Três décadas passadas sobre a fundação da AMI, e mantendo inalteráveis os seus fundamentos de base – independência financeira, sensibilização da sociedade civil e apoio prestado através dos seus equipamentos e respostas sociais – a organização fundada por Fernando Nobre prosseguirá a sua missão, centrada em dar resposta aos mais prementes desafios enfrentados não só em território nacional, como no mundo globalizado. Em entrevista, o presidente da organização recorda o passado, mas concentra-se muito mais no futuro
POR
MÁRIA POMBO

“Não me cansarei de dizer que o futuro da Humanidade nos pertence e, por isso, cabe-nos a nós, cidadãos e cidadãs, imprimir um decisivo salto qualitativo no nosso destino colectivo”. A citação é de Fernando Nobre, presidente e fundador da AMI, o qual, com a honestidade que o caracteriza, alerta a sociedade para os inúmeros problemas sociais que continuam a persistir – e a intensificarem-se – ao fim de 30 anos de existência desta organização. Em entrevista ao VER, Fernando Nobre traça a história da AMI, os muitos desafios que enfrentou, em conjunto com os demais que continuará a defrontar, sublinhando que “sem a pressão de uma ‘Sociedade Civil Global Solidária’ e o surgimento de uma nova geração de políticos e gestores que se alicercem na frontalidade, ética, valores e bom senso, continuaremos com as estéreis boas intenções”.

No âmbito da Futurospetiva, a exposição que serviu de mote à celebração dos 30 anos da AMI, o objectivo não foi só o de recordar o trabalho desenvolvido pela organização ao longo destas três décadas, mas também dar a conhecer os desafios actuais a que a mesma pretende dar resposta. Que sentimentos pretendia criar no público e, sobretudo, que alertas elegeu para figurarem nesta exposição?

© AMI - Fernando Nobre é o fundador e presidente da AMI
© AMI – Fernando Nobre é o fundador e presidente da AMI

A exposição foi um dos momentos altos das comemorações do 30º aniversário da AMI, mas o nosso objectivo foi que o seu enfoque ultrapassasse as fronteiras da AMI, partilhando a sua história, é certo, mas procurando despertar consciências para uma realidade que é de todos: a condição humana.

A exposição dividiu-se, por isso, em quatro grandes áreas/desafios, designadamente, ‘Pobreza e Exclusão Social’, ‘Migrações’, ‘Alterações Climáticas’ e ‘Cidadania’, procurando alertar o público para as problemáticas concretas relacionadas, uma vez que se tratam de dificuldades que a todos dizem respeito, sendo fundamental que todos estejamos informados, preparados e, sobretudo, conscientes da importância de exercermos a nossa cidadania de forma activa e comprometida.

Não me cansarei de dizer que o futuro da Humanidade nos pertence e, por isso, cabe-nos a nós, cidadãos e cidadãs, imprimir um decisivo salto qualitativo no nosso destino colectivo, fazendo com que as nossas utopias de hoje sejam as realidades de amanhã.

Há 30 anos, a AMI assumiu-se como uma organização humanitária, destinada a intervir em situações de crise e emergência e com enfoque em problemas como a fome, a pobreza ou a exclusão social. Estando cientes de que o mundo sofreu extraordinárias mudanças – muitas delas positivas – até que ponto é que as “grandes linhas de intervenção” da AMI – em jeito de balanço – se alteraram?

Quando fundei a AMI há 30 anos, estava longe de imaginar que se tornaria uma instituição desta dimensão. O sonho era grande e as dificuldades imensas, mas a AMI cresceu e 30 anos passaram a uma velocidade inacreditável…

Quando a AMI nasceu, em 1984, tinha apenas um eixo de intervenção: a assistência médica internacional, com o propósito de intervir com equipas médicas expatriadas. No entanto, a sua actuação acabou por se estender a vários países do mundo, em várias áreas para além da saúde, nomeadamente, educação, prevenção de catástrofes, segurança alimentar, água e saneamento, acção social, diálogo intercultural, emprego, promoção dos Direitos Humanos, entre outras. Pretendíamos ser a presença humanitária portuguesa no mundo e penso que o conseguimos.

Dez anos mais tarde, conscientes da realidade que se vivia no País, sentimos o dever de alargar a nossa área de actuação a Portugal, com o objectivo de minimizar os efeitos da pobreza e exclusão social. Procurámos fazer um acompanhamento integrado dos beneficiários, que não se limitasse a contribuir para a satisfação de necessidades básicas mas que, ao invés, promovesse as condições que pudessem conduzir à sua reinserção.

“Embora tenham ocorrido muitas mudanças pela positiva no mundo, as mesmas raramente chegam à maioria da população mundial que vive na pobreza”

Porém, as consequências da crise económica que assolou o País, como a precariedade financeira, o desemprego jovem e de longa duração e as baixas ou inexistentes prestações sociais, forçaram-nos a regressar a uma actuação assistencialista, no sentido de aliviar a precariedade dos recursos das famílias, com uma franja grande da classe média a cair na pobreza.

