O Colégio São João de Brito, em Lisboa, acolhe alunos refugiados da Síria e da Eritreia, integrando o seu percurso escolar na realidade nacional, com a ajuda da aprendizagem da língua portuguesa e do acompanhamento às famílias. Em entrevista, Rosário Farmhouse, ex-presidente do Alto Comissariado para as Migrações, actualmente a coordenar este projecto, defende que “é através do conhecimento mútuo e das relações de amizade que a integração surge, e isso só é possível na proximidade”
POR GABRIELA COSTA

Em Novembro de 2015, o Colégio São João de Brito (CSJB), em Lisboa, lançou um projecto de acolhimento a alunos refugiados, em resposta ao pedido do Papa Francisco aos países da Europa, para que os milhares de refugiados que chegam diariamente fugidos da guerra sejam auxiliados. Um ano depois, o ComPARtilha contribuiu já para a integração de sete crianças, quatro da Síria e três da Eritreia. Para além da integração escolar destas crianças através do ensino regular e de língua portuguesa, o CSJB facilitou emprego e habitação a algumas das suas famílias.

Neste momento, a prioridade do projecto é colocar a iniciativa “O Colégio mudou-me a casa”, que promove entre a comunidade educativa a doação monetária e de bens para mobilar as casas das famílias refugiadas, ao serviço de duas famílias sírias que vão abandonar em Janeiro o alojamento cedido pela CML e pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (e que será necessário para outras famílias de refugiados que estão a chegar), e começar uma nova fase da sua vida, numa casa arrendada.

Em entrevista ao VER, Rosário Farmhouse sublinha o “apoio fundamental” que a Associação de Pais do CSJB tem prestado nesta missão de contribuir “para que não fiquemos indiferentes à maior crise humanitária do século XXI”, como desafiou o Papa no repto que lançou.

O acompanhamento não só do percurso escolar destes alunos mas também das suas famílias, promovendo a sua integração na comunidade e no mercado de trabalho em Portugal, “deve-se, em grande parte, à atitude humanista e acolhedora” desta escola. E a forma “extraordinária” como o CSJB tem acolhido estas crianças tem gerado várias notícias e o contacto de outras instituições que querem também colaborar nesta causa. A solidariedade dos pais merece destaque, já que é graças a eles que parte destes refugiados tiveram a oportunidade de recomeçar as suas vidas noutro país, com um emprego e uma casa mobilada.

Para a ex-presidente do Alto Comissariado para as Migrações, é precisamente esse “contacto e interacção entre todas as pessoas” que garante uma integração verdadeira destas populações vulneráveis.

Rosário Farmhouse, coordenadora do Gabinete de Formação Humana do CSJB, com a equipa de professores e responsáveis do ComPARtilha
Rosário Farmhouse, coordenadora do Gabinete de Formação Humana do CSJB, com a equipa de professores e responsáveis do ComPARtilha

Quantas crianças já acolheram e que balanço faz deste primeiro ano de actuação do ComPARtilha, no que respeita à integração escolar destas crianças e ao acompanhamento das suas famílias?

Até ao momento acolhemos sete crianças, quatro da Síria e três da Eritreia. A sua integração superou as expectativas, não só pela generosidade, solidariedade e sentido de verdadeiro acolhimento da comunidade educativa do CSJB, como pela facilidade com que as crianças conseguiram aprender português e integrar-se no colégio.

As famílias criaram também relações de grande proximidade entre todos. É fantástico saber a interacção entre as famílias, que organizam passeios, lanches, idas as circo e ao futebol, etc.

Concretamente, que tipos de apoios conseguiram disponibilizar para estes alunos e para os seus pais e familiares?

Como forma de preparar a entrada destas crianças no colégio foi feita toda uma sensibilização à comunidade educativa sobre a temática dos refugiados. Durante os primeiros dois meses os alunos tiveram aulas de português como língua não materna e actividades desportivas e artísticas, de modo a permitir uma integração gradual junto das outras crianças. Após o período inicial integraram as turmas respectivas.

O CSJB acolheu até ao momento sete crianças, da Síria e da Eritreia

Dada a proximidade com as famílias refugiadas e as famílias do CSJB, foi possível arranjar emprego para alguns pais e foi possível encontrar casa para duas das famílias.

Como é dinamizado o projecto “O Colégio mudou-me a casa” e de que modo é que a comunidade educativa é envolvida no mesmo para ajudar a mobilar as casas das famílias acolhidas no nosso País?

A actividade “O Colégio mudou-me a casa” foi a forma encontrada para mobilar as casas das famílias refugiadas. Com o apoio de uma mãe decoradora de interiores foi possível construir uma lista de tudo o que iríamos precisar para decorar a casa da primeira família (da Eritreia).

A lista foi divulgada pelos pais do colégio para que pudessem participar com móveis em segunda mão ou, em querendo, contribuir com dinheiro para adquirirmos os móveis que faltavam. Numa semana foi possível conseguir quase tudo o que pedimos.

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Em Janeiro duas das famílias sírias vão também para a sua nova casa e iremos dar continuidade a esta actividade, com a mesma metodologia: visita à casa pela especialista, elaboração da lista e divulgação junto da comunidade educativa.

De que modo se enquadra o projecto ComPARtilha na atitude e valores humanistas do CSJB?

Este projecto vem ajudar a que os alunos possam ter um contacto directo com o ideário do colégio: “criar homens e mulheres para os outros e com os outros” e com o seu lema, “educar para servir”. Os valores humanistas fortalecem-se pondo em prática o acolhimento efectivo do outro.

Os valores humanistas fortalecem-se pondo em prática o acolhimento efectivo do outro

A família da Eritreia, quando viu a casa mobilada pela comunidade educativa do colégio, disse, entre lágrimas, que “fizeram aquilo que só os irmãos fazem e mostraram o verdadeiro Cristianismo.”

Na sua perspectiva, que contributo dão as respostas da sociedade civil à crise humanitária de refugiados nos vários países da Europa?

A sociedade civil tem um papel fundamental. Quando falamos de integração falamos de relação. Só com o contacto e interacção entre todas as pessoas é possível falarmos de integração. É através do conhecimento mútuo e das relações de amizade que a integração surge e isso só é possível na proximidade e na informalidade, que só a sociedade civil permite.