Ter saúde e independência financeira e constituir família são as três maiores preocupações da geração entre os 20 e os 40 anos. É o que revela o estudo “Jovens e o Mundo Profissional”, apresentado a 25 de Março no 1º Encontro da ACEGE Next, a nova comunidade da associação cristã que quer ajudar os mais novos a ultrapassar os desafios que enfrentam, no trabalho e na família. E que se lançou sob o mote “a coragem de fazer a diferença”, reunindo cerca de 150 participantes numa reflexão sobre o papel desta geração no mundo empresarial
POR GABRIELA COSTA

Quais são as inquietações da geração entre os 20 e os 40 anos relativamente ao mundo empresarial? Quais as relações destes jovens adultos no trabalho e com o domínio das qualificações, da família, dos valores humanos e da religião?

Para avaliar estas questões, a ACEGE – Associação Católica de Empresários e Gestores, encomendou um estudo intitulado “Jovens e o Mundo Profissional”, o qual foi apresentado a 25 de Março, na Fundação Oriente, em Lisboa, no 1º Encontro ACEGE NexT, que assinalou o lançamento oficial desta comunidade que pretende representar as gerações mais novas de associados e não associados da Associação Cristã, dando resposta aos desafios que enfrentam no trabalho e na família.

Sob a temática “A Coragem de Fazer a Diferença”, o evento reuniu cerca de 150 participantes, entre jovens e membros da ACEGE com larga experiência empresarial, numa manhã de Sábado onde, para além da apresentação dos resultados deste inquérito, houve ainda lugar para três intervenções em formato “Ted Talks” – a cargo de Teresa Souto Moura, médica, Bernardo Vasconcelos, gestor, e Joana Cordovil Cardoso, professora – e um painel de discussão com os três oradores, moderado pela jornalista Laurinda Alves.

Há uma crise de valores no mundo empresarial – Luís Lobo Xavier

O estudo, cujas conclusões foram analisadas neste Encontro por João Pedro Tavares, presidente da ACEGE e Luís Lobo Xavier, membro-fundador da ACEGE Next e coordenador de projectos no âmbito da Saúde, Sustentabilidade, Desenvolvimento Humano e Inovação Social na Fundação Calouste Gulbenkian, revela que são as questões laborais (stress e razões económicas) que mais impedem muitos jovens de serem pais, ou de alargarem o núcleo familiar.

Com uma amostra de 400 entrevistas online realizadas, entre 25 de Janeiro e 9 de Fevereiro, junto do Painel Netsonda, a um target de indivíduos de ambos os sexos (56% mulheres, 44% homens) entre os 20 e os 40 anos – a maioria (58%), com idades compreendidas entre os 25 e os 34 anos; 32% com 35 a 40 anos; e 10% com 20 a 24 anos -, residentes em todo o território nacional (principalmente na Grande Lisboa e Litoral Norte), este inquérito avalia as preocupações comuns desta geração face às condições de trabalho actuais e às dificuldades de gerir o tempo e conciliar a carreira com a vida pessoal e familiar.

A centralidade das organizações continuam a ser as pessoas – João Pedro Tavares

De referir que os participantes são, no mínimo, licenciados (72%, enquanto 25% têm um mestrado e 3% um doutoramento) e têm, pelo menos, um ano de experiência profissional (e menos de quatro, caso de 30% da amostra; enquanto 37% têm cinco a dez anos de experiência; e 33% mais de dez). Por outro lado, a maioria (49%) está empregado com contrato sem termo, seguida dos empregados com contrato a termo (22%), e apenas 8% trabalham a recibos verdes, outros 8% são empreendedores/trabalhadores por conta própria, e 7% desempregados. Quanto a sectores de actividade, os Serviços ocupam uns expressivos 47%; enquanto os restantes participantes se dividem entre várias outras áreas, como a Indústria (11%) e os serviços Financeiros (9%).

