Promover as competências e a participação social dos jovens integrando os seus contextos nas “equações de mudança” é o móbil da “Aventura Social” que há 30 anos, e pela mão da professora catedrática e psicóloga clínica e da saúde Margarida Gaspar de Matos, investiga e intervém na saúde e no comportamento das novas gerações. Numa grande entrevista ao VER, a coordenadora do projecto da Faculdade de Motricidade Humana (que reúne hoje 20 investigadores) defende que dar aos jovens “uma voz poderosa na definição das políticas que lhes dizem respeito” favorece a sua saúde física e mental, “diminuindo riscos, alienação e ‘desengajamento’ social”. E alerta que “as novas problemáticas mundiais” ameaçam “um ressurgimento de estereótipos, preconceitos e discriminação”
POR
GABRIELA COSTA

O projecto Aventura Social, da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) da Universidade de Lisboa (UL), cumpre três décadas de investigação e intervenção na promoção da saúde e do comportamento social dos jovens. No centro da sua ampla acção, está, desde 1987, a Professora Catedrática na FMH/UL Margarida Gaspar de Matos,  psicóloga clínica e da saúde especialista em Psicoterapia, Necessidades Especiais e Psicologia do Desporto, e também investigadora no Centro de Investigação WJCR do ISPA e no ISAMB / Faculdade de Medicina.

Numa grande entrevista ao VER, a coordenadora nacional da equipa Aventura Social, responsável, entre muitos outros estudos e iniciativas, pelo estudo internacional HBSC, da OMS (que avalia os estilos de vida dos adolescentes e os seus comportamentos, em 44 países), pelo projecto Dream Teens (que promove a participação cívica e o empreendedorismo dos jovens em contextos e cenários políticos nas áreas da saúde, bem-estar e cidadania) e pelo Be Positive (que instiga também à participação dos jovens na melhoria do contexto socio-político em que habitam), traça a evolução de um país “pouco focado na ciência e nas vidas das pessoas” onde, apesar das “pequenas revoluções socio-culturais” travadas, as políticas públicas continuam “atrás dos problemas e nunca se sabem antecipar a eles”.

Para Margarida Gaspar de Matos, a “praga da burocracia nacional” é um “fenómeno insólito” que afecta a investigação nacional de uma forma demasiado “familiar para todos os que diariamente se confrontam com esta paralisia administrativa insana”.

A equipa do projecto Aventura Social

Como nasceu, há 30 anos, a aventura de desenvolver um projecto científico dedicado aos comportamentos sociais e à promoção da saúde física e psicológica dos jovens?

Parece ontem, mas a verdade é que foram muitos anos. Depois de passagens profissionais pelo Hospital de Santa Maria, onde trabalhei na área da doença mental, e pelas escolas onde trabalhei no apoio a populações com necessidades especiais, cheguei à Faculdade de Motricidade Humana com esta ideia (que ainda agora mantenho) que a prevenção é a melhor solução, e de que em vez de andarmos sempre atrás de resolver problemas, o melhor seria capacitar as pessoas para desenvolver aptidões que lhes permitissem encontrar alternativas e resolver os seus assuntos. Como dizia o meu mentor, o professor Carlos Caldeira, (tão precocemente falecido), apostar em desenvolver nas pessoas competências para estas serem capazes de “ter a sua vida de volta”.

A negociação de papéis na família, a relação com o corpo, a gestão de conflitos interpessoais, o consumo de substâncias psicotrópicas ou as angústias face ao futuro são temas intemporais

Desde o início da minha carreira me fez sentido esta ideia de trabalhar preventivamente e “pela positiva”. Também desde logo me fez sentido que os contextos sociais (os cenários de vida) são fundamentais, devendo sempre ser incluídos nas “equações de mudança”. Mais recentemente desenvolvi uma ideia, que no fundo também já tinha há muito tempo, sobre as pessoas deverem ser agentes activos e participativos na identificação dos problemas e soluções para melhorar as suas vidas.

Prevenção, desenvolvimento de competências, desenvolvimento positivo e participação social são os eixos–chave desta Aventura (Social).

Como compara as principais problemáticas que afectavam os jovens nessa época (toxicodependência, problemas de comportamento na escola) com as desenvolvidas nas décadas seguintes (obesidade, violência sexual, física e psicológica, cyberbullying), e com as actuais (falta de perspectivas associada ao desemprego jovem, solidão associada às redes sociais, desequilíbrios familiares)?

Há problemáticas que se mantêm e têm a ver sobretudo com o desafio (a aventura) de crescer, sair do âmbito da família e tornar-se adulto… A negociação de papéis na família, a relação com o corpo, a vivência da sexualidade e o enamoramento, a gestão de conflitos interpessoais, o consumo de substâncias psicotrópicas, as angústias face a si, aos outros e ao futuro, são temas intemporais que sempre me acompanharam, quer enquanto era população-alvo (na minha própria adolescência) quer depois como profissional especialista nestas áreas, e ainda como mãe.

