De acordo com o modelo Life Space Crisis Intervention (LSCI), o ciclo do conflito ajuda-nos a compreender as nossas respostas face a situações percepcionadas como ameaçadoras ou que nos desafiam. Relativamente aos jovens, resumirmos o comportamento agressivo e a violência a características “difíceis” é uma forma simplista que não os vai ajudar a ultrapassar os problemas. É necessário compreender e reunir um conjunto de recursos internos e externos para os ajudar na mudança
POR KÁTIA ALMEIDA E PATRÍCIA SARMENTO*

Começamos por citar um pai que partilhou na rádio a sua experiência da parentalidade: “O meu filho, quando era novo, era mau. Os colegas tinham medo dele, eu era constantemente chamado à escola e não sabia o que fazer. Era tão diferente dos irmãos”.

O comportamento agressivo causa aversão. Habitualmente, e tradicionalmente, os jovens que manifestam agressividade são os mais castigados e, ao longo do seu percurso, acabam por perder muitas oportunidades de crescimento. A médio e longo prazo vão sendo menos estimulados e muitas vezes, acabam por ser excluídos dos vários grupos sociais.

Há cerca de cinco anos, numa das formações da equipa da Pressley Ridge na bela aldeia de Alvados, localizada no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, o facilitador propôs uma dinâmica de grupo, conhecida como “a teia”. O objectivo deste jogo é que toda a equipa colabore para que os seus membros atravessem para o outro lado da “teia” (um emaranhado de cordel atado entre duas árvores), cada um por um espaço diferente, sem tocar no cordel. Um colega com quem trabalhava há já dois anos teimava insistentemente em contornar as regras do jogo e graças ao seu comportamento “desviante” fomos perdendo pontos, mas conseguimos passar quase todos para o outro lado, enquanto refilávamos com ele e o deixávamos para último. Ele, na sua tentativa de atravessar a teia, tocou deliberadamente no cordel e fez perder toda a equipa.

“Bullying, abandono escolar, consumo de drogas, violência no namoro, roubos ou suicídio são manifestações comportamentais de que algo não corre bem na vida das crianças e jovens” .
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Ficámos revoltados com o seu comportamento, alguns a pensar que ele estava louco, outros a achar que ele era um teimoso incorrigível. O que não sabíamos era que: 1) o facilitador lhe tinha pedido para ele fazer o papel do “contra”; e 2) o que inicialmente foi apenas “representar um papel”, com o decorrer da actividade, transformou-se no boicote deliberado com algum prazer pelo próprio colega, pela zanga e sentimento de exclusão sentidos.

De acordo com o modelo Life Space Crisis Intervention (LSCI), esta situação representa o CICLO DO CONFLITO. O ciclo do conflito ajuda-nos a compreender as nossas respostas face a situações percepcionadas como ameaçadoras ou que nos desafiam. Essas respostas são influenciadas pelos nossos pensamentos (por exemplo, “Estão-me a pôr de parte? Pois agora é que vão ver!”) e emoções (zanga, irritação, vingança, exclusão).

O LSCI é um modelo de entrevista que pode ser usado em situações de conflito entre jovens ou entre jovens e adultos. Nessa entrevista tentamos compreender o que é que aconteceu, tentamos perceber as crenças mais profundas (por exemplo, “não posso confiar em ninguém senão em mim próprio”) e a forma de funcionamento dos jovens (por exemplo, o ataque é a melhor defesa). O objectivo é ajudar os jovens a compreender porque é que se comportam de uma determinada forma e como é que podem mobilizar os seus recursos internos. Mas também apoiar quem está à volta para os ajudar a resolver os problemas e prevenir futuras situações de conflito, capacitando simultaneamente a comunidade.

“A Arte de se Meter em Sarilhos. Descobrir a grandeza em crianças e jovens perturbados e perturbadores”foi também o tema da conferência organizada recentemente, pela Pressley Ridge e a Câmara Municipal de Cascais. Oradores de diferentes países partilharam descobertas recentes sobre o que motiva o comportamento dos jovens e apresentaram programas sobre o melhor que se tem feito na prevenção de comportamentos disruptivos.

Bullying, absentismo e abandono escolar, consumo de drogas, violência no namoro, roubos, suicídio são manifestações comportamentais de que algo não corre bem na vida das crianças e jovens. Tendencialmente acusamos os jovens dos problemas que eles manifestam, mas a principal causa não está neles. Características de temperamento podem criar um grau de dificuldade maior quando há outras circunstâncias adversas à adaptabilidade dos jovens e vão, consequentemente dificultar a tarefa de os educar. Mas resumirmos o comportamento agressivo e a violência juvenil às características “difíceis” dos jovens não é apenas uma forma simplista de lidarmos com a questão – também não os vai ajudar a ultrapassar os problemas.

É necessário primeiro compreender e depois reunir um conjunto de recursos internos e externos para os ajudar na mudança. E a mudança é difícil, é morosa e dá-se através de pequenos passos. Frank Fecser, um dos oradores da conferência e co-autor do modelo LSCI, fez uma comunicação intitulada “The Challenge of Managing Change”. Fazendo a analogia com a pessoa que conduz o elefante, Fecser chama a atenção para a necessidade de facilitar as mudanças com persistência e determinação, não usando da força e mostrando o caminho.

Nos vários programas com crianças e jovens, a Pressley Ridge procura gerir o risco e a violência entre os jovens através de um conjunto de metodologias ‘remediativas’, como é disso exemplo o LSCI, mas simultaneamente preventivas. Neste sentido, procuramos estabelecer expectativas positivas desde o início; descobrir e reforçar os aspectos mais positivos dos jovens; manter o respeito, mesmo quando tratados com desrespeito (mantendo no entanto os jovens responsáveis pelos seus actos); promover activamente competências pró-sociais (ajudar um colega, reconhecer algo bom que o colega tenha feito, ser solidário); e proporcionar ambientes de respeito, alegria e descontracção.

A Pressley Ridge partilha da visão de Goethe: “Trate as pessoas como se elas fossem o que deveriam ser e estará a ajudá-las a tornarem-se naquilo que elas são capazes de ser.”

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