Adicionalmente, mantemos, hoje como há 30 anos, uma preocupação de independência financeira e sensibilização da sociedade civil, razão pela qual a AMI foi inovadora no desenvolvimento de projectos de sustentabilidade, de que é exemplo a Campanha de Reciclagem de Radiografias lançada em 1996. O êxito desta acção dedicada às preocupações ambientais levantadas a nível mundial na Cimeira do Rio em 1992, conduziu ao natural alargamento da sua acção à área ambiental, em 2004. Desde essa altura, passou também a intervir, de forma estruturada, na área do ambiente, através do desenvolvimento de projectos que visam promover as boas práticas ambientais das empresas, das instituições e dos cidadãos, ciente de que este é um vector fundamental de desenvolvimento das sociedades e de bem-estar das populações.

E no que respeita aos desafios mais actuais?

Acredito que os principais desafios não se alteraram, se os olharmos de forma abrangente e não focada na sua especificidade. Embora tenham ocorrido muitas mudanças pela positiva no mundo, as mesmas raramente chegam à maioria da população mundial que vive na pobreza. Exemplo disso são os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio que, apesar de algumas metas terem sido atingidas, muito ficou, ainda, por fazer. Uma em cada nove pessoas passa fome no mundo, 2,5 mil milhões de seres humanos continuam sem acesso a saneamento melhorado e estima-se que 863 milhões de pessoas viviam, em 2012, em bairros de lata, em comparação com 650 milhões em 1990 e 760 milhões em 2000.

Acredito, também, que as organizações da sociedade civil não podem resistir à mudança e devem evoluir com o mundo, adaptando-se a essas alterações, pois, de contrário, estarão destinadas a desaparecer. Numa época cada vez mais acelerada, menos perene, mais instável e com desafios cada vez maiores, é, aliás, imperativo que uma instituição se adapte rapidamente. E foi sempre essa a preocupação da AMI.

Na medida em que os principais desafios da humanidade se tornaram “questões globais”, quais os que elege como os mais prementes para esta segunda década do século XXI?

Os grandes desafios desta segunda década do século XXI são, sem dúvida, a Pobreza e a Exclusão Social, as Alterações Climáticas e as Migrações, e a resposta terá que passar por uma sociedade civil interessada, activa, participativa e interventiva.

“Desde 2008, registou-se um aumento de 87% na população que recorreu aos equipamentos sociais da AMI”

Aos novos desafios globais (miséria, fome, clima, armas, guerras…) devemos responder com novas respostas globais (cidadania global, solidariedade global, valores universais tais como a honestidade, a dignidade e o respeito pela vida, todas as vidas!).

Como pilar da cidadania organizada, a sociedade civil é essencial para que, exercendo uma forte e sustentada pressão sobre os outros dois pilares da sociedade humana (Estado e Mercado), seja possível controlar a especulação assassina, erradicar a péssima governação e desenvolver uma genuína diplomacia democrática.

É preciso que se obtenha um equilíbrio satisfatório para todos entre a democracia representativa e a democracia participativa, permitindo que as suas opiniões dos cidadãos sejam tidas em conta, quando matérias de relevo nacional, europeu e mundial estiverem em causa!

Sem a pressão de uma ‘Sociedade Civil Global Solidária’ e o surgimento de uma nova geração de políticos e gestores que se alicercem na frontalidade, ética, valores e bom senso, continuaremos com as estéreis boas intenções.

© AMI
© AMI

De acordo com dados do INE, o aumento das taxas de risco e de intensidade da pobreza é preocupante. Até que ponto é que esta realidade afectará “áreas transversais”, como a saúde e a educação, por exemplo, já tão fustigadas pelos anos de austeridade a que o País tem sido exposto?

Portugal – seria absurdo negá-lo – enfrenta problemas muito graves e que carecem de urgente, empenhada e determinada resolução. Tal exige vontade, meios, empenho e a união de todos: partidos políticos responsáveis, forças económicas cidadãs, sociedade civil esclarecida e organizada e cidadãos voluntários, activos e solidários. Só mobilizados e motivados, em nome de Portugal, criando mais riqueza nacional e não aceitando olhar para essa vergonha como uma fatalidade, ou qualquer atavismo lusitano, é que venceremos.

A pobreza e a exclusão são a nossa vergonha. É preciso combatê-las. Com determinação, sem tibieza, com humanismo.

E como será reforçada a actuação da AMI no território nacional?

A evolução do número de novos casos atendidos nos Centros Sociais da AMI em Portugal tem vindo sempre a crescer e de forma particularmente preocupante. Só em 2014, foram atendidas 31.619 pessoas nos nossos equipamentos sociais, sendo que 3.916 procuram o apoio da AMI pela primeira vez. Aliás, desde 2008, registou-se um aumento de 87% na população que recorreu aos equipamentos sociais da AMI.

