Chegado o fim do ano e 10 meses passados sobre o vírus que, de alguma forma, nos agrilhoou, sobrevivemos. Mas a que custo? Perdemos muito, é certo. Mas ganhámos alguma coisa? Somos hoje diferentes do que éramos? Encaramos a vida e o que nos faz felizes com mais ansiedade ou com esperança renovada? Vemo-nos, a nós e aos outros, de forma distinta? A resposta a estas e outras questões é dada por 20 pessoas que aceitaram o desafio de olhar para trás e identificar o que as fez seguir em frente. E, algures pelo caminho, é bom saber que não o trilhámos sozinhos
POR HELENA OLIVEIRA

Globalmente e sem qualquer surpresa, “coronavírus” foi a palavra mais pesquisada no Google em 2020, com o pico da procura a ser atingido entre os dias 15 e 21 de Março, este último a marcar o equinócio. Mas, e em vez da habitual promessa de renovação que é associada à Primavera, que sinaliza o fim dos dias cinzentos e frios e convida aos passeios ao ar livre para celebrar a chegada do sol e de mais horas de luz, o mundo tropeçou na escuridão e foi obrigado a fechar-se em casa por causa de um vírus invisível que, ironicamente e imune a todos os avanços científicos e tecnológicos, pode ser eliminado com sabão e água.

Com a chegada da pandemia, as medidas de confinamento e isolamento social privaram os indivíduos da liberdade de movimentos, restringindo a socialização e a mobilidade dos cidadãos. O teletrabalho, que se tornou imperativo para permitir às empresas que continuassem a operar, desmantelou estruturas de convivência no local de trabalho. O encerramento das escolas impediu o acesso das crianças à educação formal presencial, criando uma crise de cuidados infantis para os pais trabalhadores. As cidades, frenéticas e sobrepovoadas, transformaram-se em centros urbanos vazios, despidos da habitual actividade comercial, dos restaurantes e dos espaços nocturnos. Eventos culturais e espaços como teatros, cinemas e museus viram as suas actividades suspensas, deixando artistas, criativos e profissionais de várias áreas conexas sem trabalho. Os parques e centros desportivos foram encerrados. O turismo cessou quase por completo. Muitas empresas fecharam portas ou diminuíram a sua actividade. Aprendemos novo vocabulário, apareceram novos acrónimos, adoptámos o Zoom e similares, viciámo-nos nas estatísticas. Habituámo-nos a sorrir com os olhos, a manter a distância e a ter receio de tocar, nos objectos e nas pessoas. Celebrámos os “esquecidos” transformados nos novos heróis. Cantámos à janela, ajudámos os vizinhos, aprendemos a fazer pão em casa. As crianças deixaram de brincar na rua, os jovens de namorar, os adultos de socializar, os idosos de esperar pelos afectos que preenchem as suas vidas tantas vezes desabitadas. Suspendemos rituais e ganhámos novas rotinas. Chegou o medo, o desemprego, o desalento, a solidão, a morte. Mas não só.

Muito já foi e será escrito sobre o annus horribilis de 2020. Contudo, e neste artigo, resolvemos dar voz a 20 pessoas que nos contam o que perderam mas, em muitos casos também, o que ganharam, no ano que foi recentemente descrito pela revista The Economist como “cancelado”. Sim, é certo que muitos sonhos e projectos ficaram em suspenso, mas a verdade é que a vida não foi, de todo, cancelada. Tal como é claramente expresso pelos inquiridos que aceitaram o desafio de reflectir, mesmo que brevemente, sobre estes últimos meses, a conclusão parece ser uma: é mais aquilo que nos une do que o que nos afasta. Mesmo quando o distanciamento passou a fazer parte das nossas vidas.

“Sinto falta das pessoas”

Se este artigo fosse uma espécie de Google e apresentasse as palavras mais comuns existentes nos testemunhos recolhidos, beijos, abraços, afectos e convívio figurariam no ranking do “que mais falta me fez” em período de pandemia.

