São 40 as associações católicas, dos quatro cantos do mundo, que se comprometeram a desinvestir totalmente em combustíveis fósseis, juntando-se a 797 instituições, em 76 países, todas elas signatárias do movimento global de desinvestimento que gere activos no total de 5,5 triliões de dólares. O Desinvestimento tem funcionado como uma forma eficaz de reduzir o poder da indústria dos combustíveis fósseis tanto a nível político como financeiro, sendo que o anúncio feito por este Movimento Climático Católico Global coloca-o no topo do caminho para as energias limpas
POR
HELENA OLIVEIRA

Foi na cidade de Assis, em Itália, no passado dia 4 de Outubro, que o Movimento Climático Católico Global anunciou o maior desinvestimento em combustíveis fósseis feito até à data. Aproveitando o aniversário da morte de Francisco de Assis e a inspiração provocada pela “encíclica ecológica” do Papa Francisco, 40 associações católicas, dos quatro cantos do mundo, comprometeram-se a desinvestir totalmente – apesar de serem necessários alguns anos para que tal ambição seja alcançada – em carvão, petróleo e areias betuminosas – juntando-se ao movimento global para o desinvestimento em combustíveis fósseis que, no seu total e liderado por um grupo de investidores globais, ascende a um valor de 5,5 triliões de dólares.

Pelo significado espiritual que a cidade de Assis tem para os 1,2 mil milhões de católicos existentes no mundo, o anúncio foi feito aproveitando não só esta data simbólica, mas também o denominado Tempo Da Criação, uma iniciativa que teve início a 1 de Setembro (e terminou a 4 de Outubro) e na qual se celebra o ambiente, abraçada por uma vasta comunidade ecuménica.

A mayor da cidade de Assis, Stefania Proietti, juntou-se igualmente a este compromisso, aproveitando igualmente a visita do primeiro-ministro italiano Paolo Gentiloni às festas em honra de S. Francisco de Assis, para anunciar o desinvestimento por parte do governo municipal que lidera. Proietti, uma antiga professora de mitigação climática, afirmou ao The Guardian que “quando estamos atentos ao ambiente, estamos também atentos às pessoas pobres, as quais são as primeiras vítimas das alterações climáticas”. A mayor italiana acrescentou ainda que “quando investimos nos combustíveis fósseis, estamos a percorrer um caminho errante que se distancia da justiça social. Mas quando fazemos este desinvestimento e, ao invés, investimos em energias renováveis e limpas, podemos contribuir para a mitigação das alterações climáticas, criar um novo acordo económico sustentável e, mais importante que tudo, ajudar os pobres”.

Este anúncio agora subscrito por 40 organizações religiosas vem no seguimento de um outro, anunciado em Maio último, quando nove organizações católicas se juntaram a um protesto que antecedeu a reunião de líderes do G7 em Itália, com os seus representantes a afirmarem que foram inspirados a agir depois da mediatizada encíclica ambiental escrita por Francisco, a Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum.

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O Movimento Global de Desinvestimento

O Desinvestimento tem funcionado como uma forma eficaz de reduzir o poder da indústria dos combustíveis fósseis tanto a nível político como financeiro. Os compromissos globais para este desinvestimento integram já 798 instituições, em 76 países, o que representa mais de 5.5 triliões de dólares em activos sob gestão, o que pode – ou deveria – indicar que a indústria fóssil não tem futuro. E, dos signatários, são exactamente as instituições religiosas que representam a percentagem maior de “compromisso”, 27%, face a 20% por parte de fundações filantrópicas, 18% de governos e 15% de instituições educativas.

No que respeita ao comungar, por parte das instituições católicas, dos objectivos deste movimento global, a “história” começou em 2016, na Austrália, pela mão do reverendo e professor australiano, Stephen Pickard, director executivo do Australian Centre for Christianity and Culture que, e antes das eleições que tiveram lugar no seu país, em Julho desse mesmo ano, escreveu uma carta aberta que tinha como mote a catástrofe que se avizinhava para a Grande Barreira de Coral, património mundial da Unesco. A carta aberta incluía a assinatura de outros credos religiosos, como a Federação dos Concelhos Budistas da Austrália, o Concelho Hindu e a diocese anglicana de Canberra, num unir de esforços inter-religiosos em defesa da “casa comum”. Aproveitando o período pré-eleitoral, o reverendo australiano não só acusou os principais partidos de não terem, sequer, nos seus programas, uma proposta para o mitigar das alterações climáticas, como relembrou que o governo da Austrália e poucas semanas depois de o mesmo ter assinado o Acordo de Paris, aprovou um investimento gigantesco para a construção de novas minas de carvão, ligadas a um colossal terminal de exportação do mesmo exactamente na “entrada” da Grande Barreira de Coral.

