O primeiro evento musical transcontinental que juntou 175 mil pessoas e angariou mais de 150 milhões de dólares para ajudar a combater a grande fome que assolou a Etiópia entre 1983 e 1985 celebrou, a 13 de Julho último, o seu 30º aniversário. Para os que fizeram parte dos mais de mil milhões de pessoas que assistiram a esta maratona televisiva, um reavivar de memória. Para os demais, fica a ideia de como foi possível, sem “novas” tecnologias, envolver uma multidão em prol de uma grande causa
POR
HELENA OLIVEIRA

Em 1985 não existia Internet. Nem email. Nem YouTube. Nem blogs. Nem Facebook ou Twitter. Em 1985 ouvia-se música pela rádio, compravam-se vinis e trocavam-se cassetes. Em 1985 não existiam petições online, os cliques não ajudavam causas e as imagens das maiores atrocidades do mundo não eram partilhadas. Em 1985, via-se televisão e lia-se os jornais. Não existiam campanhas para ajudar quem precisava, não existia a expressão “pobreza extrema” e não se falava em desenvolvimento sustentável.

Em 1985, a população mundial não chegava aos 5 mil milhões de habitantes, as Nações Unidas instituíram o Ano Internacional da Juventude e o primeiro transplante de coração foi feito com sucesso; Mikhail Gorbachev foi eleito secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, cientistas britânicos anunciaram a descoberta do buraco do ozono, o Acordo de Schengen foi assinado entre 5 países-membros da Comunidade Económica Europeia e o ADN foi, pela primeira vez, utilizado numa investigação criminal. Em 1985 a população de África registava um crescimento de 3,2 por cento e, com início em 1983, a fome na Etiópia atingia recordes horrendos.

Um ano antes, no Outono de 1984, a BBC transmitira uma reportagem, filmada num local remoto no norte da Etiópia, a qual mostrara imagens tão impressionantes que iriam ficar na história da televisão e, para sempre, na memória de quem as conseguiu ver. Filmados por um operador de câmara queniano e acompanhados pelo relato emocionado do jornalista Michael Buerk, os horrores da fome acabariam por se tornar virais – mesmo que o termo nada tenha a ver com o que hoje entendemos como tal – e acabaram por ser retransmitidos por 425 estações de televisão em todo o mundo. [Visionar estas imagens continua a ser um acto de coragem e um enorme murro no estômago, principalmente porque, três décadas passadas, a(s) história(s), com contornos mais ou menos similares, continua(m) a repetir-se]

O documentário foi visto pelo músico Bob Geldof e daria origem não só a um novo tipo de angariação de fundos – liderado por celebridades – mas também a um movimento pioneiro e global de apoio a uma causa, de “ajuda a outros”, sem precedentes: o Live Aid.

Da gravação de um single solidário à emissão transcontinental de 16 horas de música

23072015_LiveAid30anosAs imagens de crianças a morrerem de fome num dos locais mais pobres do mundo levaram o vocalista da banda Boomtown Rats, Geldof e Midge Ure (dos Ultravox) a escreverem e a comporem aquela que se tornaria numa das mais célebres músicas de solidariedade de todos os tempos. A 25 de Novembro de 1985 e num tempo recorde, várias estrelas musicais da altura – como os Culture Club, Duran Duran, Phil Collins, U2, Wham e outros – juntaram-se na chamada “Band Aid” e gravaram, no Reino Unido, o single “Do They Know It’s Christmas”, o qual viria a ser lançado a 15 de Dezembro, atingindo rapidamente o topo das tabelas, e cujas vendas reverteriam a favor da fome na Etiópia.

Na medida em que o single subiu também a número 1 em vendas nos Estados Unidos, os músicos norte-americanos resolveram aproveitar o “contágio” e uniram-se também para a gravação do hit “We are the World”, escrito por Michael Jackson e Lionel Ritchie, e juntando várias estrelas pop – e não só – como Harry Belafonte, Bob Dylan, Cyndi Lauper, Paul Simon, Bruce Springsteen, Tina Turner, Stevie Wonder e, é claro Jackson, Ritchie e o próprio Geldof. O single teve um êxito tão ou mais pronunciado do que o seu homólogo inglês, com vendas a atingirem os 44 milhões de dólares.

Na Primavera de 1985, Geldof acompanhou o primeiro envio de donativos ao país africano e, de regresso a Londres, estava determinado a fazer mais. E foi essa determinação que deu origem ao Live Aid, um evento megalómano para a altura e montado em tempo recorde.

