A crise dos refugiados na Europa pode ser vista como uma trágica odisseia com milhões de pessoas a arriscar as suas vidas para chegar ao porto seguro que é o continente europeu. Embora as viagens de fuga e as situações devastadoras em alguns campos de refugiados sejam bem documentadas pelos media a nível mundial, um tema que tem recebido muito menos atenção é a integração dos refugiados na sociedade e, especialmente, no mercado de trabalho, assim que finalmente alcançam este suposto porto seguro. Um grupo de alunos da Áustria, Itália e Portugal uniram-se para realizar um projecto de tese de mestrado focado, em particular, neste último aspecto

POR GUDRUN DREXLER, JOANA DURÃO, MARCO BUCALOSSI E JOÃO GOUVEIA

 

Vislumbre de esperança em Portugal  

Uma organização que está a tentar impactar positivamente esta realidade é a Associação Pão a Pão, uma ONG portuguesa responsável pelo restaurante do Médio Oriente Mezze cujo objetivo é empregar refugiados que chegam a Portugal. Através deste projeto, a Associação foca-se em particular nas pessoas com maior dificuldade de integração no mercado de trabalho português: mulheres e jovens com estudos por concluir. Desde a sua inauguração em 2017, o restaurante integrou com sucesso cerca de 30 refugiados do Médio Oriente e graças aos seus colaboradores e parceiros como o Turismo de Portugal, o restaurante ganhou fama, tornando-se uma das melhores cozinhas do Médio Oriente da capital portuguesa. 

No entanto, existe um problema que a o restaurante enfrenta atualmente e limita a sua missão: a criação de uma “bolha” – um espaço seguro, no qual os atuais empregados escolhem permanecer e desta forma, não é possível empregar novas pessoas que cheguem ao país. Este “efeito bolha” pode ser explicado através de diversos fatores: por um lado, foi criado um ambiente seguro para acolher refugiados, onde podem trabalhar e socializar com outras pessoas em situações idênticas, e onde se sentem em casa; por outro, muitos refugiados não têm experiência profissional, domínio da língua ou certificados e outros documentos necessários para navegar no mercado de trabalho fora do Mezze

Para resolver este problema, perguntámo-nos: como podem entidades como a Associação Pão a Pão e o restaurante Mezze integrar refugiados no mercado de trabalho de forma a ajudá-los a fazer parte da sociedade como um todo e não só de uma pequena bolha? 

Recomendações/conclusões relativas ao Mezze e outras Organizações Sociais 

Existem vários obstáculos no processo de integração relativos à própria organização, que por vezes são esquecidos ou deixados para segundo plano. 

Uma das recomendações mais relevantes, e que afeta diretamente os beneficiários de um programa de integração, é a transmissão de conhecimento relacionado com temas burocráticos do trabalho, bem como a legislação em vigor no país de acolhimento. A título de exemplo, é bastante comum que um refugiado não tenha noções sólidas sobre toda a dinâmica de salários/ impostos existentes numa empresa, o que, muitas vezes, pode levar a mal-entendidos entre empregados e empregadores. Proporcionar estas ferramentas facilitaria este entendimento do dia a dia, ao mesmo tempo que proporcionaria a confiança e a transparência necessárias para reerguer uma vida num país desconhecido. 

Outra questão crucial que as organizações e empresas devem ter em mente aquando da implementação de um programa de integração é o planeamento adequado de todo o projeto, isto é, estabelecer etapas, prazos e indicadores é crucial para medir o desempenho e o alcance dos resultados. A medição de impacto, quantitativo e qualitativo, deve tornar-se prioritária para entender se as iniciativas implementadas são realmente eficazes para a integração de refugiados no mercado de trabalho e na sociedade. 

Seria também interessante, principalmente para organizações sociais, desenvolver campanhas de marketing social e causal com o objetivo de consciencializar para o problema e alinhar a marca do negócio à missão social da organização. Através destas campanhas é também possível atrair novos parceiros ou investidores com o intuito de obter o financiamento necessário para implementar um programa como este. 