A hipocrisia dos governantes é explícita na medida em que é amplamente demonstrado o estreito relacionamento entre os representantes políticos e as indústrias de combustíveis fósseis. “O bem comum está a ser sacrificado pelos auto-interesses políticos”, acusava o reverendo australiano, fazendo a distinção entre os “bons” e os maus”. “Temos perante nós a escolha entre nos preocuparmos com o futuro do planeta e das suas pessoas. De um lado, está a sociedade civil, os inovadores em tecnologias de baixo carbono e os investidores socialmente responsáveis, todos eles a trabalhar para a transformação das nossas economias e com vista a proteger os ecossistemas que sustentam a nossa vida”, escrevia. E contrapunha: “do outro lado está a pura inércia, a nossa dependência colectiva relativamente aos combustíveis fósseis e às indústrias que continuam a fazer o que sempre fizeram, independentemente dos custos de longo prazo para as pessoas e para o ambiente. Estas usam a sua riqueza para ganhar influência política e para financiar o cepticismo e o negacionismo climático.

E, citando o Papa Francisco no parágrafo 54 [da sua encíclica], “existem demasiados interesses pessoais e económicos que, facilmente, acabam por perturbar o bem comum e manipular a informação para que os seus próprios planos não sejam afectados”.

Esta carta aberta foi fundamental para aumentar o número de instituições católicas que aderiram ao movimento global de desinvestimento e no seguimento da importância que a primeira encíclica ambiental da história teve não só nos crentes católicos, como em diversos e alargados segmentos da sociedade.

O comportamento vergonhoso dos maiores bancos do mundo

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Em reacção ao anúncio deste número recordista de desinvestimento, que quadruplicou face ao anunciado em Maio de 2017, a anterior secretária executiva da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, Christiana Figueres afirmou: “espero ver um número crescente de líderes a se comprometerem como estas 40 instituições católicas, pois a sua decisão não só faz sentido em termos financeiros, como agir colectivamente para oferecer um futuro para todos é igualmente um imperativo moral”.

Um dos principais apelos que faz parte do anúncio realizado por estas organizações católicas, e que está a unir “adeptos” de todas as partes do mundo, está relacionado com o “pedido urgente” para que o Banco Mundial pare de financiar os combustíveis fósseis e apoie, ao invés, as energias renováveis.

É que, e na verdade, e contrariando os seus próprios compromissos no que respeita às alterações climáticas, em conjunto com os seus esforços declarados para a protecção das florestas, o Banco Mundial continua a financiar, e de forma crescente, projectos de carvão, gás e petróleo e a cortar subsídios para iniciativas que apoiem a construção de infra-estruturas para fábricas geotermais, solares e eólicas, bem como para a protecção florestas vulneráveis, a Amazónia incluída. Num relatório lançado no início de 2017, pelo Bank Information Center, o qual analisa sete grandes operações de investimento do Banco Mundial, entre 2007 e 2016, num total de 5 mil milhões de dólares em quatro países – Indonésia, Peru, Egipto e Moçambique – revela que os fundos que, supostamente, estavam para ser utilizados para estimular um crescimento baseado em baixo carbono foram, ao invés, utilizados para apoiar projectos que colocam o clima, os recursos naturais e os povos indígenas em perigo.

Mas não é só o Banco Mundial a furar as suas boas intenções no que respeita à mitigação das alterações climáticas. Um outro relatório intitulado Banking on Climate Change 2017, e publicado em Junho último, conclui que alguns dos maiores bancos do mundo continuam a conceder empréstimos no valor de dezenas de milhares de milhões de dólares para a extracção intensiva de combustíveis fosseis. Para se ter uma ideia, 37 destas instituições de topo financiaram iniciativas desta natureza no valor de 87 mil milhões de dólares só no ano de 2016. Convém não esquecer que os grandes bancos fizeram questão de gritar bem alto o seu apoio ao Acordo de Paris, sendo que vários anunciaram políticas de apoio ao investimento em energias limpas, como é o caso do Citigroup e do Bank of America. Todavia, e com a posição do presidente dos Estados Unidos face não só ao Acordo de Paris, mas também em relação às próprias alterações climáticas, o cenário no que ao sector da banca diz respeito poderá piorar ainda mais, pois este pode continuar a sentir-se “legitimado” para apoiar projectos sujos em detrimento da aposta na economia de baixo carbono.

Na análise em causa, que classificou o comportamento dos bancos de A (melhor nota) a F (a pior), apenas duas instituições mereceram a nota B – o Credit Agricole de França e o Deutsche Bank – mas a nota que predominou foi mesmo o F. Os que piores comportamento tiveram foram os bancos asiáticos, sendo de destacar o China Construction Bank, Bank of China e o Agricultural Bank of China.

