É desta forma que a directora internacional da Social Finance UK, parceira internacional do Laboratório de Inovação Social, antevê o futuro próximo da tríade colaborativa que junta o sector público, o privado e o social na resolução das mais proeminentes questões que assombram a sociedade. Em entrevista ao VER, Jane Newman alerta, contudo, que para se chegar a bom porto, é imprescindível saber alocar a combinação adequada de capital e competências
POR HELENA OLIVEIRA

Passado um período de “excitação”, atenuado por algum desencanto subjacente ao facto de as coisas não mudarem tão depressa quanto seria desejável, “agora que existem actores suficientes, com ferramentas suficientes ao seu dispor, é possível – e exigível – que caminhemos no sentido de tornar o sector mais mainstream e a abordagem ao investimento mais universal”. Ou, por outras palavras, “passarmos de um mundo onde se questionava o ‘porquê do investimento social?’ para um outro que questione, ao invés, ‘por que não o investimento social’?”.

É assim que Jane Newman, directora internacional da Social Finance UK, descreve o panorama actual do investimento social. Com extensa experiência no denominado “investimento de impacto” e no desenvolvimento de instrumentos como os Títulos de Impacto Social, Jane Newman conversou com o VER não só sobre o contributo que a sua organização – enquanto parceira internacional – tem vindo a prestar ao Laboratório de Inovação Social, um projecto que junta igualmente a Fundação Calouste Gulbenkian e o IES – Social Business School, mas também sobre a essência deste tipo de investimento – mobilizar capital e competências em busca de uma mudança social efectiva – e dos mecanismos mais eficazes para que o sector público, o social e o privado possam colaborar em prol de um salutar resultado comum.

O Reino Unido é reconhecido pelas suas abordagens pioneiras em termos de financiamento da infra-estrutura pública. É possível afirmar que a Social Finance UK foi também pioneira no movimento de investimento social que acabou por se disseminar um pouco por todo o mundo?

A Social Finance UK foi criada com base na forte crença de que uma mudança social eficaz resulta de uma colaboração com significado entre o sector social, o governo, a filantropia e a comunidade financeira. Se realmente desejamos lidar com seriedade com as mais proeminentes e enraizadas questões da sociedade, precisamos de alocar a combinação adequada de capital e competências, com vista à melhor compreensão do que é realmente necessário para atingir resultados sociais relevantes. Este tem sido o nosso lema desde o nosso arranque em 2007. E apesar da nossa forma de trabalho ter vindo a evoluir, a essência da nossa abordagem – uma colaboração responsável entre parceiros de financiamento socialmente motivados, públicos, sociais e filantrópicos – permanece a mesma.

Se realmente desejamos lidar com seriedade com as mais proeminentes e enraizadas questões da sociedade, precisamos de alocar a combinação adequada de capital e competências, com vista à melhor compreensão do que é realmente necessário para atingir resultados sociais relevantes

Talvez para o público em geral sejamos mais conhecidos por termos criado, em 2010, o conceito dos “Títulos de Impacto Social” (TIS). Menos conhecida talvez seja a importância dos conceitos que fundamentam estes mesmos Títulos de Impacto Social na forma como têm influenciado o nosso trabalho mais alargado. Por exemplo, desenvolvemos uma abordagem de parceria para trabalhar em conjunto com as Fundações e com o sector público, com o objectivo de percebermos, desenharmos e lançarmos soluções sistémicas piloto, que abordam questões complexas e negligenciadas; ou, e depois de termos sentido a necessidade de percepcionar e tirar melhores conclusões de informações que ajudam os sectores público e social a melhorar o apoio que prestam aos indivíduos pelos quais são responsáveis, termos testemunhado a urgência de soluções digitais, as quais estão a ser desenvolvidas nos nossos Social Finance Digital Labs.

A Social Finance UK está a celebrar 10 anos de existência, com a mobilização de mais de 100 milhões de libras de investimento no sector social, sendo que a sua história está repleta de várias áreas de experimentação e de sucessos. É possível partilhar alguns dos vossos mais bem-sucedidos programas, no geral e, em particular, o modelo dos Títulos de Impacto Social?

O modelo subjacente aos Títulos de Impacto Social (TIS) capturou a atenção global enquanto forma de financiamento da inovação social, com cerca de 90 TIS lançados globalmente, mais de 320 milhões de dólares angariados e, mais importante do que tudo o resto, procurando minimizar questões de vulnerabilidade e desfavorecimento de mais de 100 mil indivíduos. Desta forma, acredito que deu origem a um movimento global na medida em que representa, na verdade, um mecanismo eficaz para que o sector público, o social e o privado possam colaborar e testar inovações que fazem realmente a diferença quando se lida com os problemas sociais. Construir uma parceria com base em resultados oferece flexibilidade, incentivo e responsabilização para uma aprendizagem contínua e uma oferta adaptativa.

