Sabemos hoje que 2017 voltou a ser um ano trágico na questão florestal. É pouco relevante, perante a tragédia humana, falar sobre as consequências para o nosso balanço de carbono, mas é certo que as emissões de CO2 decorrentes dos fogos deste Verão vão ter um impacte brutal na conta nacional. Importa portanto, numa trajectória para a descarbonização, tratar bem a capacidade dos nossos ecossistemas de armazenar carbono e não o perder tragicamente
POR PEDRO BARATA

Quem, como eu, nasceu em Lisboa na era pré-informática, nos idos anos de 1960, poderá estar lembrado de uns pequenos livros que costumavam estar na vizinhança dos telefones fixos lá de casa, com a listagem das ruas de Lisboa. Complicados de ler, permitiam ainda assim ter uma ideia genérica de onde se localizava uma obscura rua numa parte desconhecida da nossa cidade. Os roteiros mais avançados tinham já umas plantas da cidade de Lisboa, o que facilitava imenso a possibilidade de encontrar o caminho mais relevante para o nosso destino.

Hoje, esses roteiros são anacrónicos. Na era das aplicações de cartografia computadorizada e dos sistemas de Informação Geográfica, apoiados na internet, podemos definir em segundos o nosso percurso, saber o estado previsível do trânsito quando nos metemos ao caminho e ter até uma previsão de chegada. Em alguns casos, a própria “app” se antecipa e pergunta-nos se queremos abrir a aplicação da Uber ou de outro serviço para lá chegarmos.

Serve esta introdução como ilustração do papel fundamental que a informação, e a sua disponibilização atempada tem, para quem quer começar um percurso. Em matéria de alterações climáticas, sabemos que há um longo trajecto a percorrer e que, de alguma forma, metemo-nos à estrada já bastante tarde. A evidência científica e, cada vez mais, a própria experiência humana comprova a evolução ainda mais rápida do que prevista da subida da temperatura média global, acompanhada que tem sido de fenómenos climáticos cada vez mais extremos. O Acordo de Paris estipula como objectivo global a descarbonização das nossas sociedades na segunda metade do século XXI. Sem essa evolução, a temperatura global estabilizará a níveis verdadeiramente catastróficos. Cientes da necessidade de começar o caminho, o próprio Acordo estipula já a necessidade de os diferentes países apresentarem as suas estratégias de longo prazo (até 2050) já em 2020.

A equipa do Roteiro para a Neutralidade Carbónica pretende, nos próximos meses, lançar debates não só sobre os temas “clássicos” como o da evolução da mobilidade eléctrica em Portugal, mas temas menos falados, como sejam, a título de exemplo, o papel da inovação financeira para a criação de um sistema colectivo de distribuição de energia ou o papel que a recuperação da dieta mediterrânica pode ter para a descarbonização em Portugal. Também o debate sobre o papel da Economia Circular no apoio à descarbonização terá um lugar central

Como é óbvio e demonstra o exemplo dos “roteiros de rua” de Lisboa, trinta e cinco anos é mesmo muito tempo na evolução das nossas sociedades, das técnicas e tecnologias e até na evolução dos valores sociais. É por isso que, mais do que estratégias, os países têm focado a sua atenção na criação de “roteiros” para a descarbonização. O exercício não é apenas semântico: uma estratégia pressupõe de alguma forma o controlo sobre as variáveis em campo, a plena informação sobre o comportamento das variáveis-chave. A 35 anos e perante um desafio tão transversal a toda a polis, tal não é de todo possível. O que se pretende, nos Roteiros em elaboração e discussão, é um tipo diferente de exercício, muito mais assente na mobilização dos diferentes agentes para reflectir em conjunto sobre os “drivers” sociais e económicos que podem permitir ou obstaculizar a descarbonização. Nesse sentido, mais do que o produto final consubstanciado a mor das vezes em trajectórias de redução de emissões e baseadas em pressupostos sobre a evolução das tecnologias e a sua aplicabilidade, que é em si relevante, importa, sobretudo, a avaliação desses mesmos pressupostos – qual a aceitabilidade de certas tecnologias, quais os desafios sociais à sua adopção, quais os custos sociais da transição para outros tipos de actividades, e como gerir essa transição?

Sabemos que o desafio da descarbonização assenta quase sempre em três grandes linhas directrizes.

Em primeiro lugar, a necessidade de aumentar a proporção de energias renováveis, se possível até 100%, na produção de electricidade. Portugal tem conseguido, nesse domínio, números bastante interessantes nos últimos anos, em particular depois de 2005.


Contudo, importará reflectir não apenas do lado das energias renováveis, mas também do lado das energias fósseis: como programar o seu fim? Que riscos se correm nessa desejada transição e como minimizá-los? Em segundo lugar, e em paralelo, deve aumentar-se o grau de electrificação de consumos energéticos – seja no transporte, através da mobilidade eléctrica, seja no aquecimento e arrefecimento espacial, sejam os outros consumos energéticos (por exemplo, na indústria pesada)?

Finalmente, o terceiro vector é o da maximização da capacidade de sequestro/absorção dos nossos ecossistemas, em particular pastagens e florestas. Sabemos hoje que 2017 voltou a ser um ano trágico na questão florestal. É pouco relevante, perante a tragédia humana, falar sobre as consequências para o nosso balanço de carbono, mas é certo que as emissões de CO2 decorrentes dos fogos deste Verão vão ter um impacte brutal na conta nacional. Importa portanto, numa trajectória para a descarbonização, tratar bem a capacidade dos nossos ecossistemas de armazenar carbono e não o perder tragicamente.

Estes são, portanto, os três vectores que importa ter presente na discussão sobre descarbonização. Contudo, fazê-lo apenas com ordem ao cumprimento com o Acordo de Paris seria um exercício curto de vistas. O que deve pretender é utilizar a oportunidade de reflectir em conjunto para explorar as oportunidades que empresas, ONGs e cidadãos podem ter para alavancar a descarbonização também para a construção de negócios, actividades e vidas mais sustentáveis.

É por isso que a equipa do Roteiro para a Neutralidade Carbónica pretende nos próximos meses lançar debates não só sobre os temas “clássicos” como o da evolução da mobilidade eléctrica em Portugal, mas temas menos falados, como sejam, a título de exemplo, qual o papel da inovação financeira para a criação de um sistema colectivo de distribuição de energia, ou o papel que a recuperação da dieta mediterrânica pode ter para a descarbonização em Portugal. Entre estes debates diferentes, também o debate sobre o papel da Economia Circular no apoio à descarbonização terá um lugar central.

O que se pretende, portanto, é que este Roteiro seja participado e que seja visto como mais do que um documento: um processo iterativo e participativo na busca de inquietações e, se possível, de soluções.