Senti e sinto muito a falta dos beijos e dos abraços”, afirma Ana R., que desenvolve a sua actividade no âmbito da ética e do desenvolvimento sustentável. “E não só relativamente às pessoas que me são mais próximas, mas também àquelas com quem tenho uma relação de cordialidade. Faz-me falta o toque”, diz.

Na verdade, e de acordo com muitos especialistas, a par da pandemia do coronavírus, sofremos uma outra pandemia secundária, a da solidão-depressão, com consequências ainda imprevisíveis, apesar da atenção crescente que tem vindo a ser dada ao tema da saúde mental. Como refere o psicoterapeuta Yuko Nippoda, do UK Council for Psychotherapy, “a guerra contra o vírus privou as pessoas do contacto humano elementar”, dando um significado literalmente real à frase “distanciamento social”.

Mais complexo ainda se torna o problema para as pessoas que não frequentam as redes sociais, as quais têm servido, e pese embora todas as críticas de que são alvo, para pelo menos atenuar a sensação de isolamento e de não-pertença comum em tempo de crise pandémica. É o caso de Leonor V., que se apresenta como alguém que “tenta ajudar quem sofre as consequências da ineficiência do Estado” e que afirma não ter encontrado ainda “outra forma de lidar com esta absoluta insanidade na qual a minha vida está desde há largos meses mergulhada”. Leonor sublinha ainda que “a inexistência de contacto físico é muito mais penosa para mim do que para quem utiliza essas ferramentas para comunicar”.

Contudo, e para além das redes sociais, o boom de ferramentas digitais que passaram a fazer parte do nosso quotidiano, nomeadamente profissional, não consegue substituir as conversas “olhos nos olhos” de que tanta falta sentimos. Como refere Maria João R., consultora na área da comunicação para projectos focados no desenvolvimento sustentável, “eu sinto a falta das pessoas. É a forma mais directa de dizer isto. Penso que estamos todos cansados do Zoom, do Teams, do Skype… de não tocar, de não estar, de não confortar”.

Francis McGlone é um neurocientista da School of Natural Sciences & Psychology sedeada em Liverpool e que está, desde Maio, a estudar as mudanças de comportamento durante a pandemia: “Para qualquer lado que olho, vejo uma bandeira vermelha a agitar-se, uma fibra nervosa que diz ‘tocar, tocar, tocar’”, alerta.

Por seu turno, a neurocientista Merle Fairhurst explica que “quando somos acariciados, tocados ou abraçados, a oxitocina [que, entre outras funções, promove o apego e a empatia entre as pessoas] é libertada, baixando o ritmo cardíaco e inibindo a produção de cortisona”. A colega de McGlone e que estuda as fibras nervosas chamadas aferentes C-tácteis, responsáveis pela ligação do toque social a um complexo sistema de recompensa, afirma assim que “a perda do poder de conexão do toque desencadeia factores que contribuem para os estados depressivos – tristeza, níveis de energia mais baixos e letargia”, o que sustenta os elevados níveis de depressão que estão a ser observados nos vários cantos do mundo. Mais drástica ainda é a visão da psicoterapeuta Phillipa Perry, que defende a possibilidade de nos estarmos a tornar “uma espécie de ‘não-pessoas’, privadas das ‘danças sociais’ que conferem sentido à nossa vida”.

A ausência de contacto físico com os “nossos mais velhos” foi igualmente referida por várias das pessoas que aceitaram dar o seu testemunho para este artigo e que junta à equação um outro factor: a culpa e/ou o medo. Como refere a jurista Susana G., “sinto falta dos que me são mais próximos, em particular dos meus pais. Somos uma família de muitos afectos, damos muitos abraços e beijos, pelo que se torna impossível estar com eles sem lhes dar um abraço, mas esse abraço vem acompanhado de medo e culpa… e isto é muito triste”, lamenta.

Cristina P., tradutora, concorda e recorda-nos uma outra realidade, vivida pelos idosos e condenada socialmente por aqueles que não percebem o que significa estar no fim da vida e ser-se obrigado, mesmo que para sua protecção, a estar fechado em casa: “não há Zoom que substitua um abraço forte, em especial no que se refere aos meus ‘velhos’, que já são poucos, principalmente sabendo que ‘perder’ um ano numa idade mais avançada tem um peso muito maior do que perder um ano na minha idade”. E esta sensação de perda explica o facto de serem muitos os idosos que optam por desafiar o vírus em detrimento de se deixarem intimidar por ele.

