O Pacto para a Liderança Responsável nos Negócios, assinada este ano no Fórum Económico Global é (mais) um passo importante para as empresas que operam na sociedade global. Todavia, precisa ainda de ser muito trabalhado se o seu objectivo for mesmo o de estimular um valor societário de longo prazo. É que do pacto ao acto vai ainda uma longa distância
© Stanford Social innovation Review
Adaptado por 
HELENA OLIVEIRA

O crescimento económico não é sustentável se não for inclusivo, afirmou a responsável do Fundo Monetário Internacional numa declaração peremptória [apesar de não propriamente inovadora], na reunião de líderes em Davos, anualmente promovida pelo Fórum Económico Mundial. Mas Christine Lagarde não foi a única a optar por declarações “azedas” no que respeita ao futuro dos negócios. O CEO da Philips, Frances Van Houten, alertou também para a necessidade das “empresas globais precisarem de se reunir em torno de uma abordagem multi-stakeholder para operarem os seus negócios”. Por seu turno, Dominic Barton, Managing Partner da consultora McKinsey pediu aos líderes empresariais presentes para estarem devidamente atentos ao fenómeno da diminuição no número de postos de trabalho de baixas ou médias competências, afiançando que “mais de 60% das tarefas laborais e 30% das actividades na actualidade poderem ser automatizadas”, acrescentando ainda que “não é possível confiar nos governos no que respeita à requalificação das pessoas na era acelerada das alterações tecnológicas e da automação” e que são as “empresas que devem liderar este processo”.

Assim, e para ir ao encontro destes desafios, a iniciativa promovida pelo International Business Council (IBC) do Fórum Económico Mundial teve como temática principal a denominada liderança responsável nos negócios.

No seguimento desta iniciativa, mais de 100 CEOs, incluindo os que lideram a Nestlé, a Unilever, o Bank of America, a Total, a Philips, entre outros gigantes empresariais, subscreveram já o denominado Pacto para a Liderança Responsável nos Negócios, numa tentativa não só de dar o exemplo para a comunidade empresarial alargada, mas também no sentido de se comprometerem publicamente com um plano de acção pelo qual serão individualmente “responsabilizados” no que respeita aos conselhos de administração das empresas a que presidem, investidores, pares e gestores, bem como stakeholders externos como governos e ONGs.

O IBC defende a urgência de um “consenso emergente para a necessidade de um novo pacto [ou compromisso] para as empresas, para os seus executivos de topo e presidentes dos conselhos de administração, bem como para investidores líderes e gestores de activos de forma a se criar um novo quadro de corporate governance com enfoque na sustentabilidade de longo prazo das empresas e nos objectivos, igualmente de longo prazo, da sociedade”. Ao subscrever este “pacto”, a empresa “partilha a convicção de que a sociedade é melhor servida pelas organizações que alinham os seus objectivos para servirem os objectivos de longo prazo da sociedade”.

Tendo em consideração que as empresas perseguem ganhos financeiros de curto prazo, a ideia principal é a de não se distanciarem [ou se “distraírem”] no que respeita à prosperidade económica e ao bem-estar social de longo prazo. E, no que a esta temática em particular diz respeito, é bom recordar que os Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas já oferecem um quadro de referência relevante para o alinhamento destes interesses.

Este novo pacto é, claramente, um importante passo em frente para as empresas que operam na sociedade global. O seu compromisso para com uma sociedade mais inclusiva marca o início de uma era na qual o crescimento económico, a participação por parte dos mais desfavorecidos e uma melhor redistribuição da riqueza serão fortemente acoplados. Neste artigo adaptado da Stanford Social innovation Review e assinado por Harry Hummels, professor de Ética, Organizações e Sociedade na Universidade de Maastricht, a holandesa Philips é escolhida como um bom exemplo de uma empresa que se tem esforçado para alinhar uma economia social, justa e inspiradora com o capitalismo de mercado.

Em Davos, e como escreve o também professor de empreendedorismo social na Universidade de Utrecht, e tendo como base a sua anterior experiência num banco reconhecido enquanto director de investimento responsável e com impacto, a Philips trabalhou com diversos governos e organizações da sociedade civil no desenvolvimento de 1000 Community Life Centers (CLCs) em África, os quais foram inicialmente implementados no Quénia. Os CLCs fornecem serviços de cuidados de saúde primários, energia solar e água potável, tendo como objectivo melhorar o acesso a melhores condições de saúde por parte de milhões de cidadãos carenciados. Desta forma, a líder global holandesa em cuidados de saúde e produtos de consumo tenta cumprir as necessidades sociais e os seus interesses comerciais em simultâneo, em colaboração estreita com as comunidades locais e com o governo.