Depois há diferenças que são verdadeiros “sinais dos tempos” e que trazem pequenas revoluções socio-culturais. A mais óbvia é o acesso às tecnologias. A Internet e os seus utilitários são, penso, uma das grandes mudanças sociais das últimas décadas.

O trabalho das políticas públicas é algo “amador”, pouco focado na ciência e nas vidas das pessoas

Os portugueses vivem em geral melhor do que há 50 anos, e têm melhor educação e saúde, se bem que com a recessão económica de que estamos a sair, por vezes as pessoas se esqueçam do miserabilismo cultural português de há cinco décadas.

Quando se ouve dizer que “antes” havia cultura e qualidade de vida, deve ler-se “antes” uma minoria de portugueses era culta e tinha qualidade de vida. Esta elite felizmente ampliou-se e está por estabelecer se essa ampliação deu origem a um nivelamento “por baixo”. Muito do que se ouve por aí parecem-me opiniões de quem quer forçar uma ideia, sem evidências cabais.

Fico contente em viver num país onde uma boa vida, boa saúde e boa instrução são agora acessíveis a mais pessoas, para além, é claro, da vivência da democracia. Ouço por vezes teses que carecem completamente de espessura histórica.

Recentemente voltámos a viver uma recessão económica, aliada a alguma insatisfação existencial que molestou novos e menos novos, mas repare-se por exemplo na diferença entre os jovens emigrantes dos anos 60 e os dos últimos anos. Estamos a falar de um (infeliz) período de incerteza e inquietação, mas não de miséria.

Mais recentemente, com as novas problemáticas mundiais, temo bem ver um ressurgimento de estereótipos sociais, preconceitos e discriminação inter-grupal. Talvez seja um revés que nos espera.

Acredita que as políticas públicas desenvolvidas a nível nacional nestas três décadas acompanham as tendências de comportamento dos nossos adolescentes? Ou andam sempre atrás dos problemas?

Pois, realmente eu tenho essa ideia das políticas públicas. Estão sempre atrás dos problemas e nunca se sabem antecipar a eles. Como se vivêssemos constantemente em situação de “apagar fogos”. Políticas públicas vão havendo, sim, mas vão-se instalando e desinstalando sem que sejam óbvias as alterações, e sem que seja óbvia a existência de uma avaliação a partir da qual as alterações ocorrem.

É desgastante motivar investigadores com condições de trabalho sempre precárias e ver jovens com imensa competência terem de sair da equipa porque não há verba

Agora que as acompanho já há uns bons anos, o trabalho parece-me sempre algo “amador”, pouco baseado na ciência e pouco focado nas vidas das pessoas. E sim, andam sempre atrás dos problemas definidos pelas crises, ou por vezes até por acidentes, ou pelos “media”, mas sem nunca conseguir definir planos de acção próprios e alicerçados no que foi feito antes.

Quais são hoje as principais recomendações da OMS para este target? E quais são as suas, no que respeita os jovens portugueses?

Neste momento a OMS foca-se nos “assets”: nos trunfos pessoais e no desenvolvimento de competências; foca-se na participação social por parte das populações e na definição dos problemas e das políticas que lhes dizem respeito. E sublinha as questões de equidade (de género, socio-económica, religiosa, étnica, de orientação sexual).

Produzir a figura do investigador sénior como a pessoa que “angaria verbas” é uma situação perversa

Mas sublinha também os desafios associados a uma sociedade de informação e tecnologia; a definição de fronteiras e a questão dos refugiados de conflitos armados e catástrofes naturais; a situação das mulheres jovens no mundo, os NEET (jovens fora do sistema de educação, formação e emprego); ou a desesperança e a questão da saúde mental.

Para os jovens portugueses, são necessárias competências e motivação para a participação social (versus isolamento) e oportunidades (por parte dos sistemas).

Que balanço faz da extensa intervenção do Aventura Social nas áreas da prevenção de situações de risco (com populações vulneráveis, em escolas, etc.); de prevenção em articulação com as políticas públicas para a infância, a juventude e as suas famílias (caso do Dream Teens); e de promoção da saúde dos jovens, através de inúmeros estudos abrangentes, como o HBSC ou o Kidscreen?

