A Stanford Social innovation Review comemora 10 anos de existência. A revista norte-americana, vencedora de vários prémios, assinala o seu aniversário com 16 ensaios assinados por um conjunto de empreendedores sociais de mérito reconhecido. O VER partilha com o leitor o testemunho apaixonante de Larry Brilliant, presidente do Skoll Global Threats Fund. De leitura obrigatória
POR Larry Brilliant*
© Stanford Social innovation Review
(traduzido por Helena Oliveira)

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*O Dr. Larry Brilliant é o presidente do
Skoll Global Threats Fund e o
conselheiro sénior da Jeff Skoll.
Antes de se juntar à Skoll, foi o fundador
e o director executivo da Google.org.
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Há 50 anos que “faço” mudança social. As ferramentas e tácticas sofreram alterações – desde as manifestações nas ruas até aos media sociais – mas os seus princípios básicos persistem. Ganhar os corações e as mentes requer visão, liderança, objectivos claros e comunicados de forma poderosa, programas inovadores e muitas, muitas pessoas.

A 5 de Novembro de 1962, o Reverendo Martin Luther King Jr. visitou a Universidade do Michigan. Viviam-se tempos dramáticos. O mundo balançava à beira da loucura nuclear por causa da Crise dos Mísseis Cubanos. As tropas federais encontravam-se em alerta depois do primeiro estudante negro ter sido admitido na Universidade do Mississípi. E Bob Dylan cantava “A Hard Rain’s a-Gonna Fall.”

Eu era um segundanista solipsístico, fechado na minha própria e egoísta bolha. Mas quando o Reverendo King falou, naquele dia e de uma forma tão poderosa, de uma vida ao serviço da justiça social, um pequeno grupo de nós sentou-se perto dele para o escutar, durante horas, completamente hipnotizados. Todos subscrevemos a sua causa. Marchámos em Selma, no Alabama, no Mississipi e em Washington D.C., pela liberdade, pela mudança social e pelos direitos civis. Marchámos também contra as guerras secretas no sudeste asiático.

Ganhámos algumas guerras, perdemos outras, mas conseguimos acabar com a Guerra do Vietname e fazer aprovar as leis de direito ao voto e dos direitos civis. Alguns de nós tiveram a visão necessária para perceber o drama global que se estava a desenrolar no mundo da mesma forma que o Reverendo King quando este afirmou: “O arco da moral do universo é longo, mas ele pende para a justiça”. Nós lavrámos um canto do jardim global.

Todavia e ao longo do tempo, as organizações de mudança social começaram a evoluir. Começaram a ser melhor geridas, as melhores práticas foram partilhadas, nasceram comunidades de excelência e a liderança foi reconhecida. E os líderes mais inovadores foram baptizados de “empreendedores sociais”. Pessoas como Klaus e Hilde Schwab da Schwab Foundation for Social Entrepreneurs, Bill Drayton da Ashoka e Sally Osberg, que liderou a nossa “organização-irmã”, a Skoll Foundation, foram os pioneiros na área do empreendedorismo social.

Os empreendedores sociais não são activistas no sentido tradicional do termo. E não levam atrás de si milhões de pessoas para as ruas. Contudo, procuram criar algum tipo de mudança social que possa ser ampliada. A escala é o que separa o bom do óptimo, as boas intenções das transformações verdadeiras. Eu provei o poder cru das marchas nos anos 60, mas foi a trabalhar no programa da varíola no sudeste asiático nos anos 70 que me ensinou a distinguir o poder da combinação entre escala e enfoque. Para erradicar a varíola, tínhamos de encontrar e conter qualquer surto que aparecesse no mundo e procurar, em cada casa, a doença escondida. Na Índia, fizemos mais de mil milhões de “chamadas para casas”, com um exército de 150 mil funcionários da área da saúde e voluntários. Não nos manifestámos nas ruas contra a varíola, mas pusemos os pés nas ruas para vencer esta horrível doença.

Em 1979, fui co-fundador da Seva Foundation, cujo objectivo era restituir a visão a cegos pobres. A Seva era já uma organização de empreendedorismo social, muito antes do termo se tornar globalmente conhecido. A sua premissa inovadora rezava que “tecnologia apropriada” era a tecnologia que as pessoas pobres poderiam pagar. Ao baixarmos o preço de uma operação de restituição de visão para os 5 dólares (na altura), conseguíamos prestar esse serviço numa escala largada a qualquer pessoa no mundo. A Seva e o nosso querido parceiro, o Aravind Eye Hospital, devolveram a visão a mais de 3 milhões de pessoas.

A mudança social é participativa. E é isso que a torna social. E sempre exigiu catalisadores intelectuais e morais. Mas a mudança duradoura acontece quando envolve e tem impacto sobre um número significativo de pessoas. Actualmente, a escala é proveniente da conectividade. Com os telefones móveis, com a Internet e os media sociais, as ferramentas da mudança social permitem-nos, agora, atingir milhares de milhões de pessoas.

Quando Steve Jobs deu início à Apple, as suas visões eram influenciadas pelos anos 60: ele queria dar “poder às pessoas” ao colocar o poder dos computadores em todas as secretárias. Drayton gosta de afirmar que “toda a gente é um fazedor de mudança”. E eu penso na mudança social dos dias de hoje como um bocadinho de Bill Dreyton com um toque de Steve Jobs: algo inebriante que aumente a mudança social. Combinar a tecnologia com os fazedores da mudança estimula a própria mudança, independentemente se utilizamos máquinas mimeográficas no Movimento dos Direitos Civis ou o Twitter e o Facebook na Primavera Árabes.

A conectividade estimula a mudança. Ironicamente, a mais recente tecnologia pode ser um antídoto para ameaças existenciais trazidas até nós pela modernidade: as alterações climáticas, as pandemias, a proliferação nuclear, a segurança da água e os conflitos regionais como o do Médio Oriente que rapidamente se podem transformar em guerras globais. O Skoll Global Threats Fund foi criado pelo Jeff Skoll com o objectivo de combater estas ameaças globais. E estes gigantescos desafios não podem ser enfrentados sem uma conectividade à escala planetária, sem participação e sem as mais eficazes inovações.

Independentemente do facto de lutar pelos direitos humanos ou dos animais, trabalhar com pobres que têm problemas de visão ou doenças mentais, desafiar o governo devido a erros locais ou globais, procurar aliviar o fardo dos que vivem na pobreza, batalhar para garantir água, cuidados de saúde ou educação para aqueles que precisam, você é um fazedor da mudança, e faz parte da teia e da trama da mudança social. A mudança social é muito mais do que tecnologia e a sua história muito mais longa do que 50 anos. Tentar melhorar o futuro dos nossos filhos é tão antigo quanto a história. E nós envolvemo-nos nisso porque somos activistas e, muito lá no fundo, optimistas. O Reverendo King nunca afirmou que os fazedores da mudança poderiam sentar-se lá atrás e observarem passivamente o arco da história a pender para o lado da justiça: a sua vida foi um chamamento para nós, os fazedores da mudança, para agirmos, darmos um salto para esse arco, embrulhá-lo com os nossos braços, torcê-lo e puxá-lo para baixo, dobrando-o no sentido da justiça.

E é esta a parte de “fazer” mudança social que todos nós subscrevemos

Artigo originalmente publicado na Stanford Social innovation Review. Adaptado com permissão.

Helena Oliveira

Editora Executiva