Perspetiva da comunidade portuguesa 

Descobrimos que uma boa integração na sociedade depende não só da disponibilidade do refugiado para aprender e adaptar-se a uma nova cultura, mas também da comunidade local que o recebe. Por este motivo, é necessário analisar de que maneira a comunidade portuguesa encara a chegada de refugiados ao país e qual o impacto que a mesma teria para a economia e o mercado de trabalho. 

Após a análise de diferentes opiniões de diversos cidadãos portugueses, percebemos que o sentimento geral é que as pessoas se sentem dispostas a receber refugiados em Portugal e consideram a sua chegada como benéfica para a economia portuguesa.  

Recomendações relacionadas com a sociedade 

De modo a melhorar esta atitude positiva identificada, o contacto direto entre refugiados e a comunidade local deve ser encorajado, para dar a conhecer uma visão mais próxima desta realidade e possibilitar a criação de empatia que, de outra forma – ou apenas via comunicação dos media – não seria possível. 

Na mente de um refugiado 

Estudos sugerem que existe uma forte ligação entre ter um emprego e a saúde mental de uma pessoa. Tendo em consideração que um refugiado está particularmente vulnerável em consequência das experiências traumáticas vividas no passado e as difíceis circunstâncias do presente, a integração no mercado de trabalho e na sociedade em geral pode transformar-se numa montanha-russa de emoções. Existem várias emoções que dominam o bem-estar psicológico dos refugiados: podem sentir-se isolados, incompreendidos, alienados, inferiorizados, impotentes, ameaçados ou que não pertencem ao país de acolhimento. Para além disso, encontram frequentemente obstáculos e uma grande incerteza quanto ao seu futuro. Felizmente, existem várias iniciativas que podem ser postas em prática pelos empregadores que vão para além de dar uma oportunidade a pessoas deslocadas. 

Começar por eliminar a barreira linguística é um bom ponto de partida, já que o idioma diferente representa uma das maiores barreiras a uma boa integração. “Eu sinto-me integrado, mas não totalmente. Conhecer a língua é importante para a minha integração, e sinto muita falta de amigos portugueses que me consigam ensinar a cultura”, aponta um refugiado do sexo masculino, proveniente do Egito, que chegou a Portugal sozinho. 

Ao providenciar um curso linguístico intensivo desde o início, os empregadores conseguem capacitar os refugiados que empregam a expressar as suas opiniões, necessidades e a partilhar as suas histórias, o que cultiva o entendimento mútuo e reduz significativamente os preconceitos assentes na sociedade. 

Outra medida de ajuda que as entidades podem adotar é o encorajamento à solicitação de apoio psicológico. “O trauma afeta qualquer relação com qualquer pessoa. Há até falta de confiança nas pessoas com que os refugiados lidam no dia-a-dia. Por isso, é ainda mais difícil quando têm de lidar com pessoas que não conhecem, como novos colegas de trabalho ou um novo empregador num trabalho”, explica um psicólogo de uma das maiores organizações de apoio a refugiados em Portugal. 

Finalmente, tanto empregadores como empregados podem beneficiar de uma formação intercultural, visto que estas diferenças podem interferir na rotina do trabalho. Enquanto alguns pontos de vista, maneiras de agir ou valores podem parecer estranhos ou até impróprios para pessoas do país de acolhimento, estes aspetos culturais e tradições são frequentemente a única coisa que resta a um refugiado. Se isto lhes for retirado, podem sentir-se alienados ou inseguros. Através da sensibilização intercultural, é possível criar uma cultura de trabalho saudável que englobe esta diversidade e fundamente estes valores. 