No entanto, e infinitamente pior do que não podermos abraçar os que amamos, é perdê-los para sempre sem nos despedirmos.

Frank Snowden é historiador na Universidade Yale e há 40 anos que estuda pandemias. Autor do livro Epidemics and Society: From the Black Death to the Present e ele próprio vítima do coronavírus, afirma que “nenhum elemento da COVID-19 desumanizou mais as pessoas do que a forma como nos levou a experimentar a morte”. A seu ver, os “indivíduos tornaram-se meras unidades individuais num número muito longo e horrivelmente crescente (…) mas, antes de se transformarem em estatísticas, foram condenados ao isolamento”.

Paulo B., ilustrador, sabe bem o que isso representa e quão profunda é a dor. “A distância, mesmo que a uma centena de metros, foi o que me mais custou neste ano de 2020”, refere. No seu caso, o pai esteve internado seis semanas no hospital com um problema de saúde (não relacionado com a COVID-19) e sem visitas. “Telefonei todos os dias para saber informações – e para que ele não tivesse qualquer dúvida de que eu gostava muito dele e que estava preocupado com o seu estado -, mas foram poucas as vezes que conseguimos falar”, recorda. “O vazio da partida, associado ao vazio de uma despedida suspensa, deixou-me no limbo”, diz ainda, pois o pai acabaria por falecer, não sabendo Paulo até hoje a verdadeira causa do óbito. Como tantos outros.

O teletrabalho, diabolizado até então, parece ter sido santificado

É, sem dúvida e no mundo profissional, a mais importante tendência decorrente de um vírus invisível que alterou súbita e radicalmente – e em muitos casos para sempre – a forma como fazemos o nosso trabalho. E foi referido pela esmagadora maioria dos inquiridos como um dos ganhos – a par de alguma perdas associadas também – desde o deflagrar da pandemia. Não só estritamente o trabalho remoto, mas também a forma como nos relacionamos com os colegas, como se gerem equipas à distância, como se ganha tempo ou, inversamente, como se trabalha mais horas – “sinto-me uma escrava Isaura dos tempos modernos”, diz Leonor –, a par de toda uma dinâmica que parece funcionar para muitos, mas não para todos, o que depende, e obviamente, da própria natureza do trabalho em causa.

Por exemplo, e tendo em conta um dos grandes temas do futuro – e que se fez presente por altura do confinamento –, o do ensino à distância, João R., professor, deita por terra os argumentos dos muitos “visionários” que acreditam que é possível, e com sucesso, ensinar e aprender através de um mero ecrã. Questionado sobre o que perdeu enquanto professor, João refere, de imediato, “as caras e as expressões dos alunos, o não ter as suas reacções àquilo que lhes digo e não conseguir ler as suas expressões quando falam”. Para este docente perdeu-se ainda “muita da comunicação não-verbal e quando estamos em videoconferência as expressões são filtradas por uma câmara, por isso aquilo que vejo é diferente do que veria em sala de aula com os alunos na minha frente”, sublinha. E, “do outro lado”, o mesmo sente Susana G., ao referir-se à experiência de aprendizagem online do seu filho, com 15 anos, e secundada por percepções análogas por parte de outros pais. “Todos se queixam do mesmo”, diz. “O ensino à distância retirou-lhes capacidade de concentração, o ritmo de estudo e, ao nível das aprendizagens, receio que estas tenham sido muito ‘pela rama’”, acrescenta, referindo ainda que espera que “estes danos sejam recuperáveis mas que, e pelo menos por ora, ainda se fazem sentir”.

