Um estudo da AESE sobre o impacto do excesso de trabalho na saúde mental, que será apresentado em breve, revela que mais de metade dos trabalhadores cumpre uma carga horária preocupante, trabalhando em média 54 horas. Para o psiquiatra e docente Pedro Afonso, orador convidado no último debate da ACEGE, existe em Portugal “uma cultura de um certo presentismo laboral” que, associada às permanentes distracções tecnológicas e ao “trabalho sombra”, põe em risco a partilha familiar e o equilíbrio emocional
POR
GABRIELA COSTA

Os grandes avanços tecnológicos da sociedade contemporânea “prometeram aliviar-nos a carga de trabalho, facilitar uma série de tarefas do dia-a-dia e, supostamente conceder-nos mais tempo para o lazer. Infelizmente não é isso que se está a passar”.

A constatação é do médico psiquiatra Pedro Afonso que defendeu, no Ciclo de Conferências anual da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, que “actualmente vivemos um paradoxo”: ao alargarem “o número de acessos fáceis”, como o homebanking e as compras online, as novas tecnologias “acabaram também por possibilitar que a fronteira entre o trabalho e a vida familiar se esbatesse”.

No almoço debate promovido em Lisboa, a 24 de Novembro, e subordinado à temática “O impacto do excesso de           trabalho na saúde psíquica e na vida familiar”, o Professor Auxiliar de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa e docente no Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa e na AESE – Escola de Direção e Negócios, reflectiu sobre os desafios estratégicos que se colocam às empresas em matéria de Conciliação Família e Trabalho, e as iniciativas que os líderes empresariais podem empreender para lidar com esta realidade.

Dois quintos dos trabalhadores cumprem mais de 48 horas semanais, alerta a OCDE

O conjunto de condições de segurança e de saúde no trabalho está estabelecido na Directiva europeia 2003/88/EC, que estipula que todos os trabalhadores sejam sujeitos a um limite máximo de 48 horas de trabalho semanais (incluindo horas extra).

Nas últimas décadas “foram feitos progressos significativos na regulação dos limites aos horários de trabalho”, e hoje “cerca de metade dos países têm o limite de 40 horas de trabalho semanal”. Contudo, cerca de 22% dos trabalhadores trabalham ainda “mais de 48 horas por semana”, de acordo com os números oficiais de vários estudos da OCDE.

E, em relação a este “limite consensual” que estipula que não se deve trabalhar mais que essas 48 horas semanais, também adoptado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, “na prática, sabemos que ele é violado, começando até pelo próprio Estado, nomeadamente na área da saúde”, onde “é um hábito” que seja ultrapassado, principalmente nos serviços de urgência, diz Pedro Afonso. De referir que um estudo de 2016 da Ordem dos Médicos e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa revela que dois terços dos médicos e enfermeiros em Portugal apresentam sinais de burnout.

O aumento progressivo do horário de trabalho “é uma cultura que tem vindo progressivamente a instalar-se na sociedade portuguesa”, deixando um número crescente de colaboradores desprotegidos pela Lei, com efeitos negativos para a sua saúde, física e mental. Mas para Pedro Afonso, o problema não se resolve alterando a legislação vigente, que já segue as directivas internacionais.

Chefias trabalham mais horas

Pedro Afonso, Psiquiatra e Professor Auxiliar de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa
Pedro Afonso, Psiquiatra e Professor Auxiliar de Psiquiatria da Faculdade de Medicina de Lisboa

O Impacto do excesso de trabalho na saúde física está há muito estudado de forma extensa, associando-se ao mesmo o aumento do risco de doenças cardiovasculares e de hipertensão, diabetes, síndrome metabólico e infecções crónicas.

Mas há poucos estudos deste impacto “a nível de doenças psíquicas”, embora esteja comprovada a sua correlação com sintomas como ansiedade, depressão e insónia. A pensar nisso, a AESE está a realizar um estudo sobre o efeito do excesso de trabalho na saúde mental, que será apresentado em breve. O trabalho avalia o impacto deste fenómeno na qualidade do sono e nos sintomas depressivos e de ansiedade, a partir de um inquérito enviado a mais de dois mil antigos alunos desta escola, ao qual responderam 479 participantes.

Os resultados deste estudo concluem que 53% dos inquiridos estão em excesso de carga horária semanal, trabalhando bem mais do que as 48 horas semanais – em média, trabalham cerca de 54 horas.