Melhores práticas pelo mundo 

Tal como o Mezze, existem outras organizações no setor que desempenham um papel fundamental a encontrar formas de integrar refugiados nos seus países. Assim, fomos olhar para fora de Portugal e encontrámos várias boas práticas interessantes por todo o mundo, dos EUA à Áustria, França ou Itália, todas na área da restauração e com o objetivo de integrar refugiados no mercado de trabalho. 

A 1951 Coffee Company, por exemplo, é uma organização social americana que se especializa na indústria do café e tem como objetivo principal o treino de refugiados para se tornarem baristas e encontrarem outras oportunidades dentro do setor. A organização providencia um programa de treino bem estruturado com aulas de inglês gratuitas e, no final, os refugiados recebem um certificado profissional e apoio de um especialista de emprego que os ajuda a navegar no mercado de trabalho, olhando para ofertas de emprego, escrevendo CVs e preparando entrevistas de emprego. Para além disto, a organização faz um acompanhamento com os graduados após três, seis e doze meses de terem acabado o curso. 

Outra organização americana encontrada chama-se Break Bread Break Borders e o foco principal é a integração de mulheres refugiadas no mercado de trabalho. Também disponibiliza um programa de integração, neste caso na área do catering, e oferec, tal como a primeira organização, um diploma profissional no fim do programa. 

Em conclusão, a grande maioria das organizações analisadas partilham algumas caraterísticas no que toca à integração eficaz de refugiados no mercado de trabalho: 

Programa de treino estruturado e com fases bem definidas; 

Curso de línguas acessível; 

Certificado de formação no final do programa; 

Parcerias com empresas nos diferentes setores e apoio a navegar o mercado de trabalho; 

Apoio psicológico regular. 

Qual é o nosso ponto de situação? 

Recapitulando, a situação profissional dos imigrantes e refugiados é um pilar fundamental para uma integração eficaz na sociedade de acolhimento a longo prazo, o que coloca os empregadores numa posição chave enquanto facilitadores deste processo. Também as empresas e as organizações sociais devem contribuir para agilizar esta integração e há já vários exemplos que o fazem e que devem servir de inspiração.  A Associação Pão a Pão é uma delas, tendo lançado há pouco tempo um novo projeto chamado “Mezze Escola”, em parceria com a Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril, para dar formação em restauração a pessoas refugiadas e imigrantes, uma oportunidade que lhes permitirá aceder no futuro ao mercado de trabalho e consequentemente, contribuirá para a sua integração na sociedade Portuguesa. 

NOTA: Este artigo foi produzido por um grupo de alunos da Áustria, Itália e Portugal, tendo como base um projecto de tese de mestrado focado na integração de refugiados, mais especificamente, a integração de refugiados no mercado de trabalho, um desafio de hoje mas que se prevê que continue a intensificar-se nos próximos anos.

A partir reste projecto, os alunos obtiveram percepções profundas sobre os desafios que os refugiados enfrentam desde a sua partida do seu país de origem, através da sua viagem (muitas vezes traumática), até à sua chegada à Europa e Portugal. Mais particularmente, aprenderam sobre as dificuldades que enfrentam todos os dias vivendo num país estrangeiro, à margem da sociedade, lutando para adaptar as suas competências aos diferentes empregos de acordo com as oportunidades disponíveis.

Olhando para diferentes organizações em todo o mundo que conseguiram integrar refugiados com sucesso e de forma inovadora na sociedade (identificando algumas neste projecto), dando aos refugiados um emprego para prosperarem, consultaram neste projecto em Portugal a Mezze na adoção de várias medidas para otimizar processo de integração e programa de treinamento dos refugiados acolhidos. A partir dos dados recolhidos, o tema foi analisado através de quatro abordagens distintas, conduzindo a uma visão mais holística sobre o tema: para além da perspectiva organizacional e do empregador, foram exploradas também as perspectivas social (sociedade portuguesa) e psicológica (saúde mental dos refugiados) no contexto da integração do mercado de trabalho.

Gudrun Drexler, Joana Durão, Marco Bucalossi e João Gouveia