A tecnologia mudou o mundo e o mundo das crianças e jovens – que são um em cada três utilizadores de Internet, a nível global – gira em torno da tecnologia. A UNICEF dedica o seu relatório anual de referência, recentemente divulgado, a um olhar abrangente sobre os riscos e oportunidades que a sociedade digital gera no dia-a-dia e nas perspectivas de futuro das novas gerações, e conclui que o seu enorme potencial para a educação e capacitação para o mercado de trabalho choca com os perigos crescentes a que estão expostas online. O choque é ainda maior, quando se trata de avaliar as divisões digitais que deixam para trás milhões de crianças desfavorecidas
POR GABRIELA COSTA

A Internet aproximou-nos daqueles que estão longe e distanciou-nos dos que estão perto” – Rapariga de 16 anos, República Democrática do Congo

Um em cada três utilizadores de Internet em todo o mundo é uma criança ou adolescente. A tecnologia digital afecta quase todos os aspectos da vida de milhões de jovens menores de 18 anos em todo o mundo. Para o bem e para o mal: beneficia o menino que vive com paralisia cerebral e que, interagindo em linha de igualdade com os seus colegas graças à mesma, sente que pela primeira vez as suas aptidões são mais visíveis que as suas incapacidades; ou a rapariga que fugiu com a família da violência no seu país, a Síria, e que recupera o seu futuro num campo de refugiados onde pode ‘ir à escola’ através de um tablet. Mas prejudica, e muito, o rapaz que quase se suicida na sequência do assédio cibernético sistemático a que é sujeito; a menina filipina de apenas oito anos que é obrigada por um vizinho a realizar actos sexuais para um site de pornografia infantil; a adolescente cujas normas familiares e comunitárias restringem o acesso à Internet, ficando por isso impedida de aprender online ou conectar-se com os amigos; e aquela outra cujo ex-namorado criou um perfil nas redes sociais com imagens suas de nudez, depois de a ter forçado a despir-se.

Estas são histórias verídicas que o então director executivo da UNICEF destaca, entre tantas outras, no prefácio do relatório “The State of the World’s Children 2017: Children in a Digital World”. Sublinhando que, “para o bem e para o mal, a tecnologia digital é já uma realidade irreversível nas nossas vidas”, Anthony Lake (substituído este mês por Henrietta Fore) constata, na publicação de referência da agência das Nações Unidas dedicada à infância – que este ano apresenta o primeiro olhar abrangente da UNICEF sobre as diferentes formas como a tecnologia digital está a afectar a vida dos mais novos e as suas perspectivas de futuro -, que “a Internet reflecte e amplifica o melhor e o pior da natureza humana”.

Lançado a 11 de Dezembro, o relatório “Situação Mundial da Infância 2017: as Crianças num Mundo Digital”, que conta com o contributo de crianças e jovens portuguesas, entre muitos outros de dezenas de países, aborda o seu comportamento e os riscos que enfrentam online, identificando perigos e oportunidades. O documento destaca ainda a problemática das disparidades de acesso à Internet, o que representa uma barreira para muitas crianças. E revela que “os governos e o sector privado não acompanharam o ritmo acelerado da mudança, expondo as crianças a novos riscos e, simultaneamente, prejudicando e deixando para trás milhões de crianças mais desfavorecidas”.

Há uma linha que divide o mundo digital

Explorando os debates actuais sobre o impacto da Internet e das redes sociais na segurança e no bem-estar das crianças e jovens, a UNICEF, como não podia deixar de ser, dá prioridade às disparidades no acesso tecnológico, tendo em vista tornar o mundo digital mais acessível a todos, ao mesmo tempo que promove o acesso a conteúdos online mais seguros.

Maria, três anos, brinca com o smartphone do seu pai à porta de casa, num bairro de lata nos subúrbios de Manila, Filipinas © UNICEF/Joshua Estey

Numa publicação que, integrando quatro grandes capítulos que discorrem entre as oportunidades da conectividade, as divisões digitais, a realidade online na infância e juventude e os riscos associados à mesma, culmina num conjunto de recomendações ao nível das prioridades digitais para “aproveitar o bom e limitar o mal”, conclui-se que “apesar da presença massiva das crianças no meio online, muito pouco é feito para as proteger dos perigos do mundo digital e para tornar o seu acesso seguro”. Neste contexto, e como refere Anthony Lake, o duplo desafio da UNICEF é “mitigar os perigos” do mundo digital, “ao mesmo tempo que maximizamos os benefícios do acesso à Internet para todas as crianças”.

