Não encaram a pobreza apenas – ou em primeiro lugar – como um fenómeno económico. Estão mais preocupados com a penúria nos relacionamentos, no conhecimento, nas estruturas sociais e legais que deveriam estimular a equidade e a justiça. É uma nova definição de miséria que os inovadores culturais estão a tentar eliminar em novos espaços que criam, com gestão e financiamento mínimos, das bases para o topo e aproveitando a inteligência e as capacidades dos “comuns”. E poderão representar a nossa melhor esperança para descobrir e criar a prosperidade desejada que se encontra sincronizada com o nosso ambiente em rápido desenvolvimento.
© Stanford Social innovation Review
Traduzido e adaptado por HELENA OLIVEIRA

Há alguns anos em São Francisco, um proprietário beneficente financiou, a um grupo de inovadores sociais rebeldes, um armazém de 14 mil metros quadrados num dos bairros menos desejados da cidade, cobrando-lhes um dólar por mês. E, nessa “carcaça” de prédio, eles criaram o denominado freespace, descrito como um “local temporário para uma mudança duradoura”. Um local para estimular a inovação cívica, as artes, a aprendizagem e o sentimento de comunidade. Este freespace deu as boas-vindas a qualquer pessoa que nele quisesse participar e contribuir, incluindo piratas informáticos insatisfeitos com os seus trabalhos nas dot-coms e pessoas sem-abrigo que frequentavam a cantina da igreja de Saint Vincent de Paul mesmo ali ao lado. Em poucos dias, os voluntários limparam o espaço e abriram as suas portas. Os artistas criaram belas peças de arte. Os participantes ofereceram aulas e procuraram ajuda de um conjunto diversificado de artistas e de iniciativas comunitárias. Os membros do freespace desenvolveram, assim, um conjunto de princípios de governança básicos visivelmente expostos à entrada do mesmo.

Partidos políticos e candidatos eleitos estão crescentemente cativos de interesses financeiros em vez de serem representantes legítimos das pessoas que os elegeram

Para além de o reconstruírem, a comunidade freespace lançou uma panóplia variada de outros projectos. Mark Roth, um antigo sem-abrigo, lançou o The Learning Shelter, uma sala de aulas móvel que oferece cursos de formação para residentes de albergues de sem-abrigo locais. O denominado SF Yellow Bike Project estabeleceu um programa de partilha de bicicletas na cidade de São Francisco, com custos operacionais a uma ínfima fracção do preço praticado por um projecto similar já existente na cidade. E outros participantes produziram uma instalação de arte num mural e realizaram um documentário sobre o espaço em questão. Coisas extraordinárias aconteceram, rapidamente, com muito pouca gestão, sem “funcionários” pagos e com uma quase ausência total de dinheiro.

Três anos mais tarde, Michael Zuckerman, um dos fundadores originais do freespace levou as lições aprendidas em São Francisco para um local muito diferente: um campo de refugiados na Grécia. Ali, tornou-se no catalisador do projecto Elpida, reabilitando uma fábrica de vestuário abandonada e transformando-a num “abrigo humano” para refugiados. Num desvio extraordinário das abordagens de “ajuda”prevalecentes, utilizou os mesmos princípios de auto-organização de que tinha sido pioneiro no freespace de forma a envolver os migrantes no processo de concepção e gestão deste novo espaço.

“Queríamos tentar algo diferente”, afirma Zuckerman à Stanford Social Innovation Review, de onde é adaptado este artigo, “talvez o oposto do que já é tradicionalmente feito. Em vez de criar dependências, criámos independência. Em vez de uma estrutura do topo para as bases, vamos ver o que acontece quando se opta por começar das bases para o topo”, diz.

© Elpida Project [Elpida Hospital]
Espaços culturais como sementes de uma transformação social alargada

Zuckerman é um de milhares de inovadores pioneiros na construção de novos conjuntos de comportamentos, práticas e padrões de utilização de tecnologias com vista ao desenvolvimento de experiências sociais e culturais absolutamente inventivas.

Os ideais de criação de uma sociedade mais equitativa esbarram com a experiência muito real de uma polarização crescente dos rendimentos

Pia Mancini, por exemplo, é co-fundadora da DemocracyOS e do Net Party na Argentina cuja missão é o envolvimento do público em geral no processo de tomada de decisão politico. Nikiko Masumoto combina arte, desenvolvimento comunitário e agricultura biológica para criar novos modelos agrícolas em Central Valley na Califórnia. Paul Radu e Drew Sullivan, líderes do denominado Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), montaram uma ampla e distribuída rede de jornalistas que trabalha para expor crimes e corrupção à escala global. E os exemplos poderiam continuar.

