O Grupo Faria e Irmão, a actuar na fileira do calçado, transforma os valores humanos e ética profissional que privilegia na sua gestão numa liderança pautada pela inclusão social no emprego e pelo compromisso perante as comunidades onde se insere. À conversa com o VER, Acácio Faria Lopes partilha as experiências ‘lucrativas’ de um conjunto de casos reais que espelham a história pessoal e social das suas empresas
POR GABRIELA COSTA

O Grupo Faria e Irmão, com sede em Leiria, está ligado à fileira do calçado desde 1956. Com raízes na primeira empresa de formas de madeira para calçado instalada em Portugal (cerca de vinte anos antes, em 1937), tem empresas nesta cidade mas também em duas zonas de forte implementação de calçado, S. João da Madeira e Felgueiras (filiais que criou na década de 80).

A empresa familiar fundada pelos pais de Acácio Faria Lopes e António José Faria Lopes é gerida por três irmãos desde 1987, altura em que estava “à beira da ruptura” devido à estagnação e falta de produtividade. Então com oito funcionários, a Faria e Irmão passou por um processo de investimento, a nível de equipamento e descentralização, mas também num novo paradigma de gestão participativa e competitiva, baseado numa lógica de partilha ou, como lhe chama Acácio Faria, de ‘amor ao próximo’. Hoje, o grupo emprega 60 funcionários, sendo há mais de 13 anos um dos líderes de mercado no sector, e exportando a esmagadora maioria da sua produção – cerca de 1200 pares/dia – para dezenas de países, na Europa, Ásia, África e América.

Exercendo a sua actividade com respeito pelos valores humanos e ética profissional, o Grupo Faria e Irmão privilegia a inclusão social, nomeadamente no emprego e na formação, a dignidade nas condições de trabalho e o compromisso perante as comunidades onde se insere. Para Acácio Faria Lopes, o sucesso deste negócio deve-se, em boa parte, “ao desempenho de todos os colaboradores”. São as pessoas que “dão força e encanto a este projecto”, acredita.

Acácio Faria Lopes, Sócio-gerente do Grupo Faria e Irmão

Como explica, à conversa com o VER, as suas empresas enfrentam os dilemas e constrangimentos ‘normais’ de todas as outras: “impostos pesados, dificuldade de acesso ao crédito, cobranças difíceis, imparidades”. E confrontam-se com as mesmas decisões difíceis de tomar: “dificuldades de pagar atempadamente aos fornecedores, contrariedades com colaboradores, despedimentos, stress económico e financeiro”. Face a estas complexas questões, Acácio Faria e o seu irmão debatem-se com as dúvidas e hesitações com que qualquer gestor se confronta.

Mas para o também responsável pelo núcleo de Leiria da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), os problemas enfrentam-se com uma liderança que vive e actua segundo as normas da Doutrina Social da Igreja. Liderança essa que “é um activo poderoso na construção de uma empresa lucrativa, sustentável, com preocupações sociais, incluída na nova sociedade do conhecimento e reconhecida pelos seus parceiros” – a exemplo do modelo da Economia de Comunhão, que promove uma cultura económica voltada para a gratuidade e a reciprocidade.

Partilhando a sua experiência no processo dinâmico de liderança empresarial que procura exercer nas empresas do grupo Faria e Irmão, o gestor conta ao VER um conjunto de casos reais que espelham a experiência pessoal e comunitária das suas empresas.

A premissa de “fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem” na gestão diária das empresas, com todos os stakeholders – colaboradores, clientes, fornecedores, concorrentes e demais parceiros – esteve presente na admissão de duas desempregadas, portadoras de deficiência auditiva, o que em muito contribuiu “para a coesão e sensibilidade social entre a comunidade trabalhadora”. Mas também na de uma mãe solteira de 19 anos, abandonada pela família e pela sociedade, e que os colaboradores do Grupo Faria e Irmão ajudaram a integrar; ou na contratação de um jovem a viver em condições de vulnerabilidade social numa família de 12 irmãos que, com a sua “humildade cativante”, estava “sempre disponível para tarefas de última hora”.

O lucro de trabalhar para o bem comum

Os exemplos que provam, como defende Acácio Faria, que “o amor ao próximo nas empresas é lucrativo, factor de bom ambiente e de bem comum” são muitos, e reveladores de que “é possível criar uma boa comunidade trabalhadora produzindo bens transaccionáveis que a todos enriquecem, material e espiritualmente”.

Uma portadora de epilepsia mostrou vontade de trabalhar numa das empresas do grupo. Tratando-se de uma situação de risco, a gerência pediu aos seus futuros colegas que se pronunciassem sobre a sua admissão. Perante o silêncio da resposta, o gestor questionou: “o que fariam se fosse vossa irmã, esposa, filha?”. A colaboradora foi integrada e teve uma recuperação física surpreendente.

Outro funcionário, “talvez o melhor técnico da nossa empresa”, nas palavras de Acácio Faria, entrou em ruptura relacional com os colegas e clientes, acabando por ser objecto de processo disciplinar. Antes ainda teve direito a baixa médica e consultas de psiquiatria mas o tratamento não resultou e, mantendo os comportamentos “desviantes do interesse da empresa”, acabou mesmo por ser despedido. Como explica o empresário, “os interesses da empresa exigem tranquilidade laboral e rigor nos procedimentos, relativamente aos actos praticados”. Mas, simultaneamente à abertura do processo disciplinar, em conformidade com a Lei, Acácio Faria contactou pessoalmente este colaborador, para “resolver o assunto a contendo das partes, e ter em atenção as necessidades financeiras da família”. A qual, constituída por uma esposa desempregada e dois filhos menores, precisava deste salário para responder às necessidades básicas. Após “várias reuniões de horas e centenas de quilómetros” percorridos, o gestor propôs ajuda para encontrar ao funcionário um novo emprego, incluindo na concorrência. A empresa comprometeu-se a mantê-lo em funções e a pagar o seu ordenado até que surgisse o novo emprego, o que aconteceu ao final de um mês. O funcionário conseguiu “melhores perspectivas de carreira”, a empresa “recuperou uma pessoa”, a nem esta nem a família deste técnico ficaram prejudicadas.

