Já se utilizaram litros e litros de tinta em notícias, campanhas, acordos e recomendações para a inalcançável paridade de género. Contudo, e por mais incompreensível que seja, a questão continua a ser um “tema”sem final feliz à vista. Em mais uma tentativa de passar da teoria à prática, a comunidade empresarial – ou uma ínfima parte dela – parece mais comprometida em atingir o tão almejado (?) equilíbrio. O EDGE – Certificado Internacional para a Igualdade de Género – tem vindo a dar mais uns passinhos na tentativa de estreitar o fosso de oportunidades nesta imparidade, desde o recrutamento até aos lugares de topo. A SAP, enquanto multinacional a operar em Portugal, é uma das que está a seguir este aparentemente interminável caminho
POR
MÁRIA POMBO

A igualdade de género é um tema que, infelizmente e pelos motivos óbvios, não consegue perder actualidade. E, apesar da – em demasiados casos aparente – vontade, manifestada por muitas empresas, de inverter esta tendência e promover a paridade entre homens e mulheres, a verdade é que diversos são os estudos que indicam que passar da teoria à prática parece ser um passo demasiado grande para ser real. E nem com inúmeros congressos a nível mundial dedicados ao tema, nem com recomendações diversas que indicam que esta igualdade é benéfica para as empresas e para a economia, a realidade parece mudar.

Este é um tema que tem vindo a ser tratado, desde 2006, no Fórum Económico Mundial (FEM). No seu último relatório global acerca deste tema (e sobre o qual o VER escreveu), apresentado em Outubro do passado ano, conclui-se que as disparidades entre homens e mulheres são resultado de diversos factores culturais, políticos e socioeconómicos. O mesmo documento aponta também para a forte relação entre a desigualdade de género dos países e o seu desempenho em termos económicos, revelando que todas as nações devem continuar a criar políticas de promoção da igualdade, de modo a eliminar as diferenças e criar uma sociedade mais inclusiva e competitiva.

Contudo, e apesar de esta ser ainda uma luta que está longe de acabar, não podemos esquecer-nos de que existem iniciativas e organizações que fogem a esta regra e que, contrariando as actuais (e velhas) tendências, escolhem dar as mesmas oportunidades a homens e a mulheres, não distinguindo em função do género mas sim em favor das competências e do desempenho.

O Economic Dividends for Gender Equality (EDGE) – Certificado Internacional para a Igualdade de Género – foi apresentado no Fórum Económico Mundial e, tal como o nome indica, pretende promover a igualdade de género nas empresas, a nível mundial, sendo atribuído – e pese embora a repetição – pela Fundação EDGE. A sua metodologia tem vindo a ser desenvolvida desde 2011 e visa ajudar as organizações, não apenas a criar um local de trabalho “adequado” a homens e a mulheres, como também a beneficiar de e com esse equilíbrio. As suas métricas distinguem-se pelo rigor e pelo impacto que este “gesto” traz às empresas e à sociedade, baseando-se em análises comparativas (benchmarking), em métricas e em avaliação de resultados. Uma característica do EDGE, relativamente a outros programas semelhantes, é que sua metodologia é direccionada para “pôr em prática” a igualdade de género, ultrapassando as abordagens teóricas e que dificilmente saem do papel.

Pagamento igual pela mesma função, recrutamento e progressão na carreira, formações ao nível do desenvolvimento da capacidade de liderança, trabalho flexível, e ainda cultura empresarial são as áreas em torno das quais são delineadas as métricas de implementação e avaliação da igualdade de género (IG) nas organizações. Desta forma, o desafio é inverter a tendência que se vive actualmente nas empresas relativamente à baixa percentagem de mulheres que ocupam cargos de liderança, às diferenças em termos de ordenados entre eles e elas, aos estereótipos profundamente enraizados de que o homem trabalha e a mulher fica em casa, e ainda no que respeita às diferenças acentuadas entre as oportunidades de progresso e exigências do dia-a-dia.