Estes inovadores estão a criar novos espaços culturais – físicos, digitais e metafóricos – nos quais as pessoas podem explorar novas formas de fazer as coisas, em conjunto e individualmente, as quais inspiram os indivíduos a repensarem sobre si mesmos e sobre as suas capacidades. Uma pessoa sem-abrigo começa a ver-se como um empreendedor e professor. Uma rapariga refugiada e indefesa torna-se numa jornalista e numa contadora de histórias. Uma capitalista de risco descobre que é uma artista. E um cidadão “desligado” ganha voz no processo político.

E por que motivo é que estes espaços estão a merecer tanta atenção nos dias que correm?

Os inovadores culturais estão a semear uma prosperidade cultural revigorada que as instituições “consagradas” não conseguem construir

Neste momento particular da história, muitas das nossas instituições e crenças já não funcionam na realidade material em que vivemos. A educação já não garante aos jovens um trabalho estável e bem pago. São cada vez menos as pessoas que têm trabalhos a tempo inteiro sendo que, ao invés, colam “remendos” de serviços que prestam na gig economy, o que resulta em ausência de segurança ou acesso a benefícios. De forma crescente, vemos partidos políticos e candidatos eleitos cativos de interesses financeiros em vez de serem representantes legítimos das pessoas e os ideais de criação de uma sociedade mais equitativa esbarram com a experiência muito real de uma polarização crescente dos rendimentos.

Em tempos como este, a transformação e a confusão tendem a dar origem a novas crenças, a novas formas de fazer as coisas e a novas normas culturais e a novos heróis. E este é um processo crítico de evolução societal, espelhando como a evolução acontece na natureza.

O biólogo Stephen Jay Gould utilizou o termo “equilíbrio pontuado”para descrever este processo. Gould argumenta que são as populações que se encontram numa espécie de “periferia” – geralmente populações isoladas que desenvolvem características únicas e significativamente distintas da maioria – que estimulam a inovação. Estas características singulares conferem-lhes uma vantagem evolucionária quando as condições ambientais se alteram, permitindo-lhes sobreviver e florescer enquanto outras populações se extinguem. Durante os períodos de turbulência ou de “pontuação”, estas populações “periféricas” saem dos seus enclaves, e “espalham-se” num ambiente mais alargado para aumentar a sobrevivência do todo.

© Freespace

Do financiamento massificado para a emergência da inteligência das multidões

Pessoas como Zuckerman, Radu, Masumoto, Mancini e muitos outros estão a fazer exactamente isto. A operar nas periferias, ou nas franjas, estão a criar novas culturas, novos valores, novas formas de fazer as coisas, novas formas de ver o mundo, as quais poderão transformar-se em material “genético” para uma transformação social alargada. E, ao longo do processo, estão também a semear uma prosperidade cultural revigorada que as instituições “consagradas” – sejam filantrópicas, agências de desenvolvimento económico, instituições educacionais, corporações ou governos – não conseguem construir. As suas estruturas de pensamento e as ferramentas que estão a utilizar são significativamente diferentes daquelas que as organizações mais tradicionais empregam.

Em vez de criar dependências, criamos independência

Radu observou certa vez que o lado desafortunado das instituições – políticas ou empresariais – reside no facto de ambas serem altamente susceptíveis à corrupção e à decadência. “Tal como uma piscina de águas paradas tende a desenvolver algas, transformando-se em terreno fértil para a disseminação de doenças, as instituições que desenvolvem paredes externas à sua volta tornam-se igualmente ‘apodrecidas’”.

Infelizmente, existe uma abundância de estagnação institucional burocrática no mundo do desenvolvimento actual, em grande e pequena escala. São demasiados os grupos, incluindo as entidades doadoras e as ONGs, que acabam por investir na perpetuação dos mesmos problemas que originalmente pretenderam solucionar. É que, e no final, estes problemas são os que justificam a sua própria existência.

São demasiados os grupos, incluindo as entidades doadoras e as ONGs, que acabam por investir na perpetuação dos mesmos problemas que originalmente pretenderam solucionar

Apesar de o desenvolvimento económico, o realojamento de refugiados e outros esforços de mudança social não devam necessariamente “fugir” da criação de estruturas duradouras, o que os inovadores culturais estão a demonstrar é o que pode ser feito com estruturas mínimas, gestão mínima, poucos ou nenhuns trabalhadores pagos e muito pouco dinheiro. E num mundo futuro com oito ou nove milhões de pessoas, o caminho para a prosperidade cultural não tem tanto a ver com a concepção de programas bem financiados para as massas, mas e ao invés, com a criação de espaços que permitam que a inteligência das multidões emerja – e para que as capacidades individuais possam estimular novas formas de comunidades. Como o estão a fazer? Sincronizando, de forma competente, os esforços da multiplicidade. E como?