O modelo subjacente aos Títulos de Impacto Social (TIS) capturou a atenção global enquanto forma de financiamento da inovação social, com cerca de 90 TIS lançados globalmente, mais de 320 milhões de dólares angariados e, mais importante do que tudo o resto, procurando minimizar questões de vulnerabilidade e desfavorecimento de mais de 100 mil indivíduos

Todavia, os TIS não constituem uma solução “uniforme” nem são adequados para todos os problemas. O nosso ponto de partida é sempre o desenvolvimento de uma compreensão geral da questão social: quais as barreiras à mudança que precisam de ser transpostas, que soluções potenciais poderão existir – sendo que, e de seguida, aferimos que tipo de financiamento poderá ser necessário, bem como as suas diferentes fontes e de que forma é que estas podem ser combinadas para incentivar e oferecer melhores resultados para os indivíduos. Esta abordagem, – no sentido de o nosso ponto de partida ser o problema e não se assumir que um produto financeiro em particular é a solução – ajudou a Social Finance a tornar-se num parceiro credível aos olhos do governo, do sector social e da comunidade financeira. E acredito que esta forma de trabalhar se assume como um ingrediente importante para tudo o que alcançámos até à data.

Quais foram os principais motivos que levaram à escolha da Fundação Calouste Gulbenkian como vossa parceira, bem como no que respeita à ajuda na construção do primeiro Laboratório de Investimento Social português?

O interesse global nos Títulos de Impacto Social tem sido uma extraordinária oportunidade para partilhar as nossas ideias e visão com outros, em diferentes países, sendo que existe uma enorme procura relativa a estas questões.

Tendo estado presentes na génese do Laboratório de Inovação Social, e trabalhando em conjunto desde então, esta parceria tem-se revelado forte e positiva para nós, com benefícios para ambas as partes, tal como deve acontecer em todas as colaborações

E é por isso que as nossas equipas internacionais trabalham de forma proactiva com parceiros globais, com vista a replicar e a localizar conceitos [similares] em outros países. Nesta jornada, aprendemos também a identificar a existência das premissas fundamentais que nos permitem construir parcerias bem-sucedidas e duradouras, que incluem o trabalho com equipas e organizações nas quais a nossa visão e objectivos se encontram alinhados, que são estimuladas pelo desejo de provocar um impacto similar ao da Social Finance e onde exista um apoio institucional forte e adequadamente alinhado. Assim e tendo como base o nosso trabalho preliminar em Portugal com a Fundação Calouste Gulbenkian, rapidamente percebemos que todos estes ingredientes estavam presentes, o que resultou numa relação importante e duradoura da qual muito nos orgulhamos. Tendo estado presentes na génese do Laboratório de Inovação Social, e trabalhando em conjunto desde então, esta parceria tem-se revelado forte e positiva para nós, com benefícios para ambas as partes, tal como deve acontecer em todas as colaborações. 

De que forma é que é feita a colaboração com o Laboratório de Investimento Social e como avaliam o trabalho que está a ser realizado num país de pequena dimensão mas com grandes problemas sociais que precisam de abordagens urgentes?

A colaboração tem evoluído. O tipo de trabalho que estamos a fazer com o Laboratório de Investimento Social é diferente, em 2017, face ao que começou a ser feito em 2013. Um dos aspectos principais que contribuiu para esta relação de trabalho frutuosa residiu na partilha da nossa experiência trazida do Reino Unido e termos trabalhado, de forma colaborativa e no terreno, com vista a podermos adaptá-la ao contexto português. O nosso apoio tem passado por várias fases até agora: começámos com um maior apoio organizacional na altura da criação do Laboratório de Investimento Social; este acabou por evoluir para um trabalho mais em modo de “ecossistema”, no qual fornecemos aprendizagens e conhecimento para o Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social; mais recentemente contribuímos também com a nossa ajuda para acordos e transacções concretos, de que é exemplo o primeiro TIS, piloto, em Portugal. No geral, continuamos a fornecer apoio e orientação estratégica à equipa de gestão, para além de sermos uma “caixa-de-ressonância” para novas ideias.

Portugal tem vindo a ser pioneiro num conjunto de iniciativas de investimento social apesar da sua pequena dimensão. O lançamento da Portugal Inovação Social corrobora esta ideia ao constituir uma iniciativa emblemática na Europa Continental

Esta relação estreita tem também reflexo sob a forma de estágios de curta duração, para partilha de conhecimentos. Para o futuro, esperamos que a colaboração se aprofunde ainda mais, sendo que a evolução do nosso trabalho com enfoque na informação e nas ferramentas digitais constitui também uma oportunidade para ampliar o nosso impacto através de parceiros como o Laboratório de Investimento Social.

