O ano de 2011 será o ano dos pânicos e dos desesperos. Mas é preciso ter calma. Existirão ajustamentos necessários, a par de hipocrisias e mal-estar social. Por isso, é necessário que aqueles que se dizem da elite e com algum poder de influência, respeitem o povo e aprendam a ser humanistas. Nem tudo são bens transaccionáveis – muito menos as relações entre as pessoas
POR SOFIA SANTOS*

Pode ser que seja esta pesada crise estrutural que consiga fazer com que as nossas atitudes como povo comecem a mudar. Pode ser que cada um de nós, não acreditando no actual Estado Social e na sua capacidade em cumprir com as “obrigações”, consiga finalmente exercer os seus deveres como cidadão: agir de forma consciente e pró-activa, desejando contribuir para a mudança e não apenas ficar à espera que ela aconteça.

O ano de 2011 vai trazer uma taxa de desemprego elevada (continuo a arriscar os 15%), níveis baixos de confiança na economia e expectativas negativas que induzem comportamentos erráticos (porque o agente económico não é racional, mas sim emotivo). As famílias irão, finalmente, sentir os limites do sistema financeiro e as férias com cartão de crédito deixarão de existir, pois esse dinheiro já foi utilizado para os bens essenciais. As grandes empresas irão adjudicar os serviços o mais tarde possível e também tentar aproveitar-se do contexto para espremer ao máximo os fornecedores, esquecendo-se de que fornecedores são pessoas, com famílias e que necessitam de pagar as contas ao final do mês. O mundo das “cunhas” vai estar ao rubro, pois todos os telefonemas “pessoais” vão ser realizados em busca de um trabalho adicional, mesmo que a competência técnica não seja a melhor. Quem não tem “cunhas”, ou se rejeita a utilizar este método, tem de ser criativo e inovador para ultrapassar este velho hábito degradante tão entranhado na cultura portuguesa. Se todos acreditassem nas suas capacidades não tinham de utilizar “cunhas”, pois seriam naturalmente identificados. O que pode significar que há muita insegurança por aí. É por isso que os melhores têm vindo a sair de Portugal … Os gestores, por seu turno, serão confrontados com menores volumes de vendas, com pagamentos em atraso, com as limitações das contas caucionadas. Terão a tendência imediata para despedir, pois necessitam de reduzir custos e não querem diminuir as suas próprias regalias. Estes despedimentos podem não solucionar nada e apenas agravar a situação.

O FMI irá entrar – finalmente – e poderá ser o bode expiatório necessário para algumas mudanças estruturais e dolorosas. Sim, nós não conseguimos resolver os nossos problemas, e isso é evidente: basta comparar os jornais de Novembro 2009 e os de Dezembro de 2010 para ver que nada mudou e que os artigos são praticamente iguais. Que mal tem assumir que não fomos capazes de resolver os nossos problemas? Não interessa antes resolvê-los e o mais rapidamente possível? Mesmo que o Governo mude no 2º semestre de 2011, e que algumas alterações sejam feitas, as mudanças necessárias são demasiado pesadas e impopulares e, por isso, o bode expiatório do FMI é uma condição necessária para conseguirmos ter um futuro – leia-se a 15 / 20 anos – melhor. Talvez esta crise nos traga a capacidade de perceber que, ao contrário do que se passou nos anos 90, a riqueza demora a ser conseguida, trabalhar custa, investimentos demoram longos anos a ter retorno e que a vida não é fácil nem tem de ser.

O meu maior receio nesta crise é que, nestes momentos em que o pânico vai imperar e em que é necessário ter o sangue frio para se conseguir, também, realizar acções cujo retorno apenas surja a médio/longo prazo, não consigamos ter a confiança em nós mesmos de prescindir, no curto prazo, de algo que acreditamos que possa vir a dar frutos no futuro.

Nesta altura de crise, deveria haver uma aposta forte e “expansionista” ao nível da educação. Muitas crianças e adolescentes que têm “pertencido” à classe média vão passar à classe baixa com fortes pressões para se dedicarem ao trabalho o mais rapidamente possível. E não podemos deixar esta geração de adolescentes perder a possibilidade de se educar, de aprender a compreender e a interpretar o mundo e, principalmente, não podemos acabar com a esperança desta geração.

Em Dezembro fui dar uma aula sobre sustentabilidade à escola preparatória António Sérgio no Cacém a crianças de 11 anos. Foi possivelmente o melhor dia do ano de 2010 para mim: crianças de várias etnias participaram, ouviram, fizeram perguntas, afirmaram que a harmonia e o trabalho em equipa são essenciais e que era errado saltar à frente nas filas, pois todos têm direitos iguais. Durante aquela hora ouvi delícias e fiquei com esperança: “pode, por favor andar para trás nos slides, que eu tenho uma dúvida? … Nós pedimos demasiadas coisas aos pais porque somos mimados, não precisamos de tantas coisas materiais … A minha mãe dá-me bonecas e eu não sei o que fazer com elas … prefiro brincar com os amigos do que jogar playstation … não fico mais feliz por ter mais coisas”.

Um exercício que faço sempre nas variadas audiências é perguntar qual é o nível de preocupação que têm com o futuro versus o presente e com a sua família versus o mundo. Já fiz este exercício em faculdades, em conselhos de administração, em colégios privados entre outros e, pela primeira vez, a resposta foi drasticamente diferente: aquelas crianças do Cacém e Mira-Sintra disseram: “preocupo-me com o mundo e com a vida dos meus netos”. De notar também que foi uma destas crianças que perguntou pela primeira vez: poderia explicar melhor o que significa ética?”.

Face a tamanha genuinidade e oportunidade, o Governo não tem o direito de tirar a esperança e a alegria de viver e de conhecer outros mundos a estas crianças. Se há um sector em que os cortes orçamentais não devem existir é na educação. Só assim conseguiremos, daqui a 30 anos, ter gestores “humanamente racionais”.