Com remunerações médias brutas anuais a variar principalmente entre os 10 e os 20 mil euros (43%), menos de 10 mil euros (36%), e entre 20 e 30 mil euros (10%), um total de 12% desta amostra tem alguma outra actividade de onde retira remuneração relevante (superior a 20% do total), para além do seu trabalho principal.

O perfil deste grupo de inquiridos revela ainda que 51% são católicos mas não praticantes; 24% não têm religião; e 17% são católicos praticantes. Quanto à presença nas redes sociais, e como seria de esperar, a larga maioria destes jovens utiliza o Facebook (91%), o Whatsapp (57%) e o Linkedin (57%).


Educação é fundamental para crescimento pessoal

Ter saúde, dinheiro e uma família são as três maiores preocupações da geração entre os 20 e os 40 anos. Como revela o estudo “Jovens e o Mundo Profissional”, e entre uma lista de temas como a realização profissional, a formação e o crescimento intelectual, a preservação do ambiente, a missão no mundo ou a vida espiritual, 77% dos inquiridos preocupam-se, antes de mais nada, com a sua saúde. Um resultado “surpreendente nesta faixa etária”, como comenta Luís Lobo Xavier.

Segue-se, com 70%, a apreensão com a situação económica e a garantia de independência financeira e, em terceiro lugar, com 49%, a preocupação de constituir família e ter filhos. As menores preocupações prendem-se com factores inerentes à vida espiritual/interior (para 29% dos participantes) e à sua missão no mundo (para 28%).

Estritamente no plano profissional, a principal preocupação é o nível de remuneração: 50% elegem este factor. Já 45% ficam apreensivos face à necessidade de conciliar a vida pessoal com o trabalho, e 44% assumem a sua inquietação no que respeita à sua própria capacidade de valorização profissional e de potenciar as suas competências. Conseguir progredir na carreira é outra preocupação comum, em 42% das respostas. Ter que ir trabalhar para o estrangeiro (39%) e ter um curso com poucas saídas profissionais são os temas que menos preocupam este grupo.

Quatro em cada cinco inquiridos no estudo da ACEGE trabalham em algo relacionado com o que estudaram

Quando confrontados com a sua relação com o trabalho e a empresa onde exercem funções, os participantes no estudo da ACEGE afirmam maioritariamente (89%) que têm vida para além da empresa. Também uma larga maioria (82%) diz acreditar nos produtos/serviços que a sua empresa fornece. Um total de 73% está comprometido com a empresa onde trabalha, mas pouco mais de metade (53%) considera que está a ser potenciado nas suas capacidades.

Em média, 50% dos inquiridos trabalham semanalmente entre 20 a 40 horas (período que consideram, na sua maioria, ‘razoável’); 38% trabalham entre 41 a 50 horas (o que para metade dos respondentes está ‘acima do normal’, e para um terço é ‘razoável’) e 5% despendem mesmo mais de 50 horas por semana com o emprego (naturalmente, considerado um horário ‘excessivo’).

Regra geral, não é exigido aos trabalhadores que estejam contactáveis fora do horário de trabalho (só às vezes, para 33% e raramente, para 35%), mas há uma parcela de 14% dos inquiridos que tem de estar disponível quase sempre, incluindo fins-de-semana e férias, e outra, de 6%, que tem mesmo de estar 24 horas em alerta.

Do total de 400 profissionais que constituem a amostra deste estudo, quase ninguém (82%) viajou para o estrangeiro em trabalho, nos últimos 12 meses, principalmente as mulheres, e 14% deslocaram-se uma ou duas vezes, neste contexto.

73% estão comprometidos com a sua empresa, mas só 53% consideram que as suas capacidades são potenciadas

No que concerne a estratégia da organização que integram face às questões do desenvolvimento sustentável e do ambiente, dois em cada três inquiridos afirma que a sua empresa se preocupa ‘muito’ (19%) ou ‘relativamente’ (48%) com a sustentabilidade. Uma minoria de 25% admite que a sua organização está ‘pouco preocupada’ com esta temática.