Portugal está igualmente a emergir como um pioneiro na Europa no que respeita a iniciativas de investimento social, memo tendo em conta a sua dimensão: o lançamento da Portugal Inovação Social é um bom exemplo e constituiu uma iniciativa emblemática na Europa Continental. Geralmente observamos que os países mais pequenos possuem “estruturas mentais” mais inovadoras e que constituem um bom banco de ensaio para a experimentação de novos modelos. Todavia, a teoria da mudança para o investimento social é aquela em que os mecanismos financeiros e não financeiros constituem um meio para atingir um fim: contribuir para lidar com questões sociais. Dada a sua dimensão e escala, Portugal encontra-se numa posição privilegiada para cumprir este objectivo, mas só o tempo o dirá.

A Social Finance UK trabalha também em diferentes geografias, tanto em países desenvolvidos como em países em desenvolvimento. Com toda a vossa experiência e conhecimento, como avaliam as principais diferenças existentes entre estes ecossistemas de investimento social distintos?

Esta pergunta é demasiado abrangente e quase impossível de generalizar! No que respeita ao nosso pape no sector social – o qual tem como enfoque a construção e financiamento de programas que fornecem uma estrutura para se alcançar resultados sociais melhorados – gostaria de fazer três observações:

Pese embora que cada país tenha as suas prioridades em conjunto com problemas e desafios sociais próprios, existe um conjunto de problemáticas sociais que é comum a muitas economias

(1) Independentemente de diferenças óbvias como a resiliência, a riqueza, a governança e a infra-estrutura física, económica e social, uma das maiores distinções no panorama entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento consiste no papel do governo nos primeiros e o papel que as agências de desenvolvimento internacionais têm no que respeita ao financiamento e desenvolvimento em conjunto com os governos nos últimos, e em muitos países de médios rendimentos;

(2) Todavia, e apesar destas diferenças, as ideias que sustentam o investimento social e a forma como uma abordagem de financiamento gera resultados melhorados (e não inputs), repercutem-se em ambos os contextos – o que faz com que instrumentos como os Títulos de Impacto Social sejam muito relevantes;

(3) Adicionalmente, e pese embora que cada país tenha as suas prioridades em conjunto com problemas e desafios sociais próprios, existe um conjunto de problemáticas sociais que são comuns a muitas economias: o desemprego jovem e o desenvolvimento de competências é um dos mais prevalecentes e importantes mas, e de forma crescente, o mesmo acontece com questões de saúde, como a diabetes tipo 2 e, em muitos países desenvolvidos, o desafio demográfico de uma população envelhecida.

Existe um verdadeiro potencial para se utilizar instrumentos de investimento social para dar origem a uma infra-estrutura e a um ecossistema que poderão “fazer mossa” em alguns destes tópicos – e a uma escala global. Dados [informação], tecnologia, tenacidade, imaginação e humildade farão parte da solução.

A seu ver, qual o futuro do investimento social?

O investimento social possui raízes históricas muito mais profundas do que estamos habituados a pensar e, mediante várias formas, levou tempo a florescer. Mas acredito que está para ficar e que será uma parte crescentemente importante da forma como os governos, a comunidade financeira e os negócios assumirão as suas responsabilidades. Os problemas sociais são demasiado prementes, e os desafios globais, como as alterações climática e as migrações, demasiado urgentes, para que não usemos todos os recursos e ferramentas à nossa disposição. O investimento social traduz-se em “capital responsável”, com diferentes apetites para o risco e exigências de impacto. Precisamos de mais e de o utilizar mediante melhores formas.

Dados [informação], tecnologia, tenacidade, imaginação e humildade farão parte da solução

Na medida em que o movimento tem vindo a ganhar tracção mais recentemente, é possível afirmar que existiu um período inicial de excitação, atenuado pelo desapontamento de as coisas não girarem tão depressa quanto desejaríamos – como uma transição rápida para a escala. Mas agora, que existem actores suficientes, com ferramentas suficientes ao seu dispor, é possível – e exigível – que caminhemos no sentido de tornar o sector mais mainstream e a abordagem ao investimento mais universal. Ou, por outras palavras, passarmos de um mundo onde se questionava o “porquê o investimento social?” para um outro que questione, ao invés, “por que não o investimento social?”.

Recentemente, o denominado Global Social Impact Investment Steering Group realizou o seu plenário anual sob o mote ““Towards a tipping point in 2020” [A caminho de um ponto de viragem em 2020, em tradução livre]. Prevejo que os próximos três anos serão de importância extrema para o investimento social se estabelecer, por si mesmo, enquanto conceito mainstream mas, e em simultâneo, sem nunca se perder de vista a sua essência: mobilizar capital e competências em busca de uma mudança social efectiva.