“Apostamos no desenvolvimento de projectos que visam promover as boas práticas ambientais das empresas, das instituições e dos cidadãos”

As situações de pobreza são cada vez em maior número e mais complexas, e os meios e respostas de intervenção são escassos ou inexistentes, tal é a dimensão do problema.

E é por essa razão que o trabalho da AMI em Portugal continuará a basear-se no apoio que tem sido prestado, até agora, através dos seus equipamentos e respostas sociais, mas também através da oferta de dois fundos de apoio social, no valor de 20 mil euros cada, sendo que um se destina a estudantes com dificuldades em prosseguir os seus estudos por não poderem pagar as propinas, e o outro visa auxiliar famílias em situações dramáticas, vendo-se impossibilitadas de fazer face às despesas de renda, água, luz e gás, uma vez que a existência de um trabalho e de uma habitação são condições essenciais para a sobrevivência humana.

Aceitar como normal, ou inevitável, a pobreza e a miséria humana é que NÃO! NÃO aceito e estou pronto a enfrentar todos os moinhos de vento! É inclusivamente o que a AMI tem tentado fazer nos últimos 30 anos. Reconheço que é esgotante, e por vezes desmoralizante, tais são a inércia e os obstáculos com que diariamente nos confrontamos, mas sou daqueles que entendem que vale a pena realizar sonhos e utopias.

No futuro, a parceria com instituições locais (essencialmente ao nível internacional) será privilegiada pela AMI, no sentido em que é considerada uma importante estratégia no fortalecimento da Cooperação para o Desenvolvimento. Que parcerias já foram feitas e em que áreas se vai concentrar o apoio prestado?

A AMI pretende reforçar a estratégia de maior aposta no financiamento a projectos em parceria com organizações locais, que tem vindo a ser traçada desde 1991, prevendo a continuação ou criação de novos projectos internacionais em parceria com organizações locais.

Em 2014, apoiámos 38 projectos em parceria com 30 organizações locais de 24 países, em quatro grandes áreas, designadamente, saúde, social e educacional, ambiental, e também cidadania e direitos humanos. Em 2015, está previsto o apoio a mais de 40 projectos, em 25 países.

“A aposta no desenvolvimento de programas em parceria com organizações locais tem sido cada vez mais reforçada na estratégia de intervenção internacional da AMI”

A aposta no desenvolvimento de programas em parceria com organizações locais tem sido cada vez mais reforçada na estratégia de intervenção internacional da AMI. Passámos de oito projectos, em 2002, para 40 em 2015. Estes planos são elaborados e implementados por organizações locais que contam com o apoio da AMI, quer em termos de financiamento, quer em termos de consultoria para a gestão de projectos e envio de expatriados. Por sua vez, a AMI conta com o conhecimento do terreno por parte destas organizações que se torna crucial no caso de ser necessária uma intervenção de emergência.

Porém, mais do que pela importância de ter um parceiro no terreno, a aposta nesta estratégia justifica-se pela extrema relevância de uma sociedade civil que exige participar e ser escutada, activa, interveniente e interpelativa.

Torna-se, por isso, imperativo contribuir para o fortalecimento da sociedade civil dos países em desenvolvimento, capacitando as populações, dotando-as de ferramentas que lhes permitam combater a pobreza e ter um papel activo na sociedade em que vivem, contribuindo para a melhoria das suas condições de vida, para que não se vejam forçadas a abandonar os seus países.

© AMI
© AMI

Em termos de projecção do futuro da AMI, como idealiza o crescimento – a médio prazo – da instituição que fundou? Que legado – e lições – pretende deixar para as gerações que o irão substituir?

Sonho com um percurso de outros 30 anos, a fazer mais e melhor, para que milhares de pessoas continuem a ser consideradas e dignificadas, em Portugal e no mundo.

Estaremos cada vez mais empenhados no fortalecimento de uma Cidadania Global Solidária informada, activa, participativa e exigente como única solução que resta à Humanidade, pois, mais do que qualquer outra acção, é aqui que se trava a luta essencial para o futuro e para a sobrevivência da civilização humana. Procuraremos, também, fortalecer a aliança com o sector empresarial, já que se revela fundamental para a prossecução das nossas acções e para a construção de um mundo melhor.

Estamos preparados para as exigências que nos esperam, pois numa sociedade cada vez mais dependente de competência técnicas, é muito importante e eficiente analisar as necessidades e construir projectos com objectivos bem definidos e resultados mensuráveis, mas nunca se deve perder de vista o lado humano e as circunstâncias, culturas e formas de vida, ou seja as especificidades e fragilidades dos beneficiários para que se possam compreender e apresentar as suas propostas.

Sei que as próximas gerações estarão também preparadas para enfrentar os próximos 30 anos e construir um futuro melhor e, sobretudo, mais humano, que passa, não me canso de o dizer, por combater as duas doenças mais graves da humanidade: a Intolerância e a Indiferença.