A 13 de Julho de 1985, no estádio de Wembley em Londres, o Príncipe Carlos e a Princesa Diana abririam oficialmente o Live Aid. O concerto, “duplo”, com uma extensão nos Estados Unidos, em Filadélfia, no estádio JFK, acabaria por juntar cerca de 175 mil pessoas que aderiram em massa ao apelo de “alimentar o mundo”. A frase “Feed the World” foi utilizada em ambos os palcos em conjunto com outra simbologia que ficaria para sempre ligada à fome na Etiópia e, de uma forma mais geral, ao continente africano.

Com 16 horas ininterruptas de música, e com mais de 70 bandas a pisar os dois palcos, o evento seria transmitido por satélite para mais de 110 países, com uma audiência televisiva superior a mil milhões de pessoas, cerca de um quarto da população na altura. Os números não são certos, mas estima-se que ambos os concertos tenham angariado mais de 150 milhões de dólares para aliviar a fome em África.

O evento que mudou a natureza da angariação de fundos

23072015_LiveAid30anos2Não é preciso fazer uma pesquisa exaustiva na Internet para se encontrar críticas variadas não só à generosidade de Geldof – posta em causa ao longo destes 30 anos – como ao verdadeiro impacto que o Live Aid teve nas vidas dos etíopes. Para muitos, os mais de 150 milhões de dólares alegadamente angariados em nada contribuíram para diminuir a fome naquele que era, na altura, um dos países mais pobres do mundo – e que, curiosamente, é agora uma das economias de mais rápido crescimento em África – e, para os mais acérrimos críticos, até contribuiu para o agravamento da sua situação política e, consequentemente, humanitária.

Mas há que fazer jus ao legado e às marcas que deixou numa geração habituada a viver dentro dos limites do umbigo ocidental e que, pela primeira vez tomou verdadeira consciência que a ajuda massificada – e dedicada a uma causa “externa” – era possível. Pela primeira vez também, e na medida em que o concerto foi transmitido para os quatro cantos do mundo, o continente africano – em conjunto com as suas enormes falências – ganhou um lugar, na opinião pública, que não tinha anteriormente. Tal como recorda a revista Fast Company, a propósito dos 30 anos do Live Aid, o simbolismo africano que ficou retido nos olhos do resto do mundo ficaria para sempre associado a uma silhueta de África recortada num “pescoço” de uma guitarra. E se o evento levantaria, posteriormente, muitas dúvidas no que respeita à eficácia de serem as celebridades a defenderem a ajuda externa a um país longínquo e esquecido pelos líderes mundiais, a verdade é que o mesmo alterou por completo a natureza da angariação de fundos ao introduzir um factor de enorme visibilidade em conjunto com um contributo filantrópico massificado.

Não existem dúvidas de que o Live Aid acabaria por ter uma enorme influência nos movimentos construídos em torno de causas globais. Também devido à sua enorme exposição mediática e com a preciosa ajuda não só dos músicos, mas também de fãs, cidadãos anónimos e das muitas ONGs que já clamavam pela ajuda a África, os governos foram obrigados a repensar as suas políticas de ajuda ao desenvolvimento, a financiar programas que ajudassem a combater a pobreza do continente – em conjunto com muitas outras maleitas, como o contágio descontrolado da Sida ou a malária – e a ter a noção que não era mais possível continuar a ignorar uma situação que, por mais longínqua que estivesse, despertava a revolta e também a vergonha dentro de portas ocidentais.

O Live Aid demonstrou também que a compaixão se pode transformar numa ferramenta poderosa de luta em prol do bem comum. Pioneira foi também a reacção dos cidadãos, que começaram por comprar os singles e, seguidamente, os bilhetes para os concertos. Foi talvez a primeira vez que uma pessoa comum, no meio de tantas outras pessoas comuns, sentiu que poderia fazer a diferença. A verdade é que o chamado terceiro mundo era encarado, na altura, com uma indiferença atroz. As mensagens chocantes que passaram no concerto – em particular, a força da imagem de Birhan Woldu, a menina que seria imortalizada como o “rosto da fome” (v. Caixa) e que personificava a mais dura prova do que estava a acontecer na Etiópia – serviram para “humanizar a desgraça”, para a trazer para mais perto dos “ocidentais comuns” e para pressionar os senhores do planeta a agirem. Se os efeitos foram os pretendidos, não é possível afirmar. Mas que o Live Aid marcou o inicio de algo “maior”, deixando um legado promissor, também não é possível negar.