Mas, e para além deste exemplo, a verdade é que o teletrabalho , e a explosão de todas as ferramentas que o vieram suportar, não só foi uma boa surpresa para os próprios trabalhadores – com excepções que, contudo, não podem ser ignoradas – como também para os empregadores, que não acreditavam ser possível manter, ou até aumentar, a produtividade da sua força laboral fora dos limites físicos do escritório. Como refere Filipe B., responsável por uma empresa de media e comunicação na área da logística, “percebi que liderar pessoas e projectos à distância é um desafio dos diabos, mas que os outros também estão mais disponíveis para serem dirigidos e guiados”. Acreditando que a pandemia deixará ficar “rotinas muito boas nas empresas”, afirma ainda que “esta é a beleza das coisas”, ou seja, o facto de “as pessoas convergirem” neste ambiente atípico. Por seu turno, Jorge M., gestor – e que partilhou o teletrabalho em casa com os seus seis filhos durante o confinamento – afirma que o que mais ganhou “foi a proximidade de várias pessoas que estavam longe e se tornaram próximas e presentes através dos meios telemáticos, bem como  a capacidade de nos reinventarmos para encontrar soluções para nos mantermos perto uns dos outros”.

“Neste ano de 2020 alterei alguns métodos e rotinas da minha vida laboral que nunca achei que seria necessário alterar e que agora até considero acertados”, declara também Susana M., responsável de contas a receber, relativamente à sua adaptação ao teletrabalho e a novas e repentinas situações geradas pela chegada da pandemia. E, voltando à produtividade, acrescenta Susana G., “deixámos de perder tempo com ‘conversas de corredor’ e focámos a nossa atenção na produção e no resultado”.

Um outro aspecto referido em alguns dos testemunhos sobre o teletrabalho abrange também as vantagens “colaterais” do mesmo. Para Maria João R., “em termos globais profissionais, o teletrabalho foi o maior ganho, não só porque por questões ambientais é uma vantagem, como em termos pessoais permite uma maior flexibilidade e maior qualidade de vida (para quem tem obviamente condições para trabalhar em casa)”. A questão das “condições para trabalhar em casa” é igualmente referida por Leonor V., que levanta uma questão pertinente: “dá-se o caso de eu ter capacidade para reproduzir nas minhas modestas assoalhadas o ambiente de trabalho que era suposto ser assegurado pela entidade patronal. Sim, mas quem suporta os custos que essa disponibilização necessariamente acarreta, como a luz, a água ou o gás que se gasta?”. A pergunta não é isolada. Na verdade, e apesar de o teletrabalho estar previsto na lei portuguesa há quase duas décadas, a sua utilização era marginal até ao deflagrar da pandemia. Com a rápida adaptação por parte das empresas e com vários indicadores a apontarem para a sua adopção generalizada em vários sectores, é unânime entre os especialistas que é preciso adaptar as suas regras visto que estamos perante um novo contexto laboral.

Mas, e de regresso aos benefícios transversais do trabalho remoto, e ao sublinhar alguns pontos positivos deste 2020, diz António M., director-geral da AEMpress: “Descobrimos também que milhões de pessoas em todo o mundo podem deixar de perder horas da sua vida, diariamente, em deslocações entre a sua casa e o emprego, trabalhando remotamente a partir de casa – e, no processo, reduzindo a poluição provocada pelo transporte individual e contribuindo para a criação de cidades menos congestionadas e mais habitáveis”. É verdade, mas como alerta Maria João R., não nos podemos esquecer que “o teletrabalho só é uma vantagem se isso não significar isolamento social e se soubermos gerir a necessidade de contacto humano”.

Um outro ponto conexo foi destacado por Pedro F., editor do Tictank.pt: a seu ver, foram duas as palavras que marcaram o que se ganhou e perdeu em 2020: “Tecnologia e solidariedade (ou a falta dela). No primeiro caso, desde o confinamento pós-Março, a Internet correspondeu a um teste de stress nunca visto e não falhou. O falhanço foi humano quando, após inicialmente se abraçar a causa solidária, incluindo para com os mais pobres que mantinham a economia a funcionar, se descortinou o cinismo registado no aprofundar do fosso salarial entre ricos e pobres”. E sim, essa é mais uma consequência inegável da pandemia.