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A rampa de lançamento para uma nova geração de líderes climáticos

O que começou como uma mera campanha em algumas universidades nos Estados Unidos – em 2013, transformou-se num bem-sucedido movimento global que permeia todos os sectores da sociedade. Os compromissos de desinvestimento e as campanhas que alertam para o mesmo têm-se vindo a multiplicar e com expressão em todos os tipos de instituições: desde universidades a fundos de pensões, a organizações religiosas e de saúde, passando pelo sector segurador ou por instituições culturais, aquilo que parecia mais uma campanha de alerta face à necessidade de travar as alterações climáticas, diminuindo as emissões de gases provocados pelos combustíveis fósseis, acabou por se transformar num movimento verdadeiramente global.

A Universidade de Glasgow foi a primeira a anunciar as suas pretensões de desinvestimento, logo seguida por um conjunto de universidades norte-americanas e com o “patrocínio” da Fundação John D Rockefeler: “estamos convencidos de que se ele [o próprio Rockefeller, fundador da Standard Oil Company] fosse vivo, e como um astuto homem de negócios que sempre soube olhar para o futuro, seria o primeiro a abandonar os combustíveis fósseis e a investir em energias limpas e renováveis”, como anunciou o porta-voz Stephen Heintz, ao declarar que os herdeiros de uma das mais famosas dinastias da América – e cuja fortuna foi amealhada exactamente devido aos lucros do petróleo – iriam retirar todos os seus investimentos nestes combustíveis poluentes.

De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Oxford, a campanha pelo desinvestimento cresceu mais rapidamente do que qualquer outro movimento de “desinvestimento” passado, incluindo os que se fizeram na África do Sul contra o apartheid ou contra a indústria do tabaco.

De acordo com o seu mais recente relatório, o terceiro feito até então, denominado Global Fossil Fuel Divestment and Clean Energy Investment Movement Report, apresentado no final do ano de 2015, o movimento em causa duplicou em termos de dimensão em apenas um ano.

De acordo com o relatório – que não tem em conta os últimos dados já anteriormente citados e que incluem o desinvestimento recordista das organizações católicas, novos investimentos em energias limpas, em fundos de pensões ‘zero-carbono’, em acordos que pressupõem investimentos de grande envergadura e coligações de natureza variada estão a “rechear” o sector das energias limpas com capital “fresco” com o objectivo de acelerar a transição para uma economia sustentável e de baixo carbono, ao mesmo tempo que estão a ajudar as comunidades que mais impacto têm sofrido por parte das alterações climáticas.

Dados de 2015 revelam que os investimentos em energias limpas têm tido um crescimento sustentado, atingindo os 329 mil milhões de dólares em 2015, sendo que centenas de instituições e milhares de indivíduos (os quais podem também assinar este compromisso) se comprometerem tanto a desinvestir como a investir em energias limpas e soluções climáticas. E muitas destas instituições estão a usar os seus activos para ajudar a preencher falhas no financiamento do sector privado, tendo como enfoque as populações mais pobres e vulneráveis que, para além de tudo o resto, correm também o sério risco de serem deixadas para trás na transição para novas fontes de energia não poluentes.

Ainda de acordo com o relatório, um dos grandes responsáveis pelo seu crescente sucesso está intimamente relacionado com a convergência da defesa do desinvestimento dos combustíveis fósseis com o significativo activismo em prol das alterações climáticas, o que está a contribuir para um movimento global cada vez mais forte e unificado. Diferentes correntes da defesa climática estão a reforçar-se entre si, estruturando uma vasta narrativa sobre o declínio dos combustíveis fósseis e colocando a indústria sobre uma enorme pressão, tanto ao nível legal, e regulatório como político e cultural.

Adicionalmente, a indústria dos combustíveis fósseis encontra-se “sob investigação” devido a uma negação potencialmente fraudulenta das alterações climáticas e dos riscos que a integram, estando na mira de um conjunto de reportagens de investigação levadas a cabo por organizações não-governamentais e jornalistas. Em conjunto, estas campanhas dão origem a um movimento global, crescente, contínuo e multifacetado, com o desinvestimento nas energias sujas a materializar-se numa robusta rampa de “lançamento” para uma nova gerações de jovens líderes climáticos.

Desta forma, o desinvestimento agora anunciado por parte das 40 organizações católicas só vem reforçar o peso deste movimento global que se comprometeu a lutar contra o “business as usual”, mesmo que o sejam necessários ainda vários anos para que tal aconteça.

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