Trinta anos passaram e “participar” numa causa é tão fácil como fazer um like. Todos, na actualidade, somos bonzinhos por natureza e queremos fazer do mundo um local melhor. Todos partilhamos frases bonitas de Nelson Mandela, do Dalai Lama ou do Papa Francisco. Todos perdemos milésimos de segundo a entristecermo-nos porque, no meio dos nossos feeds de notícias, lá aparece uma massacre do Boko Haram, os olhos de uma criança perdida no meio dos escombros da Síria ou uma qualquer espécie ameaçada num qualquer lugar longínquo. Todos nós deitamos a cabeça na almofada satisfeitos por termos feito a diferença. Todos somos contra a pobreza, a favor da preservação das espécies, apoiamos a luta contra as alterações climáticas e falamos de sustentabilidade como o palavrão da moda. Nunca foi tão fácil fazer a diferença. Mas, e mesmo assim, até que ponto é que contribuímos, realmente, para acabar com a indiferença?


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A história de Birhan Woldu

Birhan Woldu tinha cerca de três anos quando foi filmada prestes a morrer de fome. E, ao contrário de muitas entradas existentes nos motores de busca sobre a sua história, Birhan apareceu não na primeira reportagem feita pela BBC sobre a fome na Etiópia em 1984, mas num outro documentário assinado por Brian Stewart e Tony Burman, que seria exibido pela estação de televisão canadiana CBC uns dias depois.

Se quem conta um conto acrescenta um ponto, a Internet e a história da menina que haveria de ser o ícone do evento Live Aid – e cuja imagem foi repetidamente projectada em ambos os palcos – constituem uma excelente dupla para acrescentar muitos e muitos mais pontos a esta narrativa real. De criticar igualmente – e desta vez com razões de sobra – o aproveitamento que Bob Geldof fez da menina agora adulta para celebrar os 20 anos do Live Aid – no evento Live 8 – em Julho de 2005. Saudável e bonita, Birhan seria abraçada por Madonna e apresentada por Geldof como “ a prova viva de que o Live Aid a salvou [e a muitos etíopes] ” e de como, 20 anos depois, a “tinha descoberto”. Na verdade, não foi assim.

Originária de Tigré, Birhan e a família encetaram uma longa jornada para chegar à capital de província Mek’ele na esperança de encontrarem ajuda sob qualquer forma. E, na verdade, o jornalista Brian Stewart conheceu-a e filmou-a, na altura em que a menina chegava com o pai, Ato Woldu, com não mais do que “10 minutos de vida”, a uma missão católica que fornecia alimentos e primeiros socorros a muitas famílias que ali pediam abrigo. O jornalista viu Birhan e chamou uma enfermeira que, na altura, tinha a árdua tarefa de “escolher” quem teria alguma hipótese de ser ou não salvo. O pai de Birhan tinha já escavado uma sepultura para a filha e, horas depois, os jornalistas voltaram ao mesmo local convencidos que a menina tinha morrido. O que Brian Stewart apelida de um “verdadeiro milagre” – a sobrevivência de Birhan – seria transformado, um ano depois, no “rosto lendário da fome” ostentado no Live Aid.

Durante anos, o repórter, que correu mundo a filmar cenários de fome e de guerra, nunca esqueceu Birhan. De regresso à Etiópia por várias vezes, só quatro anos depois, em 1988 e graças a uma busca que daria também uma boa reportagem, Stewart reencontrou Birhan e o seu pai, os únicos sobreviventes da tragédia que assolou a sua família em 1984, num outro centro de refugiados. A menina tinha agora 7 anos e o jornalista resolveu envolver-se pessoalmente no seu caso, garantindo-lhe educação e apoio local. Mas seria só em 1995 – uma década depois da grande fome – que o repórter reencontraria de novo Birhan e o pai. Através de uma pequena instituição de caridade com sede no Reino Unido, a A-CET (African’s Children Educational Trust), Stewart financiou a sua educação nos anos que se seguiram. Birhan frequentou uma universidade em Mekele, tirou enfermagem, mas actualmente não tem emprego. Continua a ser ajudada pela A-CET, a qual, a trabalhar na Etiópia há décadas, já construiu 10 escolas primárias e é parcialmente financiada pelo Live Aid e por outras ONGs.

Quando foi “encontrada” por Bob Geldof para a celebração dos 20 anos do Live Aid, uma Birhan sorridente e tímida fez as delícias das câmaras. Mas haveria de confessar ao The Guardian que ser a “ face da fome” apenas serviu para complicar a sua vida. E, acrescentou: “para mim, pessoalmente, o Live Aid não fez nada”.