“O humano adapta-se, transforma-se e tenta fazer a melhor omelete com os ovos que o mundo vai partindo”

Quem o diz, do alto dos seus 23 anos, é Francisco R., mestre em Psicologia Clínica. Mas é certo que a palavra “adaptação” faz todo o sentido na trajectória que temos vindo a seguir desde que o vírus virou o nosso mundo ao contrário. Como refere ainda o jovem, “se, a priori, as perdas pareciam superar os ganhos estrondosamente, há que sublinhar a capacidade de reinvenção, de perseverança e o alento daqueles que – melhor ou pior – sobreviveram à quarentena e que se adaptaram à estranha era que percorremos”.

E se o caminho não tem sido propriamente fácil, a capacidade que temos de nos reinventar – expressa igualmente por muitos dos respondentes – não só nos permite “sobreviver” como também crescer, conferir um novo significado ao que considerávamos como um dado adquirido e ainda fazer novas e positivas descobertas sobre nós próprios. Como refere Michele B., jurista, e apesar de considerar “ser inegável a estranheza de 2020 e ser impossível ignorar as angústias, receios e dificuldades que lhe estão associados”, em termos estritamente individuais confessa não sentir que perdeu muito. “É certo que a falta de contacto físico com os mais próximos me afectou, mas rapidamente encontrámos alternativas bastante aceitáveis. Em contrapartida, sinto que os ganhos foram significativos, pois confirmei o que já suspeitava: que gosto mesmo muito de estar comigo, que gosto muito de estar em casa e que gosto muito de estar em teletrabalho”.

Em termos de novas “aprendizagens”, afirma Ana R., “aprendi que é sempre possível parar e que utilizamos a palavra impossível demasiadas vezes. Vivi o conflito interno entre a minha liberdade e vontade e a minha responsabilidade como membro de uma comunidade. Ou seja, cresci. Sinto como nunca que cada um é responsável por todos”. Já Maria João R. acrescenta que “percebermos que não controlamos tudo, que não podemos dar nada como adquirido, que somos frágeis mas também resistentes, que estamos expostos ao risco e que precisamos uns dos outros é a maior lição da pandemia”.

Sobre este complexo equilíbrio entre perdas e ganhos, sublinha Cristina P.: “aquilo que ganhei consiste no facto de não ter perdido. Não perdi ninguém próximo, não perdi o meu trabalho, não perdi o meu estilo de vida. Sinto-me uma privilegiada quando penso em tanta gente que ficou gravemente afectada por toda esta situação”.

Para Daniela M., estudante de Psicologia e que no início da pandemia sentiu particularmente a falta do convívio com amigos ou familiares, foi uma vitória ter aprendido que é possível estar perto, mesmo quando estamos longe. Se é verdade que a dificuldade de “estar com outros” se tornou uma realidade, em contrapartida “acaba por ter o seu lado menos amargo ao nos apercebermos de que, mesmo não sendo possível estar presente fisicamente, não somos esquecidos, seja por uma simples mensagem ou por um telefonema que dura horas e que por momentos nos faz esquecer o que se passa lá fora”.

Esquecer o que se passa lá fora continua a ser um exercício que todos temos de cumprir sob pena de não mantermos a sanidade mental para aguentar esta vida com grades. João R., que para além de professor é também fotógrafo, aproveitou “a possibilidade de fotografar Lisboa sem gente” e está convicto de que a crise pandémica nos vai ajudar a reflectir “sobre as questões mais importantes de natureza global, como o ambiente e a sustentabilidade”. Pessoalmente, diz Virgílio S., “tentei não dar valor aos dias nem aos compromissos, procurando ter uma maior liberdade para fazer o que me deu ‘na gana’ e fi-lo”, destacando que “a sanidade mental é um bem precioso que temos de preservar e, para tal, cada um que o faça de acordo com a sua personalidade”. Também Filipe B. confessa ter ganhado, até para encontrar o equilíbrio pessoal que lha faltava muitas vezes, “uma capacidade maior para vislumbrar a beleza”, acrescentando que a sua grande vitória desde Março foi, exactamente, “passar a procurar o lado luminoso das coisas e das pessoas”.