Já quanto à avaliação que fazem das suas qualificações e da importância da educação e formação que receberam para o desenvolvimento da sua vida e carreira profissional, os participantes neste inquérito defendem, na sua maioria (64%) que este factor é decisivo para o seu trabalho, afirmando que pretendem continuar periodicamente a estudar ao longo da vida; e 23% dizem que foi importante mas não pretendem voltar a estudar.

Já uma esmagadora maioria de 98% acredita que a educação e a formação foram decisivas (57%) ou, pelo menos, importantes (41%) para o seu crescimento enquanto pessoa.

Surpreendentemente, atendendo aos níveis de desemprego jovem dos últimos largos anos, no País, quatro em cada cinco inquiridos presentemente trabalham em algo relacionado com o que estudaram (‘bastante relacionado’, em 50% das respostas; e ‘em parte’, em 30%).

Contudo, apenas cerca de um terço dos inquiridos tomaria exactamente as mesmas opções no seu percurso académico, se pudesse voltar atrás. Outro terço faria ligeiras alterações, e 22% fariam algumas mudanças relevantes. Ainda no capítulo das qualificações, é de sublinhar que 14% dos jovens fez Erasmus ou algum programa de intercâmbio semelhante.


Mais conciliação alarga número de filhos

Em destaque, no estudo que serve de base ao lançamento da comunidade ACEGE Next, estão as relações entre trabalho e família, com a cada vez mais premente conciliação entre a carreira profissional e a vida pessoal e familiar a merecer todas as atenções.

As principais conclusões, neste domínio, ditam que mais de metade (55%) dos inquiridos tem, ou acredita vir a ter, o número de filhos que gostaria. Mas mais de um terço admite o contrário, 17% por razões económicas e 18% por outras razões. Acresce que cerca de 70% dos 400 inquiridos no estudo não tem, ainda, filhos. Como nota João Pedro Tavares, este preocupante número confirma que “o nosso País tem um grave problema de natalidade”.

O stress e razões económicas são os factores que mais impedem os jovens de serem pais

Para Luís Lobo Xavier, estes resultados “não são uma surpresa”, mas o que realmente “impressiona é que um terço destes jovens considera que acompanha pouco os seus filhos”. E, de facto, apenas 5% afirmam acompanhar ‘totalmente’ o seu crescimento, e só 14% despendem ‘muitas vezes’ o tempo necessário com este acompanhamento. E as principais razões para não alargar o núcleo familiar são, como já referido, “o stress laboral e as questões económicas”, sublinha.

Neste contexto, 30% dos participantes afirma que teria mais filhos se a organização onde trabalha tivesse uma melhor política de conciliação família/trabalho, principalmente as mulheres. Para 35%, este factor é indiferente, percentagem que é estatisticamente mais relevante no caso dos homens.

Entre o total de participantes que têm filhos, uma larga maioria de 80% gozou a sua licença de parentalidade na totalidade, contra 20% que afirmam o oposto.

E como considera este segmento populacional a situação da sua geração, comparativamente à geração anterior, quando esta tinha a sua idade? Perante um conjunto de temas alargado, os inquiridos elegem o acesso à educação e valorização pessoal (69%) e a qualificação para as funções profissionais (57%) como os atributos que mais melhoraram; e a carga horária de trabalho/stress (68%), a justiça salarial (62%) e a conciliação do trabalho com a família (61%) como os factores que mais pioraram – estes dois últimos aspectos referidos em maior número pelas mulheres. Da lista de tópicos a comparar com a geração anterior constavam ainda a oportunidade de escolha da profissão, a qualidade do ambiente de trabalho, a capacidade de realização pessoal e profissional, as oportunidades para serem felizes e as oportunidades de progressão na carreira.