E as vantagens de promover a igualdade de género são infinitas. A melhoria da performance financeira das empresas, a melhoria da cadeia de talentos, a retenção de trabalhadores e a possibilidade de desenvolvimento das competências são alguns dos principais benefícios identificados pelas organizações que já aderiram ao certificado EDGE e que, por esse motivo, já praticam a igualdade de género. Adicionalmente, as mesmas também apontam, como vantagens consideráveis, o facto de ser mais profundo o conhecimento que têm acerca das necessidades dos seus clientes e das oportunidades de negócio, verificando também uma melhoria da reputação da sua marca.


Igualdade: é importante medir, comparar, certificar e comunicar

A metodologia deste certificado prende-se essencialmente com a criação de um equilíbrio forte em todos os níveis da organização (desde os cargos mais elementares às funções de liderança), estando este de mãos dadas com a igualdade salarial. Complementarmente, a mesma engloba ainda a implementação de práticas e políticas de promoção da igualdade de género e também a criação de uma cultura empresarial inclusiva, com semelhantes percentagens de participação feminina e masculina. Não se trata aqui de uma mera implementação de quotas, mas sim da promoção de uma verdadeira paridade entre homens e mulheres, promovendo-se a inclusão total do outrora denominado de sexo fraco.

De acordo com o EDGE, a igualdade de género é “alcançável” através de quatro passos: a medição, o índice de referência, a certificação e a comunicação.

No primeiro passo, as estatísticas que as organizações possam ter sobre este tema, as infra-estruturas (relacionadas com as políticas e práticas existentes) e a experiência (que é complementada com a opinião dos colaboradores acerca de como as organizações lidam com este tema) são os parâmetros que permitem medir o grau de inclusão de mulheres nas empresas. É a análise destes três parâmetros, em conjunto, que permite comparar os esforços feitos com os resultados alcançados no que à promoção da paridade de género diz respeito.

O índice de referência é o que serve de base para implementar um plano de acção, determinando aquilo que é necessário fazer para conseguir alcançar a igualdade. O nível mais baixo diz respeito ao pagamento igual por trabalhos semelhantes e o segundo nível refere-se ao recrutamento e progressão. O terceiro nível está relacionado com o desenvolvimento das capacidades de liderança, e o quarto prende-se com questões relacionadas com flexibilidade de horários. Finalmente, o último nível – e aquele que se pretende alcançar – tem como objectivo a implementação eficaz de uma cultura de inclusão das mulheres, nas empresas, a qual garante que todos os outros níveis são permanentes e duradouros.

O passo da certificação é feito por certificadores independentes que garantem toda a imparcialidade no que respeita à avaliação dos resultados alcançados. O certificado é válido durante dois anos. Considerando que o EDGE segue uma filosofia de melhoria contínua, existem três níveis de certificação, apurados de acordo com o compromisso demonstrado pelas empresas.

O EDGE ASSESS é o nível mais baixo e, através deste, as empresas assumem que estão empenhadas em promover o progresso, comprometendo-se com a sociedade no que respeita à manutenção de um forte equilíbrio entre os dois géneros. O EDGE MOVE é o nível intermédio de certificação e revela que as empresas já alcançaram alguns resultados importantes, gerindo proactivamente a igualdade salarial e implementando políticas de promoção da paridade entre homens e mulheres, nomeadamente no que respeita à adaptação dos locais de trabalho, tornando-os mais inclusivos e “menos masculinos”. Finalmente, o EDGE LEAD é o certificado que comprova que a empresa está realmente empenhada em promover a igualdade de género, através da promoção do equilíbrio em toda a organização e a todos os níveis, ao mesmo tempo que assume que esta faz parte do sucesso e da sustentabilidade do seu negócio.