Em relação ao número de dias de trabalho por semana, 21% da amostra total (que inclui os que trabalham mais e menos de 48 horas semanais) trabalham seis dias por semana, e 13% trabalham sete dias, sem um só dia de descanso. Ninguém trabalha apenas quatro dias. Portanto “há uma tendência não só para a carga horária aumentar como também para se invadir o fim-de-semana com trabalho”, lamenta Pedro Afonso.

Quando nem o jantar é feito em conjunto, há uma migração de cada um dos membros da família para o seu ecrã privado

A investigação da AESE vem também demonstrar que quem trabalha mais horas nas empresas é quem tem cargos de maior responsabilidade: os cargos de chefia, como CEO e directores de departamento. Ou seja, “o fenómeno transmite-se de cima para baixo”, como comenta o psiquiatra.

Levar trabalho para casa é sintomático desta tendência para dedicar cada vez mais tempo à carreira profissional: 75% dos indivíduos que pertencem ao grupo com excesso de trabalho admitem ‘despachá-lo’ em casa, já depois do horário de trabalho. Atitude que assume também “um valor significativo” entre os que não estão em excesso de trabalho: 54%. Portanto, “aquilo que devia ser uma excepção pelos vistos está-se a tornar numa regra”, conclui Pedro Afonso.

E que repercussões tem essa atitude na qualidade do sono, cujas alterações provocam um impacto negativo na qualidade de vida, reduzem a produtividade, aumentam o risco de acidentes no trabalho, o absentismo e a procura de cuidados de saúde?

Vivemos no paradoxo de ter o homebanking e as compras online a esbater a fronteira entre trabalho e vida familiar

Dorme-se menos quanto mais se trabalha, e as diferenças são significativas no caso de quem trabalha mais de 48 horas. O estudo da AESE indica que o tempo total de sono dos trabalhadores não ultrapassa as 6,7 horas, tenham horário ‘normal’ ou em excesso. Para Pedro Afonso, mesmo no caso das pessoas que dormem em média 7h, já se está “a subtrair uma hora àquilo que necessitaríamos para andarmos bem”.

E evitarmos o que a escala de sono Pittsburgh Sleep Quality Index revela: 66% das pessoas que trabalham mais de 48 horas têm sono perturbado, “como seria de esperar”. Tal como 54% dos profissionais que têm um horário normal.

Trabalho em excesso aumenta ansiedade e depressão

Noutra escala, utilizada para avaliar os sintomas de depressão e de ansiedade, (Hospital Anxiety and Depression Scale), confirma-se que “os indivíduos que trabalham mais têm mais sintomatologia depressiva e de ansiedade”, através de “resultados que são estatisticamente significativos”.

A amostra total do estudo da AESE revela bem a tendência para esta sintomatologia, com 11% dos participantes a responderem que tomaram no último mês medicação antidepressiva, ansiolítica ou indutores do sono. De referir que este resultado “não é suposto, atendendo à idade média da população inquirida: 40 e poucos anos”.

Para o Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, a tendência para dormir cada vez menos horas por dia “é um fenómeno a que temos vindo a assistir nas sociedades ocidentais, nos países mais desenvolvidos, nos últimos anos, e Portugal não é excepção”.

São as chefias, como CEO e directores de departamento, quem trabalha mais horas nas empresas

Os efeitos são visíveis, “porque não é possível habituarmos o nosso organismo a dormir menos”. Se não respeitarmos a necessidade fisiológica do sono, “há consequências para a saúde”, alerta o médico psiquiatra.

Bem como para a vida profissional: “uma baixa médica por pneumonia pode durar só dez dias mas uma baixa médica por depressão geralmente não se resolve ao fim de uma semana ou 15 dias”. O que “origina um período de absentismo muito mais prolongado”, diz Pedro Afonso, concluindo que “as alterações na saúde mental são importantes para as organizações”, pelo que “perante os impactos há muitas medidas” que as empresas podem e devem esforçar-se por desenvolver.

A começar por contribuir para que Portugal deixe de ser (como é!) “o primeiro consumidor per capita de psicofármacos, a nível europeu” e “o país onde se vendem mais antidepressivos e ansiolíticos na Europa”.