E, no que toca aos benefícios que a tecnologia digital pode oferecer às crianças mais desfavorecidas, incluindo as que crescem em situação de pobreza ou são afectadas por emergências humanitárias, é evidente o quanto a mesma permite aumentar o acesso destas crianças à informação, desenvolver competências necessárias ao mercado de trabalho digital e proporcionar-lhes uma plataforma para se conectarem e comunicarem as suas opiniões, conclui a organização.

Mas, para tanto, e como também afirma a agência da ONU, a mesma terá de ser “acessível à escala global”. O que não acontece ainda. O relatório demonstra que cerca de um terço (29%) dos jovens no mundo – 346 milhões – não estão online, o que agrava as desigualdades e reduz a sua capacidade de participação numa economia cada vez mais digital. Os jovens africanos são os menos conectados. Cerca de 60% (3 em cada 5) não estão online, comparativamente a apenas 4% (3 em cada 75) na Europa.

Os governos e o sector privado não acompanharam o ritmo acelerado da mudança, expondo as crianças a novos riscos e prejudicando milhões de crianças desfavorecidas

O fosso digital ultrapassa a questão do acesso. Há crianças que têm telemóveis mas não computadores, e outras que carecem de aptidões digitais ou falam idiomas minoritários (não dominando o inglês), o que prejudica a sua experiência online. Neste último aspecto, a UNICEF revela que aproximadamente 56% de todos os sites têm conteúdos exclusivamente em inglês, pelo que muitas crianças não conseguem encontrar conteúdos que entendam ou que lhes sejam culturalmente relevantes.

Por outro lado, as divisões digitais reflectem os fossos económicos predominantes, beneficiando os meninos de contextos mais ricos e reduzindo as oportunidades dos mais pobres e desfavorecidos. O fosso digital de género é outra realidade ainda problemática. A nível mundial a utilização da Internet em 2017 foi feita por cerca de mais 12% de homens do que de mulheres. Só na Índia, menos de um terço dos utilizadores desta ferramenta são mulheres.

Abdullah, 18 anos, da Costa do Marfim, senta-se numa scooter à porta de um bar convertido em centro de migrantes para conversar com a sua família através de um chat, em Palermo, Itália © UNICEF/Ashley Gilbertson

Na perigosa ‘cultura do dormitório’

A nível global, os dados e análises actuais integrados no relatório da UNICEF sobre o comportamento online das crianças e o impacto que a tecnologia digital tem no seu bem-estar permitem concluir que os jovens (15-24) são, como referido, a faixa etária mais conectada, com uma presença online de 71%, em todo o mundo, em comparação com 48% da população total.

Vários estudos empíricos demonstram que o acesso à Internet se faz em idades cada vez mais jovens. Em alguns países as crianças com menos de 15 anos utilizam tanto a Internet como os adultos com mais de 25 anos. Como lembra Anthony Lake no relatório de referência da UNICEF, “num mundo digital, as suas vozes são cada vez mais importantes, e ouvem-se mais alto do que nunca”. Pois é a nova geração que o irá “configurar” de futuro.

Mas, e como revelam os relatos na primeira pessoa dos muitas crianças e jovens que participaram na publicação “Situação Mundial da Infância 2017”, incluindo portugueses, a Internet torna-as mais vulneráveis a riscos e perigos, graças a fenómenos como o uso indevido das suas informações pessoais, o acesso a conteúdos perniciosos e o ciberbullying. E também devido a comportamentos como o “vício” digital (em jogos electrónicos, por exemplo) e o excessivo tempo de exposição ao ecrã, com reconhecidos efeito prejudiciais no desenvolvimento do cérebro.

