exploradas, de forma a promover a auto-estima, o bem-estar e a integração do idoso na comunidade e na família, bem como a partilha e o trabalho de grupo. Neste momento, temos a decorrer ateliers de Jardinagem, Informática e Fisioterapia para a população mais idosa não ficar sozinha e estar activa física e psicologicamente. Este grupo continua a aumentar na nossa comunidade, por isso a Lavoisier continua atenta, sempre a tentar encontrar respostas adequadas.

Com que metodologia de intervenção desenvolvem o vosso principal objectivo: desmontar, trabalhar e reformular determinados comportamentos e pensamentos do indivíduo, tornando-o mais capaz, criativo e saudável física e psicologicamente, intervindo antes do problema existir sob forma de doença?
A Lavoisier tem como missão de base, com diversas actividades e contacto com a comunidade que realiza, a desmobilização do preconceito ainda existente de que a Psicologia é só para os “loucos”. Fomentando a ideia de que podemos e devemos procurar ajuda quando percebemos que algo já não está ao nosso alcance para mudar ou perceber, tentamos passar a informação de quando se deve procurar essa ajuda, e que tipo de ajuda é necessário. Desta forma, prevenimos o complexificar de algo que se poderia tornar grave ou mesmo numa doença.

Por outro lado, a nossa intervenção tende a ser rápida, de acordo com a necessidade e capacidade do indivíduo, indo de encontro ao potencial natural de cada um e abrindo um leque de hipóteses para cada um poder crescer à sua medida. Trabalhamos de forma multidisciplinar, envolvendo pais, médicos, professores, a comunidade, o que for necessário para uma melhor resposta.

Que importância tem esta vertente da prevenção de doenças do foro psicológico para o sucesso da vossa intervenção, quer ao nível da promoção da saúde mental junto de crianças, jovens, adultos e idosos, quer ao nível da redução de custos económicos individuais e sociais gerados por essas doenças?
A prevenção é determinante para a nossa saúde, se soubermos identificar os sinais, se soubermos perceber o que já não é bom nem normal e quando devemos procurar ajuda. Sem desvalorizar os nossos sentimentos ou preocupações, podemos chegar mais longe enquanto pais, funcionários, cidadãos, etc. Ainda é um tabu ir a um psicólogo.

Nós sabemos que quem recorre à consulta no aparecimento dos primeiros sinais, consegue muito mais facilmente conhecer-se melhor e saber como agir perante si e a sua vida de uma forma mais saudável. A psicologia dá ferramentas para a pessoa usar, a vida toda, a seu favor e dos seus. Não quero com isto dizer que deixe de sofrer, entristecer ou errar, pelo contrário, aprende o quão natural é chorar, tal como rir, e que os nossos sentimentos devem ser levados em conta e importância, sem serem classificados de egoísmo. E aprende ainda a aceitar melhor e de forma adaptativa e natural as coisas menos boas.

O acesso aos serviços de psicologia especializados, aumentando a facilidade e normalização dessa mesma procura (como ir ao dentista ou ao ginásio), faria com que menos pessoas recorressem aos serviços de urgência e /ou médicos, diminuiria as baixas médicas, levar-nos-ia a um menor consumo de medicação, a uma maior capacidade de lidar com a dificuldade e frustração, e a uma menor culpa e dificuldade na educação dos filhos, entre outras vantagens.

Uma grande parte dos nossos problemas de saúde advém de ansiedade ou depressões nunca diagnosticadas. A prevenção leva à não necessidade ou diminuição da quantidade de medicação, a uma participação social mais activa e à diminuição de depressão e de outros estados de risco psicológico.

Pensámos assim que deveríamos chegar à prevenção às empresas. Hoje, mais do que nunca, “tempo é dinheiro” e as empresas têm de ser bastante produtivas, criativas e inovadoras e para tal precisam de “mentes sãs”, não podendo dispensar o importante trabalho dos seus colaboradores. Este projecto inovador, designado “Dar Saúde ao Trabalho”, consiste num trabalho de couseling de intervenção breve, focado em capacitar a pessoa a tomar decisões, dando os recursos necessários para “ajudar a pessoa a ajudar-se”.

Outro projecto direccionado para as empresas, cujo nome é “Prevenir para Reformar”, tem como objectivo ajudar a integração de pessoas no período pré-reforma, facilitando uma melhor adaptação a essa nova fase e fomentando a vivência de um envelhecimento com maior qualidade de vida.

Dos inúmeros serviços que oferecem, desde avaliação psicológica e diagnóstico, a encaminhamento integrado, passando por aconselhamento parental, terapia familiar ou apoio psicopedagógico ao aluno, quais destaca pela sua importância no actual contexto das famílias?
Neste momento, destaco o aconselhamento parental pela confusão que muitos pais encontram nas muitas dúvidas que têm, muitas vezes, após uma avaliação do seu filho. Nesse momento, ajudamos os pais a entender o que se está a passar e como se pode intervir, dando-lhes ferramentas para tal.

Num mundo a correr, e em que podemos ainda não querer um psicólogo na nossa vida, o speed couseling  permite, por meio de uma só consulta, dar um aconselhamento “rápido” para questões práticas do quotidiano, como por exemplo a  orientação profissional para quem quer ou precisa de mudar de carreira e não sabe bem para onde, ou o acompanhamento para o desbloquear de problemáticas antes de se poderem tornar uma doença, seja em que formato for. Sendo saudáveis, somos melhores pais, melhores maridos ou mulheres, melhores funcionários ou gestores, melhores amigos e, em última instancia, melhores cidadãos.

Como é o quotidiano de uma Associação que apoia cerca de duzentas pessoas por mês “a preços de solidariedade”, sem subsídios ou apoio Estatal?
É uma aventura de alegria e desafios. Não podemos estar parados, temos de estar sempre a inovar, a repensar estratégias e a procurar pontes de parcerias e apoios. A criatividade tem de estar sempre presente na nossa actividade, o que nos permite crescer e querermos sempre o melhor para nós, para a Lavoisier e para dar todos os dias melhores respostas a quem nos procura e conta com o nosso trabalho.

Gabriela Costa

Jornalista