O relatório da OCDE   apresentado recentemente em Portugal, “Fit Mind, Fit Job: From Evidence to Practice in Mental  Health and Work”, com dados de 2015, confirma que as doenças psíquicas são cada vez mais frequentes. E adianta que uma em cada duas pessoas vai passar por um período de má saúde mental ao longo da vida; 20% da população em idade activa sofre de uma doença mental a qualquer momento; os indivíduos com doença mental, têm uma taxa de empregabilidade de 15% a 30% mais baixa que as pessoas saudáveis, e a taxa de desemprego é o dobro; cerca de 69% dos trabalhadores com baixa produtividade apresentavam problemas psiquiátricos moderados, e “há muita gente que tem sintomas como ansiedade ou sintomas depressivos” mas “não vai ao médico nem está medicada”, prolongando o risco de cometer erros.

01122016_Oexcesso2
Acessos tecnológicos limitam partilha familiar

“Faça você mesmo, pois isto tem custos para nós”. Pois é, o tempo, “que deveria ser cada vez mais dirigido para o lazer”, escasseia e “o ‘trabalho sombra’ é feito sem nos apercebermos”, afirma o psiquitra. A crescente transferência do trabalho que era feito nas empresas por profissionais, “para nós, consumidores”, é notória em inúmeras actividades, como as reservas de hotéis e viagens, as compras online, as caixas registadoras para clientes nos hipermercados, as bombas de gasolina. O objectivo é “obviamente diminuir custos, contratando menos pessoas”.

Os indivíduos que trabalham mais têm mais sintomatologia depressiva e de ansiedade

Segundo Pedro Afonso, as “muitas horas” que perdemos a fazer essas actividades “desgastam-nos, roubam-nos tempo e energia”, o que “tem consequências”. O facto de termos acesso permanente aos emails e SMS, no smartphone também tem consequências, fazendo com que os horários de trabalho e de lazer se interceptem, através das novas tecnologias. A somar ao que o psiquiatra chama de ‘trabalho sombra’ e às distracções digitais, o elevado número de horas que se passa no local de trabalho e o tempo que se perde nas cidades em deslocações agravam o “muito pouco tempo” que passamos em casa.

Reconhecendo que a Conciliação Família e Trabalho “é uma tarefa que nem sempre é fácil”, o médico garante, para quem tem filhos pequenos, que “casas vazias, crianças desequilibradas”. Quer isto dizer que quando nem filhos nem pais param em casa, os primeiros porque passam muito tempo na escola e em actividades extracurriculares para que os segundos possam continuar a desempenhar a sua vida profissional, o equilíbrio está ameaçado, logo desde os primeiros passos.

E a realidade é que “há muitas famílias hoje em dia que não jantam em conjunto”, o que “é péssimo porque é um momento de partilha, em que cada um fala do que se passou e as crianças aprendem a comunicar com os pais, a criarem cumplicidade”, explica Pedro Afonso, acrescentando: “é o momento em que a família troca informações”.

A reunião familiar ao fim do dia, tão importante também para as crianças, e que muitas vezes é interrompida também pelas novas tecnologias, “acaba por ser severamente prejudicada”. E esta lacuna não se preenche com o argumento do ‘tempo de qualidade’. Para o psiquiatra, a justificação comum de que se passa pouco tempo com os filhos “mas é um tempo de qualidade” não convence, e “não bastam vinte minutos” para “conhecer o que se passa com os filhos e a mulher, ou marido”.

As alterações na saúde mental originam períodos de absentismo nas empresas muito mais prolongados

Sucede que “quando nem o jantar é feito em conjunto, há uma migração individual, de cada um dos membros da família, para o seu ecrã privado: as crianças vão para a consola de jogos ou para o computador, o pai vai para a Internet, a mãe vai ver televisão. Cada um fica como que sequestrado pelo seu ecrã, e perde-se essa capacidade de comunicação que as novas tecnologias, contrariamente ao que prometeram, vieram dificultar”, desabafa o professor de psiquiatria. Um erro frequente que se repete nos restaurantes e zonas de restauração dos shoppings onde o mais provável, se repararmos, é encontrar famílias com crianças agarradas aos tablets, “para estarem sossegadas”, e casais a jantarem cada um agarrado ao seu telemóvel, sem proferir uma palavra, “mais preocupados com as redes sociais do que em aproveitarem o momento para partilhar”.

Não mude de família, mude de emprego

A par de permitir que as tecnologias interrompam constantemente a vida familiar, outros erros frequentes são “esticar o tempo até ao limite” e “estar disponível 24 horas para o trabalho”.