Como remata Francisco R., a verdade é que é esta pandemia parece ter vindo refrescar a velha máxima universal do “nada se perde, tudo se transforma”. Apesar de muito ter sido, efectivamente, perdido, é bom saber que se ganharam algumas inesperadas e positivas metamorfoses também.


O saldo mais positivo

Dos 20 testemunhos recolhidos para este trabalho, alguns houve que surpreenderam pelo conteúdo mais “directo” ou “diferente” que utilizaram para eleger o que mais os marcou neste ano tão incaracterístico. Aqui ficam as suas respostas:

“O que se perdeu: a alegria de ter coisas combinadas, jantares combinados, viagens combinadas e podermos tirar tanto ou mais partido na antecipação do que no momento propriamente dito. Isso passou a ser uma alegria trabalhosa e esporádica porque tudo tem de ser limitado, controlado, escrutinado. Perdemos uma espécie de excitação infantil que os encontros e os planos alimentam pela vida fora. O que ganhámos: a alegria dos encontros possíveis que se tornaram todos especiais, a rebeldia do abraço e as certezas dos nossos mais brilhantes amores”, Rute, jornalista

“Não tenho saudades do alcatrão. Do fumo. Do trânsito. Ganhei tempo. Qualidade. Ganhei tempo que não sabia que tinha. Tenho saudades dos olhares. Dos cúmplices mas também dos furiosos. Não tenho saudades do café. Mas ganhei café que não sabia sequer que tinha. Com a vantagem de poder dizer ‘Já vou” enquanto me encosto à bancada da cozinha a ver o fumo dos cigarros enrolar-se no ar. Ganhei mais trabalho mas sei que quando acabar vou estar a trinta segundos da porta de casa. O saldo? É positivo. Afinal ganhámos todos mesmo que não fique tudo bem”, Pedro, informático

“Pai tardio e separado com uma mãe austera. Não é preciso adicionar malaguetas explosivas para perceber que o caldeirão vai deitar por fora. A não ser que apareça um coronavírus. Uma mãe com a teimosia acentuada pela idade é um bicho de várias cabeças. O amor incondicional esbarra na necessidade de a contrariar sem entrar em despiques inúteis. O triângulo de amor bizarro transformou-se num sólido arredondado com a Covid. Deixou de haver ofertas contínuas de comida, de ajuda, de conselhos, de agasalhos e desagasalhos. Apareceu a consciência das capacidades do pai e a percepção, por todos, de estar mesmo à altura da grande tarefa. No meio da devastação da pandemia, aparece esta imagem inabalável. A do meu filho”, José, engenheiro

“A pandemia tem funcionado, em si, como uma espécie de contraste endovenoso ou uma tela que expõe o que dentro habita em mim. Numa fase inicial ficou marcada pelo medo, a incerteza e o sufoco. De repente, no meio das pequenas tragédias diárias, chega uma espécie de estranha normalidade e o sentimento de que é preciso reinventar o espaço interno e externo para acomodar as transformações. Aprendi a apreciar mais o meu trabalho, as histórias, os lugares e as vidas que me chegam em privilegiada segunda mão, tantas vezes vivendo a relação com o outro como um lugar que existe dentro do contexto pandémico mas separado deste. Daí fiz planos, tracei trajectórias, sonhei um bocadinho mais e arrisquei um bocadinho mais, também. Uma tentativa de amar o desconhecido e dar-lhe um sentido próprio. O quase-ano pandémico tem sido verdadeiramente transformador e quase que o digo com uma certa vergonha. Os ganhos superaram largamente as perdas, mas não apagam a saudade e a falta do abraço dos meus avós, dos meus amigos”, Tiago, psicólogo clínico

“Lembrando este ano de 2020, surgiu na minha alma esta certeza: apesar das dificuldades e do sofrimento, o Amor especial de Deus por mim e por nós é um mistério … mas é sempre Amor. Na dor do dia-a-dia, vivido na empresa, Deus continuava, sem desfalecimento, a dar a Sua vida por nós. Só assim conseguimos manter a empresa capaz de avançar na adversidade. De facto Deus Ama sempre e é por isso que, depois da noite, nasce sempre o dia”, Acácio, gestor