Cerca de um terço dos jovens no mundo não estão online, o que agrava as desigualdades e reduz a sua capacidade de participação numa economia cada vez mais digital

Acresce que a presença constante de dispositivos móveis levou ao acesso online menos supervisionado – e potencialmente mais perigoso – por parte de muitas crianças: os dispositivos inteligentes estão a alimentar uma “cultura do dormitório”, e para muitas crianças o acesso online é cada vez mais pessoal, tem um carácter mais privado e, consequentemente, está sujeito a um número acrescido de riscos, como destaca o relatório.

A exploração e o abuso são alguns dos mais graves, com redes digitais como a Deep Web e as criptomoedas (como as Bitcoin) a funcionarem como facilitadores destes fenómenos, incluindo o tráfico e o abuso sexual infantil “feito sob encomenda online”, acusa a UNICEF. Principalmente em cinco países – Canadá, França, Holanda, Rússia e Estados Unidos -, onde estão hospedados mais de 9 em cada 10 URLs relativos a abuso sexual infantil identificados globalmente.

Neste contexto, o estudo identifica um conjunto de recomendações, sistematizadas em seis medidas de acção, para ajudar à criação de políticas mais eficazes e de práticas empresariais mais responsáveis, tendo por princípio basilar o respeito e a protecção das crianças e jovens: proporcionar-lhes acesso a recursos online de qualidade com valor acessível; protegê-las dos perigos online, incluindo do abuso, da exploração, do tráfico, do ciberbullying e da exposição a conteúdos inadequados; proteger a sua privacidade e identidade online; fornecer-lhes ensino de literacia digital para as manter informadas, envolvidas e seguras online; alavancar o poder do sector privado para a promoção de padrões e práticas éticas que as protejam e beneficiem quando estão online; e colocá-las no centro da política digital.

A UNICEF quer alavancar o poder do sector privado para práticas éticas e colocar as crianças no centro da política digital

Na perspectiva do ex-director executivo da UNICEF, estas duas últimas recomendações são fulcrais, porquanto, atendendo a que a tecnologia digital afecta cada vez mais as vidas e o futuro das novas gerações, “as políticas, as práticas e os produtos digitais devem reflectir melhor as necessidades das crianças, as perspectivas das crianças e as vozes das crianças”.

Perante o incontornável mundo novo digital, é preciso considerar que as crianças “são muito permeáveis” e, face à sua influência crescente, “crescem rodeadas de novas oportunidades, mas também de ameaças”. Cabe pois, “aos governos, aos pais e também à sociedade em geral tornar o meio online mais seguro, para que as gerações futuras tirem o melhor partido possível da tecnologia digital”, como defende, por seu turno, Beatriz Imperatori, directora executiva da UNICEF Portugal.

Ou seja, somente através de uma acção colectiva – entre governos, sector privado, organizações, meio académico e famílias – é possível igualar as condições de acesso ao mundo digital e tornar a Internet mais segura para as crianças, conclui a agência das Nações Unidas em “The State of the World’s Children 2017: Children in a Digital World”.


Crianças e Marcelo, juntos por um Portugal digital mais seguro

No âmbito do 71º aniversário da UNICEF, um grupo de crianças foi recebido pelo Presidente da República, a 11 de Dezembro, data que coincidiu com o lançamento do relatório de referência da organização “A Situação Mundial da Infância 2017 – As Crianças num Mundo Digital”.

O documento contou este ano com um contributo de crianças e jovens portuguesas, a respeito da análise do comportamento dos mais novos e dos riscos que enfrentam online, bem como do impacto que a tecnologia digital tem na sua vida, afectando o seu presente e as suas perspectivas de futuro. Tendo por base os perigos e oportunidades que a publicação identifica, assim como o estudo da problemática das disparidades de acesso à Internet, o que representa uma barreira para muitas crianças, a Directora Executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori, entregou a Marcelo Rebelo de Sousa o relatório e respectivas recomendações destinadas aos decisores políticos e demais stakeholders, com o objectivo de tornar o mundo digital mais seguro para as crianças em Portugal.

Na ocasião, as dez crianças e jovens, entre os 8 e os 16 anos, que visitaram o Palácio de Belém deixaram ao Presidente, num gesto simbólico, a Convenção sobre os Direitos da Criança, documento pelo qual se rege o trabalho da UNICEF.


SEM COMENTÁRIOS

Deixar uma resposta