A propagação de informação falsa consiste, actualmente, em um dos maiores obstáculos para os defensores do interesse público (e não só). Estudos recentes comprovam que o mero facto de se ler uma informação falsa mais do que uma vez faz parecê-la cada vez mais verdadeira. Ou, por outras palavras, comunicar factos sobre as alterações climáticas, a saúde pública ou os direitos humanos, por exemplo, nunca foi tão difícil. Todavia, um mergulho nas ciências sociais, comportamentais e cognitivas sugere várias tácticas que visam combater esta praga de falsidades, as quais devem privilegiar o ataque em detrimento da defesa
© Stanford Social innovation Review
Adaptado por 
HELENA OLIVEIRA

Naquilo que muitos consideram o nosso actual “mundo pós-verdade”, as emoções tendem a prevalecer sobre os factos no que respeita à visão do público sobre políticas e política. Ou seja, a forma como as pessoas pensam sobre questões tão diversas como as alterações climáticas, os OGM (organismos geneticamente modificados) ou o movimento Black Lives Matter reflectem as suas visões prévias do mundo. Como resultado, são criadas câmaras de eco mediáticas [ampliadas pelos media sociais] que reflectem as crenças, os valores e a informação que servem de suporte ao que essas mesmas pessoas acreditam. Consequentemente, tal resulta na disseminação de informação falsa e politizada.

Neste contexto, e como alerta Annie Neimand, especialista em comunicação e a preparar o seu doutoramento em sociologia, criminologia e direito na Universidade da Florida, neste artigo publicado pela Stanford Social Innovation Review, a propagação de informação falsa é um dos maiores obstáculos para os defensores do interesse público. Estudos recentes comprovam que o mero facto de se ler uma informação falsa mais do que uma vez faz parecê-la cada vez mais verdadeira. Ou, por outras palavras, comunicar factos sobre as alterações climáticas, a saúde pública ou os direitos humanos nunca foi tão difícil. Muitos grupos de interesses “especiais” e com amplos recursos têm uma fatia de leão na politização da informação que minimiza ou questiona os efeitos negativos das actividades das respectivas indústrias no que diz respeito à saúde pública e ao bem-estar.

Mas um mergulho nas ciências sociais, comportamentais e cognitivas permite a sugestão de tácticas para combater os esforços destes grupos com interesses especiais. Enquanto directora de investigação da frank, uma organização sedeada na Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade da Florida, a autora deste artigo trabalha numa equipa que agrega e partilha a ciência relacionada com a forma de como as pessoas pensam e tomam decisões para melhorar a comunicação estratégica para o interesse público. E uma dessas tácticas em particular continua a mostrar resultados positivos enquanto forma de minimizar os efeitos da disseminação de falsidades. Os académicos referem-se a esta táctica como “inoculação”.

Tal como as vacinas inoculam (ou protegem) o corpo humano contra doenças infecciosas, as mensagens que alertam as audiências para a informação falsa ou politizada, acoplada a informação que desmascare essas alegações erradas, pode “proteger” as audiências no longo prazo. E, como escreve a autora, “gosto de pensar neste tema como uma estratégia de ataque e não de defesa”.

Em vez de se esperar para defender determinada causa, as pesquisas sugerem que devemos, proactiva ou antecipadamente, combater essa mesma informação falsa e politizada. E é uma boa prática ancorar esta mensagem prévia ao consenso científico. Contrariamente à crença popular, pessoas facciosas ou “partidaristas” tendem a considerar as evidências científicas quando formam as suas crenças políticas e decisões. E “contar” e demonstrar às audiências que os cientistas estão em consonância no que respeita a determinada questão ajuda a cimentar esse apoio.

Por exemplo, o consenso científico de que as alterações climáticas são um resultado da actividade humana tem sido bem demonstrado e estabelecido – apesar dos cépticos do clima negarem muitas vezes este consenso, citando a incerteza no interior da comunidade científica sobre o impacto exacto da actividade humana como razão para minimizar essas mesmas provas.

Sander van der Linden, psicólogo social na Universidade de Cambridge, em conjunto com os seus colegas do denominado Yale Program on Climate Change Communication, conduziu recentemente uma série de experiências para testar a eficácia das mensagens que combatem a informação falsa e que questiona o consenso na ciência climática.

A pesquisa concluiu que dizer às pessoas que existe consenso entre os cientistas no papel desempenhado pela actividade humana nas alterações climáticas foi eficaz em aumentar a crença da população em 20 por cento. A exposição a informação contraditória “enfraqueceu” a crença em nove por cento, mas a “mensagem de inoculação” que precedeu a informação contraditória reforçou a convicção do público no consenso, “protegendo” até dois terços este mesmo consenso científico. Por exemplo, a informação de que “alguns grupos politicamente motivados utilizam tácticas enganadoras para tentar convencer o público de que existe um enorme desacordo entre os cientistas” acabou por ‘proteger’ o apoio do público no que respeita à mensagem de consenso”, escrevem.

Todavia, sublinha Annie Neimand, as evidências e o consenso que apoiam veementemente uma causa não são suficientes. É igualmente importante que os defensores do interesse público, ou os activistas, apostem em histórias digeríveis e envolventes. A verdade é que a maioria das pessoas não se consegue “conectar” apenas com dados e estatísticas. Ao invés, é muito mais provável que as pessoas se envolvam com uma causa quando, em conjunto com as mensagens que alertam para a falsidade da informação, se contem histórias sobre as “causas que estão em causa”. É possível construir empatia, apoio e até acção relativamente a uma determinada causa se forem contadas histórias que transportem a sua audiência para as experiências vividas por aqueles que são afectados por essas mesmas questões. E, para chegar às pessoas que, pelo contrário, se mostram cépticas relativamente aos factos apresentados, é igualmente útil que essas histórias se identifiquem com as mais profundas crenças da respectiva audiência e que sublinhem o impacto local nas suas próprias comunidades.