A estigmergia é um conceito da biologia que descreve o processo de acções coordenadas entre organismos para produzir padrões complexos de comportamento. As formigas, por exemplo, libertam feromonas como forma de comunicarem a localização de alimentos a outras formigas. A rede complexa de trilhos que as formigas produzem “liga” o ninho às fontes de comida, permitindo que toda a colónia prospere.

De uma forma similar, muitos dos inovadores culturais da actualidade criam espaços – sejam estruturas físicas ou plataformas digitais – que permitem às pessoas sincronizarem actividades, de forma eficiente, sabendo de antemão onde a ajuda é necessária, o que precisa de ser feito e de que forma é que podem contribuir. E, ao contrário das estruturas tradicionais de oferta de recursos, estas abordagens estabelecem plataformas interactivas de todas as espécies que permitem aos destinatários responder com acções individuais que, por sua vez, são somadas às soluções coordenadas.

© DR

Os novos caminhos para a prosperidade

Ao longo de décadas, os governos, as fundações filantrópicas e as organizações sem fins lucrativos dedicaram-se ao desenvolvimento económico em todo o mundo – para aliviar a pobreza e integrar comunidades marginalizadas numa economia global. Retiraram as suas “ideias”de práticas corporativas globais, procurando eficiências de escala, estandardizando produtos e serviços, criando mercados para apoiar esses mesmos produtos e serviços e analisando o retorno do investimento. E aqueles que têm sido melhor sucedidos no mundo dos negócios têm trabalhado para oferecer o seu know-how de “big-business” a um vasto conjunto de problemas económicos e sociais.

Os caminhos que muitos inovadores culturais estão a perseguir – planeando para a impermanência, fazendo crescer e alavancado os “comuns”, coordenando das bases para o topo e fazendo coisas sem dinheiro – vão contra todas as abordagens tradicionais do desenvolvimento

Os caminhos que muitos inovadores culturais estão a perseguir – planeando para a impermanência, fazendo crescer e alavancado os “comuns”, coordenando das bases para o topo e fazendo coisas sem dinheiro – vão contra todas estas abordagens. Mas e na verdade, são precisamente este tipo de estratégias que precisamos de levar mais a sério. Múltiplos estudos, incluindo alguns realizados pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional, chegaram à conclusão que as estruturas de desenvolvimento tradicionais ou falharam largamente em termos de resultados ou apresentaram resultados à custa de elevados custos humanos. E uma das razões para esta realidade reside precisamente no facto de as abordagens tradicionais para o desenvolvimento tenderem a subestimar o papel dos indivíduos e da cultura na catalisação da mudança. A cultura não é tema sobre o qual os economistas e os profissionais do desenvolvimento se sintam confortáveis em debater, e não é facilmente mensurável. Mas, e mesmo assim, a cultura é talvez a mais poderosa alavanca para estimular a mudança.

E é isto que os inovadores culturais compreendem de forma visceral: não encaram a pobreza apenas (ou em primeiro lugar) como um fenómeno económico. Indivíduos, e até comunidades inteiras, estão a sofrer de uma pobreza de relacionamentos, de conhecimento, de estruturas sociais e legais que deveriam apoiar a equidade e a justiça e, talvez mais importante que tudo, de uma enorme penúria na orientação de visões para o futuro. Em conjunto, tudo isto representa a miséria da cultura e é este tipo de pobreza que os inovadores culturais estão a tentar eliminar nos novos espaços que estimulam.

Os inovadores culturais estão a reescrever os princípios fundamentais do que realmente significa prosperidade e de como é possível alcança-la

Os inovadores da prosperidade cultural não são gurus do desenvolvimento ou profissionais das comunidades. Ao invés, são indivíduos “ampliados” – muitas vezes pessoas que trabalham com o enorme contributo das tecnologias e das conexões que mantêm entre si – que fazem coisas que as grandes instituições simplesmente não conseguem alcançar. E, ao longo do processo, estão a reescrever os princípios fundamentais do que realmente significa prosperidade e de como é possível alcança-la.

Adicionalmente, poderão representar a nossa melhor esperança para descobrir e criar a prosperidade desejada que se encontra sincronizada com o nosso ambiente em rápido desenvolvimento.


Artigo escrito em co-autoria por:

Marina Gorbis, directora executiva do Institute for the Future, uma organização sem fins lucrativos dedicada, há 48 anos, a pensar sistematicamente sobre o futuro para ajudar as organizações e as comunidades a tomar melhores decisões e autora do livro The Nature of the Future: Dispatches from the Socialstructed World.

Kathy Vian, escritora e director de pesquisa no Institute for the Future e responsável, nos últimos 10 anos pelo denominado Ten Year Forecast Program, uma fonte reconhecida de prospectiva para empresas, governos e organizações comunitárias.

Adaptado, com permissão, de “Building cultural prosperity
© Stanford Social Innovation Review 2017