Para Pedro Afonso, “se o trabalho o impede de conciliar com a família, não deve mudar de família, mas de emprego”, como costuma dizer aos seus alunos, na AESE. Esta reflexão “deve ser feita nestes termos”, garantindo que não se permite que a família se destrua, conclui.

Perante a “tal cultura de dificultar esta conciliação, que infelizmente está cada vez mais enraizada entre nós, às vezes é difícil” encontrar o necessário equilíbrio. E pode mesmo requerer que a pessoa planeie a sua saída profissional, nota.

Partilhando um caso verídico de um gestor que trabalhava 11 a 12 horas por dia em Portugal e que foi trabalhar para Inglaterra, para a mesma empresa, com o mesmo horário, tendo sido chamado ao final de uma semana ao gabinete do director, que lhe perguntou se tinha algum problema no casamento ou se estava a passar por um período difícil visto que não aparentava vontade de regressar a casa, Pedro Afonso comenta: “o gestor ficou perplexo e lá explicou que era o horário habitual em Portugal, mas esse comportamento foi interpretado como algo patológico” em Inglaterra. “É curioso isto. E não consta que eles tenham menos produtividade do que nós, pelo contrário”, sublinha.

Portugal é o primeiro consumidor per capita de psicofármacos e o país onde se vendem mais antidepressivos e ansiolíticos, a nível europeu

Na opinião do psiquiatra existe, assim, em Portugal “uma cultura de um certo presentismo laboral” que nem sempre corresponde a produtividade. Até porque a quantidade de tempo consecutivo a trabalhar não se traduz em produtividade na mesma proporção, explica. Na verdade, “o nosso cérebro tem uma capacidade limitada de funcionamento”, e “cansamo-nos”, pelo que devemos fazer pausas.

A esta tendência, soma-se o hábito, “para muita gente”, de “desrespeitar uma certa ética social”, e “telefonar às pessoas à hora da refeição” ou marcar reuniões de trabalho para as 7h da tarde. “Perdeu-se um pouco a noção dos limites, a este respeito”, desabafa Pedro Afonso, para quem “esta tendência acaba por ser a reintrodução de uma nova forma de escravatura”.

A dimensão do alargamento progressivo do horário de trabalho “acabou por gerar um sistema” que o psiquiatra e docente de Psiquiatria considera “esclavagista”, porque “afinal de contas o escravo era aquele que não tinha o direito de formar uma família e que poderia ser separado dos seus familiares para servir um senhor”. O que transportado para os dias actuais, significa que “escravo continua a ser aquele a quem se pode colocar em risco os vínculos familiares, a saúde e a própria vida para servir um objectivo material”.

Na perspectiva de Pedro Afonso, estando as consequências negativas do excesso de trabalho na nossa saúde física e psíquica mais do que comprovadas, o importante é mudarmos a cultura de excesso de trabalho que se tem vindo a instalar no País, “e que acaba por existir também por uma certa coacção inter pares”. Exemplo disso é a pressão exercida sobre os jovens que iniciam a sua carreira “logo a trabalhar 11 a 12 horas” por dia.

Perdeu-se um pouco a noção dos limites e desrespeita-se uma certa ética social, com telefonemas e reuniões tardias

É necessário criar, em alternativa e “de alguma forma”, uma cultura nas empresas “que valorize um compromisso ético de responsabilidade familiar, da mesma forma que aconteceu há algum tempo atrás com a Responsabilidade Social das empresas”, conclui. Porque, como disse o Cardeal Robert Sarah, que veio recentemente a Portugal lançar um livro, “uma sociedade que vê no desenvolvimento material a sua única bússola resvala inevitavelmente para a escravidão e a opressão”.


Uma cultura de gestão que valorize a responsabilidade familiar

Para o psiquiatra Pedro Afonso, há um conjunto de medidas que as empresas podem e devem adoptar, para contrariar a actual e preocupante cultura que promove o excesso de trabalho e o desequilíbrio pessoal e familiar. As soluções, diz, passam por meia dúzia de estratégias empresariais:

. As empresas devem ter um compromisso ético de responsabilidade familiar;

. Devem permitir maior flexibilização de horários;

. Devem possibilitar trabalhar a part-time com dignidade;

. Devem facilitar os horários a quem tem familiares idosos a seu cargo;

. Devem criar protocolos com creches perto do local de trabalho;

. E devem certificar-se como empresa com responsabilidade familiar.

Se estas medidas forem implementadas todos ganham, “porque a produtividade aumenta”, garante Pedro Afonso.