Importa criar condições para potenciar o papel do microcrédito no apoio às pessoas excluídas pelas dinâmicas da competitividade, e possibilitar que todos tenham direito à cidadania económica. A criação de um pequeno negócio, quando bem concebido e planeado, tem-se revelado uma saída vitoriosa para muitos que, encontrando-se numa situação de impasse face ao mercado de trabalho, tomam o destino nas suas mãos
POR ANTÓNIO MENDES BAPTISTA

Falar de microcrédito não é falar de financiamentos de pequeno montante, mas, antes de mais, acreditar nas pessoas e ter como princípio que as situações de pobreza ou de vulnerabilidade são meras circunstâncias e não definem o potencial das pessoas para contribuírem para o seu desenvolvimento e para o bem comum.

É nesta perspectiva que a Associação Nacional de Direito ao Crédito (ANDC) assume a sua missão de apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade económica ou risco de exclusão na criação do seu próprio emprego, e de promover a transformação dos desempregados que tenham uma ideia válida e vontade de assumir o risco em criadores de emprego. O nosso modo de actuação traduz-se no acompanhamento dessas pessoas no desenvolvimento e na concretização da sua ideia de negócio e na disponibilização, através de uma das instituições financeiras com que a ANDC tem protocolo, do microcrédito para financiar o investimento.

Ao longo de 17 anos, a ANDC apoiou a criação de mais de 2 mil microempresas, que correspondem a outras tantas pessoas para quem a ANDC “fez diferença”. São números que valorizamos, por significativos, mas que nos interpelam e nos colocam o desafio da sua multiplicação. Para tanto, consideramos imprescindível o trabalho em parceria e de proximidade com outras entidades com missões afins, e sublinhamos a importância de uma maior difusão da nossa acção junto das pessoas em situação de vulnerabilidade.

Algumas dessas microempresas são hoje claros casos de sucesso, mas preferimos sublinhar o facto de que toda a pessoa que, a partir de uma situação de desemprego e vulnerabilidade económica, consegue construir uma ideia de negócio e fazer com que outros acreditem nela é, só por isso, um vencedor.

Temos a pretensão de considerar que o papel da ANDC não se mede apenas pelo número de microempresas que ajudámos a criar. Em 2014, procuraram a ANDC mais de 2100 pessoas com as suas ideias para criação do próprio emprego ou de um micro negócio, das quais apenas menos de 10% acabam por vir a tornar-se em projectos concretizados. Mas a todos atendemos, trabalhando na análise das suas condições concretas, e a todos prestamos informação sobre as alternativas que têm ao seu dispor.

Ao longo de 17 anos, a ANDC apoiou a criação de mais de 2 mil microempresas. Só em 2014, a Associação creditou 171 novos micro negócios

Porque o micro empreendedorismo não é solução para todos e porque criar um negócio não pode ser um acto de desespero, pomos muita atenção na análise do perfil do portador do projecto e na avaliação da viabilidade do negócio. Muitas vezes aconselhamos o não prosseguimento, porque, se é dramático estar desempregado, é ainda mais dramático estar nessa situação e com a dívida de um crédito a reembolsar. É também por isso que a ANDC se assume como parceiro dos microempresários que apoia, assegurando o acompanhamento dos projectos até à consolidação do micro negócio.

A ANDC apoiou em 2014 a criação de 171 microempresas, tendo o número mais elevado de projectos sido atingido em 2008, com 223 novoas microempresas. A crise gerou muito desemprego, mas vulnerabilizou ainda mais os desempregados, limitando fortemente a sua disponibilidade e capacidade para o risco de criarem o seu próprio negócio. Estes números poderão não impressionar, mas estamos convictos de que importa criar condições para potenciar o papel do microcrédito no apoio às pessoas excluídas pelas dinâmicas da competitividade, e possibilitar que todos tenham direito à cidadania económica.

A criação de um pequeno negócio, quando bem concebido e planeado, tem-se revelado uma saída vitoriosa para muita gente que, encontrando-se numa situação de impasse face ao mercado de trabalho, tomou o destino nas mãos e deu uma volta à sua vida. É certo que o tecido económico de um país forte não pode ser construído só por pequenos negócios, mas uma sociedade saudável e coesa é constituída por cidadãos activos, que sustentam a sua vida e contribuem para a riqueza nacional. Temos de saudar todos os que se recusam a “ficar a cargo” da sociedade apesar das dinâmicas que empurram um número cada vez maior para o risco de exclusão económica.

A ANDC está a completar 17 anos de actividade. Reclama-se, com orgulho, do seu papel pioneiro na introdução da ideia e dos valores do microcrédito em Portugal. Mas não fez este percurso sozinha: o trabalho desenvolvido é um bom exemplo de parceria tripartida entre uma entidade pública – o IEFP –, uma entidade da economia social – a ANDC- e várias instituições bancárias com quem a Associação celebrou protocolos e que asseguram a concessão do crédito, importando aqui referir que, até hoje, nenhum projecto deixou de ser concretizado por insuficiência das linhas de crédito protocoladas.

Hoje, o microcrédito é um conceito assumido em Portugal e são várias as entidades que procuram promover instrumentos de microfinanciamento e de apoio ao micro empreendedorismo inclusivo. O desafio que a todos se coloca é o de tornarmos o microcrédito num instrumento que responda eficazmente às necessidades das pessoas que querem sair da sua situação de vulnerabilidade económica e social através de um projecto autónomo de concretização do seu direito à iniciativa económica. Felizmente, o diálogo entre estas diversas entidades já começou.