A resposta social em contexto de pandemia não é importante que seja doutrinária ou ideológica, mas sim pragmática, flexível e eficiente. E que se traduza em ações concretas, no terreno, de uma forma atempada. Para tal precisamos de instituições e de decisores disponíveis para implementar medidas de uma forma ágil com base em factos e ciência, para aprender com os erros e corrigir essas medidas rapidamente, se não tiverem sido bem-sucedidas à primeira
POR FRANCISCO MIRANDA DUARTE

“As palavras são importantes, mas o que vale é o exemplo” dizia Esopo na antiga Grécia, há mais de 2600 anos.

O presente contexto pandémico que agrava exponencialmente as diferenças na nossa sociedade, vem reforçar a importância da ação concreta solidária como forma de união, estabilidade e progresso das comunidades em que vivemos.

A crise resultante das restrições impostas pela pandemia afeta de forma muito desigual os vários grupos sociais: os que podem trabalhar em casa versus os que têm que estar na linha da frente; os que trabalham em setores ou funções menos expostos à crise e os que trabalham em setores que têm que encerrar unidades, as pessoas mais autónomas versus as pessoas dependentes e/ou institucionalizadas, as pessoas com mais educação formal versus as pessoas que se ficaram pelos níveis mais básicos de ensino.

No seu mais recente livro (“Lessons For A Post-Pandemic World”), o jornalista Fareed Zakaria frisa essa crescente desigualdade que a pandemia provocou a nível global e a necessidade de as sociedades se prepararem, nomeadamente ao nível das infraestruturas de saúde, para uma resposta social que alcance de uma forma eficaz todos os extratos da sociedade.

Esta resposta social em contexto de pandemia não é importante que seja doutrinária ou ideológica, mas sim pragmática, flexível e eficiente. E que se traduza em ações concretas, no terreno, de uma forma atempada. Para tal precisamos de instituições e de decisores disponíveis para implementar medidas de uma forma ágil com base em factos e ciência, para aprender com os erros e corrigir essas medidas rapidamente, se não tiverem sido bem-sucedidas à primeira. Os decisores públicos têm o dever moral de procurar as melhores soluções para servir a população, sendo que é evidente hoje em dia que é fundamental contar com o setor privado e o setor social, nomeadamente na área da saúde.

Nesse sentido, acredito que tornamos a sociedade melhor através de pequenas ações que tenham impacto concreto sobre pessoas concretas (leia-se grupos bem definidos que necessitem de apoio).

Como um exemplo concreto de medidas que tenham um alcance imediato sobre dezenas de milhares de pessoas mais desfavorecidas temos o financiamento das unidades enquadradas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados: sem discutir se o financiamento por diária para cada uma das tipologias de cuidados continuados é alto ou baixo, é evidente que o contexto pandémico introduz extra-custos absolutamente inesperados e irresistíveis que esbarram na rigidez de um financiamento fixo por diária mas que – com base em princípios elementares de justiça e de lógica – configuram claramente uma situação passível de reequilíbrio financeiro. Por uma questão básica de solidariedade institucional e de preocupação efetiva com as pessoas com mais dificuldades.

Não atuar urgentemente neste domínio, faz com que centenas de instituições se encontrem em muitos casos sem meios para uma resposta adequada ao contexto que vivemos. Tratam-se maioritariamente de instituições do setor social que trabalham com grandes dificuldades e fazem o seu melhor em prol dos estratos mais frágeis e desfavorecidos da sociedade, servindo as pessoas que representam o segmento mais vulnerável à COVID 19.

E é de certa forma incongruente que a resposta dada no Programa de Recuperação e Resiliência passe por investir em mais infraestruturas do mesmo tipo das existentes, agravando desse modo a situação que estamos a viver. Claramente a resposta à crise que vivemos não pode e não deve ser feita com base em projetos que faziam sentido no passado recente.

A forma como cada um de nós vai consumir, trabalhar, ter férias, está a mudar radicalmente e as respostas económicas e sociais que devemos ter têm, forçosamente, que se adaptar a essa nova realidade.

Nesse conjunto de medidas, a ação solidária deve fazer cada vez mais parte do quadro de valores e do papel efetivo das diferentes instituições na sociedade hoje em dia. Essa ação solidária dá relevância às organizações, desde logo enquanto empregadores, porque dão origem a um envolvimento com os colaboradores a um nível muito mais profundo do que a simples “transação” trabalho-compensação, mas especialmente junto dos clientes ou utentes dos seus serviços.

Finalmente, a ação solidária das empresas e das diferentes instituições tem que ser completamente profissionalizada e gerida com todos os mecanismos de planeamento e de controlo de cada uma das iniciativas que garantam um impacto coerente e consistente nos alvos que queremos servir. Isto garantirá que genuinamente estamos a fazer algo para servir os outros e que não estamos simplesmente ao serviço de uma agenda política ou de marketing.

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