O que está em causa é o ‘outro’ e sem este ‘outro’ não há boa economia

Este caso extraordinário não está isolado, na história de vida do Grupo. Nas vésperas de iniciar o seu período de reforma, um outro funcionário viu-se confrontado com o falecimento da sua mulher. Para “suavizar o sofrimento e o peso da separação”, a empresa convidou-o a continuar em funções até que “o equilíbrio emocional estabilizasse”. Este colaborador continua a visitar os colegas com frequência, tal como outro reformado, residente em Itália, mantém o contacto. Em contacto estão ainda vários fornecedores de equipamentos no estrangeiro.

E também os clientes se sentem acolhidos pelo Grupo Faria e Irmão, até quando entram em insolvência. Um deles reconheceu perante a empresa que “se todos os fornecedores tivessem a atitude idêntica à nossa, o desfecho seria outro”, explica Acácio Faria Lopes. Quando o plano de recuperação judicial foi aprovado, “fomos a única empresa que recebeu de imediato e integralmente os seus créditos” (ao contrário de outros credores que estão a recebê-los por um período de oito anos).

Atropelar a lógica da economia

Perante este modo de agir baseado na certeza de que “o amor recíproco é factor de felicidade”, a qual “deve estar presente na actividade económica”, o gestor questiona: “que razões explicam que tantos dos nossos funcionários, em momentos de dor e de carência, nomeadamente doença, nos procurem a pedir colaboração? Ou “fazermos centenas de quilómetros para resolver os seus conflitos?”; “qual a razão pela qual nunca, na nossa história, existiu um colaborador que nos abandonasse, optando por trabalhar na concorrência?”; “o que nos impulsiona a ajudar um concorrente a valorizar a sua empresa, nomeadamente a aumentar a produção?”.

Para Acácio Faria, a resposta a todas estas questões é uma só: “trata-se de opções, decisões, que (sim) atropelam a lógica da economia”, mas que são “sinónimo de que o que está em causa é o ‘outro’, e que sem este ‘outro’ não há boa economia”.

É fácil proceder assim? Não. Muitas vezes, “vacilamos, temos dúvidas, experimentamos o desespero, somos tentados a desistir”. Muitas vezes as dificuldades de relacionamento, entre sócios ou parceiros, podem gerar desânimo, cansaço, “vontade de correr noutras estradas aparentemente mais fáceis”. Mas o modelo que é ‘normal’, para as empresas ‘normais’ é superado, de forma “pacífica e inquestionável”, por Acácio e António José Faria Lopes, sempre prontos a apoiarem incondicionalmente os seus stakeholders.

O reconhecimento é claro e produz frutos: em 2014 Acácio Faria atribuiu um prémio de desempenho a três responsáveis de uma das suas empresas, por terem ultrapassado os objectivos propostos. Um deles rejeitou o montante, alegando que só fez o que devia ter feito, e sugerindo que o mesmo fosse distribuído pelos colegas com salário mais baixo. Assim aconteceu.

Até quando os obstáculos dizem respeito a despedimentos, o caminho da “liderança com o horizonte no bem comum” – porventura o mais difícil, mas aquele que “faz milagres na actividade económica” – deve ser perseguido. Foi o que sucedeu quando, há alguns anos atrás, o Grupo Faria e Irmão foi obrigado a rescindir contrato com três funcionários. Mas não sem manter em segredo, perante família e colegas, a decisão da empresa, e garantir apoio na procura de um novo emprego, mantendo-os em funções até que estivessem empregados, assegurando os seus rendimentos. “Em dois, três meses conseguimos colocação, em melhores condições salariais. Continuamos amigos”, congratula-se o empresário. Outro caso reporta a um colaborador que, em 2013, decidiu despedir-se porque a nova função que lhe fora atribuída não correspondia aos seus interesses. Foi trabalhar para a concorrência mas Acácio Faria manteve as portas da empresa abertas. No primeiro dia no novo emprego, telefonou ao gestor, envergonhado, pedindo o seu lugar de volta: “não senti família”, disse, apresentando-se na empresa do Grupo no dia seguinte.

Com todas estas experiências, Acácio Faria e toda a equipa descobriram que “o amor é um activo precioso e garante vantagem competitiva às empresas”. Trata-se de um ‘modus operandi’ que testemunha que “as alegrias, a felicidade e os milagres superam quaisquer dificuldades”. E que prova que, afinal, este paradigma económico – que gera riqueza e lucro não só para a empresa como para os seus stakeholders – tem lógica empresarial. Ora, é graças ao mesmo que o Grupo Faria e Irmão é líder de mercado na área onde actua, acredita Acácio Faria Lopes. Pois, como disse um dia um seu amigo “o amor, ao ser aplicado na gestão, faz pessoas felizes. Pessoas felizes fazem empresas produtivas”. Estas, por sua vez, geram “uma economia competitiva. E uma economia competitiva é a base de uma sociedade justa”.

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