Defendendo que o atraso no pagamento a fornecedores “é um dos principais factores para a falta de competitividade” do País, o presidente da ACEGE alertou, no Encontro que formalizou a adesão da Câmara Municipal de Lisboa ao Compromisso Pagamento Pontual, para uma realidade que, na Europa, é responsável por “um quarto das falências”
POR
GABRIELA COSTA

Defendendo que o atraso no pagamento a fornecedores “é um dos principais factores para a falta de competitividade” do País, o presidente da ACEGE reafirmou, no Encontro promovido em conjunto com a Câmara Municipal de Lisboa, que “tendo-se consciência do impacto” provocado pelo facto de 82,5% de empresas (em Janeiro de 2017, e de acordo com a Informa DB) não cumprirem os prazos estipulados para a liquidação das facturas, estamos perante uma grave “falta de ética”.

Em toda a Europa, esta realidade é responsável por “um quarto das falências”, nota. E o comportamento do sector privado é visivelmente mais positivo que a nível nacional, com 37,5% das empresas a pagar a horas, contra apenas 20,15% em Portugal, em 2015, segundo a mesma fonte. Ainda assim, houve um a evolução no PMP a nível nacional, de 82 dias, em 2010, para 72 dias, em 2016, o que constitui um “dado muito positivo”, sublinha João Pedro Tavares.

A esta evolução não serão alheias iniciativas como o Compromisso Pagamento Pontual, que reúne hoje a participação de quase 970 entidades e que previsivelmente “alcançará em breve as mil”, com a adesão da Câmara Municipal de Viseu e de várias organizações privadas e municipais do distrito, a 27 de Abril.

Tendo-se consciência do impacto provocado por 82,5% das empresas não cumprirem os prazos, estamos perante uma grave falta de ética – João Pedro Tavares, presidente da ACEGE

O impacto dos números na realidade económica e social do País é bem visível, por exemplo, nas grandes empresas (com mais de 250 empregados) que, sendo as mais cumpridoras quanto ao pagamento dentro do prazo estipulado – 6,8%, contra 13,6% nas médias (50 a 249 empregados), 21,1% nas pequenas (10 a 49 empregados) e 24% nas micro (menos de 10 empregados), “são as que mais afectam o fluxo de capital”, comenta o presidente da ACEGE.

Como recorda, o impacto de um atraso de 12 dias calculado por Augusto Mateus nos seus habituais estudos sobre esta matéria traduz-se “numa perda de postos de trabalho muito significativa”, da ordem dos 14 468 empregos destruídos, ao ano, e num efeito médio anual sobre o Valor Acrescentado Bruto de 0,39% do PIB.

Acreditando que “é possível mudar”, João Pedro Tavares recorda o exemplo da Câmara Municipal de Lisboa, cuja melhoria, a este nível, “impacta no PMP nas autarquias”, o qual diminuiu “de forma significativa”, em 69 dias (de 119, em 2012, para 50, em 2015, de acordo com os dados da DGAL e da DGO).

Já a melhoria no sector empresarial (de 80 para 72 dias, no mesmo período) “não é tão impactante” e, contas feitas, “é urgente mudar o ciclo vicioso de pagamentos num ciclo virtuoso, especialmente no Estado Central e no sector da saúde”, alerta o presidente da ACEGE, apelando à adesão ao Compromisso Pagamento Pontual, que visa, “acima de tudo, criar uma comunidade de referência” para combater este problema estruturalmente erosivo para a sociedade.