Liderança inclusiva e responsável, versão 2.0

Todavia, e apesar de alguns bons exemplos que emergem ocasionalmente, o compromisso – ou “pacto” – das empresas e as suas práticas estão, na generalidade, dessintonizadas. Para Harry Hummels, existem três razões fundamentais para que os líderes façam uma reformulação da versão actual deste “pacto” e que o mesmo seja “reeditado” numa versão 2.0. Vejamos porquê:

  1. Denominar um documento desta natureza como um “pacto” é um exagero ou uma interpretação errada do que significa realmente a palavra “pacto”. De acordo com o Dicionário de Inglês de Oxford [citado pelo autor que assina este artigo], a palavra “pacto” [compact, em inglês] significa um “acordo formal ou contrato entre duas ou mais partes”. Ora, o Pacto para a Liderança Responsável nos Negócios é, simplesmente, uma afirmação ou declaração formulada por uma empresa e assinada pelo seu respectivo CEO.
  1. Ao abordar especificamente os interesses de longo prazo da sociedade, este “pacto” – se na verdade tiver como objectivo ser um contrato ou um acordo – deveria incluir representantes dos governos ou da sociedade civil. Ao excluir representantes dos governos, os beneficiários previstos e as organizações da sociedade civil, as empresas estão meramente a expressar as suas intenções face à sociedade, sem se comprometerem com a sua efectiva realização. E não existe nenhuma razão para assumir que os interesses de longo prazo da sociedade – pelo menos tal como são percepcionados pelas empresas – coincidam com os verdadeiros interesses societais.
  1. Este “pacto” merece ser louvado na medida em que adopta os ODS enquanto premissas orientadoras para o alinhamento entre interesses sociais e empresariais. Mas se os stakeholders que o assinaram serão capazes de atingir estes objectivos nas suas práticas diárias é uma incógnita. Como escreve o autor, basta tomar como exemplo a Bridge International Academias (BIA, na sigla em inglês) – um empreendimento social devidamente aclamado e que fornece educação primária privada a mais de 120 mil crianças no Quénia e no Uganda, estando a expandir-se rapidamente para outros países. À primeira vista, a BIA parece estar perfeitamente alinhada com a meta número quatro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável: assegurar educação inclusiva e de qualidade para todos e promover formação contínua (ou educação para a vida). A verdade é que apesar de os resultados demonstrarem que a abordagem da educação por parte da Bridge está a ter um efeito positivo significativo na aquisição de conhecimentos e competências em inglês e matemática, a organização tem sido alvo, igualmente, de várias críticas. De acordo com a Education International e com o Sindicato Nacional dos Professores do Quénia, os docentes em causa não têm as qualificações adequadas e as salas de aula não oferecem um ambiente de aprendizagem seguro e apropriado. E, bem ilustrativo deste debate é a crítica ao investimento de 10 milhões de dólares no BIA por parte do Banco Mundial, sem o mesmo se mostrar disponível para financiar o sistema público educativo nem no Quénia nem no Uganda. O que, e como alerta Harry Hummels, torna impossível para os governos, e tal como os críticos defendem, igualar as empresas privadas em termos de oferta de serviços.

O Institutional Business Council do Fórum Económico Mundial merece também um louvor por juntar líderes empresariais em torno de um propósito que apoia a criação de valor societal de longo prazo. Mas tal como demonstram os exemplos dos Community Life Centers da Philips ou das iniciativas de educação promovidas pela Bridge International Academies, atingir os objectivos de longo prazo da sociedade exige a participação, efectiva e eficaz, dos governos, das comunidades locais, dos beneficiários e das organizações da sociedade civil. Um contrato ou um acordo que almeje levar mais longe os interesses da sociedade – tendo como orientação os ODS – precisa, indubitavelmente, de ter essa mesma sociedade à mesa.

Se este “pacto” pretende contribuir significativamente para o alinhamento entre o bem-estar social e o desenvolvimento sustentável e de longo prazo da economia, é necessária uma nova versão que apele aos líderes empresariais, investidores, governos e sociedade civil que estimulem, conjuntamente, esse mesmo crescimento social, económico e sustentável, a par de uma distribuição justa dos procedimentos da actividade económica e de um processo de tomada de decisão que permita que os beneficiários em causa tenham, também eles, uma palavra a dizer face a esse dito desenvolvimento.

Adaptado, com permissão, de“Responsible Leadership Is Inclusive Leadership”. © Stanford Social Innovation Review 2017