A existência de valores no trabalho foi outro domínio auscultado no inquérito, com uma maioria de 78% a afirmar que o mundo profissional dá cada vez menos importância aos valores humanos no mundo empresarial.

Ter capacidade de resolver problemas é a competência que mais pessoas (74%) referem como a característica que melhor as define, seguindo-se o profissionalismo (69%) e a autonomia (59%). Assumir um papel de liderança na organização é a soft skill menos referida (por apenas 23%).

No plano profissional, a principal preocupação desta geração é o nível de remuneração

Ainda em matéria de valores, 41% dos participantes admitem que já foram confrontados profissionalmente com algum dilema ético, relativamente à actuação de um colega ou do chefe. Já 12% afirmam ter tido esse confronto em relação à sua própria actuação profissional, e 44% negam ter experienciado algum dilema ético na sua realidade laboral.

Finalmente, a maioria dos inquiridos expressa grande preocupação com a sustentabilidade, sendo que quase metade (47%) evita consumos excessivos (de água, luz, papel, etc.) e tem preocupações com a mobilidade (por exemplo evitando o uso individual do automóvel).

Quanto à religião, último domínio avaliado no estudo “Jovens e o Mundo Profissional”, apenas 15% dos jovens entre os 20 e os 40 anos afirmam ir à missa com alguma regularidade, mas 23% referem rezar diariamente. Os temas ‘cristãos’ são pouco falados com os colegas de trabalho, e para 17%, é difícil assumir os ideais cristãos no mundo empresarial. No entanto, um em cada quatro participantes considera que, no âmbito do seu trabalho, está a contribuir para a criação de um ambiente mais humano na organização.

O acesso à educação e a qualificação para o trabalho foram as melhorias mais visíveis, comparativamente à geração anterior

Ser-se católico é referido por 86% como não tendo influência para chegar a um cargo directivo numa organização. 12% fazem parte de algum grupo ou comunidade cristã e 18% gostariam que existissem grupos específicos para ajudar a ser cristão no trabalho. Por fim, um em cada cinco inquiridos gostaria que existissem conferências sobre ser cristão no trabalho e de participar numa comunidade online que disponibilizasse textos, pensamentos, reflexões e outras propostas neste sentido.

Bem a propósito, a nova comunidade da ACEGE dirigida a este target quer ser uma voz próxima do perfil destes jovens, capaz de representar os desafios profissionais e familiares que a geração enfrenta. A ACEGE NEXT propõe-se encontrar respostas para as suas inquietações no trabalho, criando precisamente oportunidades para aprofundar o cristianismo no mundo laboral, através de iniciativas como os já existentes Grupos Cristo na Empresa, e gerando dinamismo através de uma comunidade online que transmita uma mensagem activa e inspiradora, no sentido de transformar para melhor o ambiente laboral.

78% afirmam que o mundo profissional dá cada vez menos importância aos valores humanos

Trata-se de ter “a coragem de fazer a diferença”, mote deste seu primeiro Encontro, no qual se partilharam as preocupações comuns desta geração: a desilusão face às condições em que hoje se trabalha e as dificuldades que há em conciliar as carreiras com a vida pessoal e familiar. Como sublinhou Luís Lobo Xavier, na apresentação do estudo que serviu de base de trabalho ao lançamento da ACEGE Next, perante uma “crise de valores no mundo empresarial”, os jovens deparam-se com “exigentes desafios na construção de um projecto”. Há “falta de esperança”, mas também “de ambição”.

Os jovens “sentem-se desaproveitados”, como sublinha, por seu turno, João Pedro Tavares, mas esta é – apenas – “uma meia verdade, pois está nas suas mãos” mudar esta realidade. Tendo sempre presente quer a contenção da cultura do ‘me, myself and I’, diz, quer enfrentando os desafios do trabalho com a política dos três P’s (People, Purpose, Performance), na certeza de que “a centralidade das organizações continuam a ser as pessoas”.

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