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Por exemplo, os defensores ou activistas da saúde pública têm, geralmente, que “competir” com indústrias gigantescas e potentes. “Grupos poderosos como as tabaqueiras, os dos refrigerantes e as empresas farmacêuticas ‘ultrapassam’, em termo de ‘orçamento’, os activistas da saúde pública por uma margem considerável”, escrevem os investigadores Jeff Niederdeppe, Kathryn Heley e Colleen L. Barry. “O que potencialmente gera exposições mais frequentes relativamente aos enquadramentos normativos das indústrias, os quais tentam enfatizar a responsabilidade pessoal, a ameaça e excesso de zelo apontados à intrusão por parte dos governos e os benefício dos sectores auto-regulados”.

Niederdeppe e os colegas testaram a eficácia tanto das mensagens de inoculação como as de narrativa que apoiavam as políticas reguladoras governamentais defensoras da restrição de venda de refrigerantes nas escolas, os avisos gráficos existentes nos maços de cigarros e a proibição dos esforços de marketing por parte de médicos para a prescrição de analgésicos.

Enquanto um grupo de participantes foi exposto a mensagens de inoculação, outro lia uma mensagem apoiada numa narrativa contra as bebidas açucaradas, os cigarros ou os analgésicos. As mensagens de inoculação alertavam os leitores para as ameaças destas indústrias e também desmascaravam os argumentos contra a política [governamental] em causa. Por exemplo: “as grandes empresas de refrigerantes gastam todo este dinheiro … porque pensam que as pessoas não conseguem decidir por si mesmas sobre que posição deverá ser tomada sobre políticas que reduzam a obesidade infantil”.

As mensagens apoiadas em narrativas, por outro lado, contavam uma história sobre uma mulher chamada Cíntia e a sua filha. Nas histórias, a filha de Cíntia ou se debatia com excesso de peso como resultado do consumo de refrigerantes, ou fumava ou era viciada em analgésicos. “Em cada história… as lutas de Cíntia eram colocadas em contextos mais alargados (‘muitos pais enfrentam desafios similares’) e descreviam de que forma três políticas específicas poderiam ajudar a abordar o problema. As histórias reconheciam explicitamente a responsabilidade pessoal/parental, mas enfatizavam o papel que as políticas poderiam ter na redução do impacto do marketing na indústria”, escrevem os investigadores.

Os investigadores testaram a eficácia das mensagens de inoculação e das narrativas no imediato e uma semana depois da exposição dos participantes às mesmas. As mensagens apoiadas em narrativas anularam o impacto imediato das mensagens que se opunham a determinada política, mas a sua influência acabaria por diminuir ao longo do tempo. Os participantes que leram as mensagens de inoculação, por seu turno, apresentarem menores probabilidades de serem influenciados pelas mensagens contra as políticas, mas reduziram a sua oposição uma semana mais tarde. Ou seja, os resultados sugerem que uma combinação antecipada de mensagens de narrativa e de inoculação pode ser eficaz na preparação das audiências para resistir a informações falsas ou politizadas.

Outras pesquisas sugerem que as mensagens correctivas que desmascaram as alegações falsas podem reforçar o apoio da opinião científica consensual. Num estudo em particular, a cientista política Letícia Bode e a especialista académica em Comunicação Emily K. Vraga testaram o impacto das mensagens correctivas na percepção sobre a segurança dos organismos geneticamente modificados (OGMs).

As autoras observaram que, e apesar da controvérsia e do aumento de informações falsas em torno dos OGM serem relativamente recentes, os especialistas concordam que os mesmos não originam perigo para a saúde. Primeiro, avaliaram as atitudes dos participantes relativamente a esta temática e depois apresentaram-lhes um feed do Facebook simulado com uma mistura de posts, sendo que um deles partilhava a informação falsa através de uma notícia da imprensa (e intitulada “Os OGMs tornam-no doente”).

De seguida, alguns participantes tiveram acesso a um conjunto de links nas “histórias relacionadas” simuladas, uma secção comum nos posts do Facebook que aparece por baixo de um artigo. Alguns dos participantes leram histórias provenientes da American Medical Association e que desconstruíam a informação falsa, outros leram histórias que a reforçavam a partir do Snopes.com [um site nascido em 1994 para desmistificar os denominados mitos urbanos, mas que é hoje considerado como um importante “fact checker” para as notícias falsas que inundam a Internet] e outros ainda tiveram acesso a uma mistura de ambos ou a histórias não relacionadas.

Os participantes que já acreditavam na segurança dos OGMs não alteraram as suas convicções quando confrontados com a apresentação da informação falsa. Contudo, e para aqueles que tinham ideias incorrectas sobre os mesmos antes da experiência, os links que desconstruíram os OGMs como inseguros reduziram a sua percepção errada.

Numa altura marcada por uma polarização crescente, os activistas e defensores do interesse público devem empregar o que de melhor sabemos existir em termos científicos para desmentir alegações falsas e politizadas. As ciências sociais, cognitivas e comportamentais oferecem um conjunto de ideias e conhecimentos que podem ser usados em esforços de campanhas e de comunicação. Num conjunto múltiplo de disciplinas, as pesquisas sugerem que uma combinação de jogar ao ataque através da comunicação de consenso científico, a partilha de histórias e a inoculação de audiências é uma forma de proteger os factos e os assuntos que realmente mais importam num mundo “pós-verdade”.

Adaptado, com permissão, de “To Win Against False Information, We Must Play Offense

© Stanford Social Innovation Review 2017