A paridade de género é, afinal, “um impulsionador de receitas”

O EDGE está presente em mais de 150 organizações, as quais têm actividade em mais de 40 países e em 22 indústrias. Em Portugal, a SAP é a primeira multinacional a ter no currículo esta certificação, encontrando-se actualmente no primeiro patamar – o EDGE ASSESS – em termos de promoção de igualdade de género.

Tratando-se de uma multinacional, a certificação só é concedida porque a paridade de género está a ser implementada em pelo menos 80% dos países onde a organização exerce actividade. Nesta fase, a SAP está comprometida em ocupar, até ao final deste ano, 25% dos seus cargos de chefia com mulheres, sendo que no segundo trimestre de 2016, a liderança da organização já era detida por 24,1% de representantes do sexo feminino. Complementarmente, e também nesta data, as mulheres ocupavam 32,5% do total dos cargos da empresa.

Para além de ter criado diversas medidas (como a questão das quotas), a SAP lançou recentemente uma nova ferramenta, a qual foi concebida, entre outras coisas, para reduzir todas as desigualdades em termos de género que possam existir na empresa. Esta ferramenta faz parte do seu compromisso de promover a paridade entre homens e mulheres, e permite detectar a existência de diversas falhas, como a diferença salarial. Se for bem implementada, a mesma irá permitir a eliminação das desigualdades entre homens e mulheres, desde a fase do recrutamento até às chefias.

Para Stefan Ries, director de Recursos Humanos da SAP, “a igualdade de género não é uma iniciativa de responsabilidade social corporativa ou simplesmente um benefício cultural” mas sim “um factor diferenciador, uma fonte de inovação e um impulsionador de receitas para a nossa empresa”. Complementarmente, e como afirma Bill McDermott, CEO da SAP, “este reconhecimento global representa um marco importante nos contínuos esforços para eliminar o preconceito no local de trabalho”.

A este respeito tem também uma palavra a dizer a co-fundadora da Fundação do Certificado EDGE. Considerando que “a comunidade tecnológica global recebe pontuações baixas relativamente à igualdade de género”, Aniela Unguresan enaltece os esforços da SAP que, pertencendo ao sector da tecnologia, escolhe “promover uma força de trabalho que facilita uma cultura de diversidade, inclusão e igualdade”.


A certificação EDGE no mundo

Para além dos representantes da SAP, outros dirigentes de diversas organizações que também já obtiveram a certificação EDGE revelam entusiasmo em promover a igualdade de género, salientando os benefícios para as empresas e para a sociedade.

Um dos exemplos é o de Jim Yong Kim, presidente do World Bank Group, para quem “a mesma oportunidade para homens e mulheres é um princípio fundamental de desenvolvimento e de dignidade humana”.

Por seu turno, Carlos Labarthe, CEO da mexicana Gentera, explica que, promover a igualdade de género traz à sua empresa “uma vantagem competitiva em termos de gestão de talentos, tornando mais fácil atrair, desenvolver, motivar e reter os melhores talentos femininos e masculinos”.

Fazendo parte do Conselho Académico e Científico da Fundação EDGE, Iris Bohnet explica que “ sistema de certificação EDGE significa um marco no nosso trabalho sobre a criação de igualdade de género corporativa e eficiência”. A também docente na Universidade de Harvard não tem dúvidas de que “promover a igualdade de género é a coisa certa e inteligente”, reforçando que o programa EDGE “permite que as empresas identifiquem e eliminem erros” relacionados com decisões estereotipadas e preconceituosas.

Estes são alguns exemplos que revelam que promover a igualdade entre homens e mulheres não é apenas um “gesto bonito” mas sim uma forma de aproveitar as capacidades e potencialidades dos trabalhadores, independentemente do género. Complementarmente, esta paridade permite atrair clientes e aumentar as receitas, beneficiando a organização e melhorando a economia. Pena é que continue a ser necessário “decretar” estas medidas e as mesmas continuarem a ser notícia.