Quando fui trabalhar para a Faculdade, em 1987, tive uma situação híbrida de onde resultaram alguns aspectos positivos e outros menos positivos. Como aspecto menos positivo sublinho o facto de ser psicóloga e ter ido “parar” a uma escola cuja vocação fundamental era a actividade física e o desporto. Este facto dificultou de algum modo o reconhecimento do meu trabalho, que durante muitos anos era o trabalho “de um estranho”, quando quase todos os outros colegas se conheciam há anos e tinham sido alunos, colegas e professores uns dos outros. Foi por isso duro criar um espaço próprio, tanto do ponto de vista pessoal como profissional, e durante estes 30 anos tive períodos verdadeiramente penosos associados a este facto.

Esta recessão económica foi um valente retrocesso para a autonomia e a tradução da investigação num avanço do conhecimento

Por outro lado esta situação desafiou-me a ultrapassar-me, a procurar apoios para a concretização das minhas ideias e sonhos. Talvez não me tivesse esforçado tanto se tivesse tido um ambiente laboral mais aconchegante. Seja por competência, seja por teimosia, a verdade é que a abrangência e a relevância dos projectos de promoção da saúde para crianças e jovens que temos desenvolvido nos últimos 30 anos enche-nos de orgulho, a nós equipa e a mim particularmente.

Em que contexto académico se inseriu, em 1987, o Aventura Social, e como evoluiu a investigação em Portugal, nomeadamente no que concerne a valorização da área da Psicologia?

Em 1987 praticamente não havia investigação. As pessoas ligadas às universidades (algumas) faziam “alguma coisa”.

Tínhamos mais uma cultura do que “se acha”, e o ensino andava ali muito pelas “sebentas”. O acesso à informação era reduzido. Por estranho que pareça às novas gerações houve alturas em que não havia Internet, houve alturas em que não se podia “ googlar”.

Temo bem ver um ressurgimento de estereótipos sociais, preconceitos e discriminação intergrupal. Talvez seja um revés que nos espera

A evolução de Portugal em matéria de investigação foi imensa. O professor Mariano Gago, nomeadamente no seu primeiro mandato, foi um pilar fundamental.

Agora, se as coisas estão mais fáceis do ponto de vista da organização e do reconhecimento da investigação, também é verdade que estão mais complexas no que diz respeito à autonomia e à tradução da investigação num avanço do conhecimento, na melhoria da vida das pessoas e na qualidade de condições de trabalho na área. Esta recessão económica foi um valente retrocesso.

Como se coordena o trabalho de uma equipa de 20 investigadores em articulação com uma rede alargada de organizações públicas e privadas do sector social?

Em Portugal faz-se tudo com muito boa vontade mas com muita dificuldade. A dificuldade não está nas coisas em si, no trabalho e, nas últimas duas décadas, já nem está na formação que temos a nível mundial. A dificuldade tem a ver com motivar e fidelizar investigadores, com as condições de trabalho que eles têm (sempre precárias e a viver “um ano de cada vez”).

Depois as condições para a ciência passaram de não haver condições em termos de recursos humanos, logísticos e financeiros, estáveis e continuadas, por parte de um projecto integrado, a produzir esta figura do investigador sénior como a pessoa que “angaria verbas” para a sua instituição. Esta é uma situação perversa, que faz com que eu, por exemplo, passe grande parte do meu tempo a tentar arranjar verbas para conseguir concretizar o meu próprio trabalho (em vez de me concentrar no trabalho em si). É desgastante!

A escola não pode ‘resolver tudo’ na vida dos jovens e desde há muito sentimos esta necessidade de deslocar para fora dela algum investimento

É também desgastante ver jovens com imensa competência e motivação terem de sair da equipa, basicamente porque não há mais verba para lhes pagar.

Depois há a praga da burocracia nacional. Esta disfunção faz de nós um país realmente “atrasadinho”; sei que há outros assim, “atrasadinhos”, mas é neste que eu vivo… Todas as pessoas que eu conheço se queixam do mesmo: não sei porque não há (porque não há mesmo), passos nacionais que deixem simples as coisas que são simples. Este fenómeno, de tão insólito, é inexplicável para qualquer cidadão que não o tenha vivido, mas é muito familiar para todos os que diariamente se confrontam com esta “paralisia administrativa insana”.

As boas partes são exactamente na mesma área: poder ter ideias, esforçarmo-nos por as concretizar, motivar pessoas, convencer agências, ver crescer investigadores sob o nosso olhar atento. Ser investigador é isso mesmo. É podermos renovar-nos a cada ano que passa… escusava de ser tão difícil, claro!

Recentemente, festejámos os 30 anos do Aventura Social. Fizemos uma apresentação de todos os nossos projectos e respectivos resultados. Foi muito interessante porque convidámos todos os investigadores que “passaram por nós” nestes anos, e fizemos em conjunto uma apresentação: dos Projectos de intervenção com populações vulneráveis, dos Projectos de intervenção preventiva universal; dos Projectos europeus de investigação em redes internacionais; e dos Projectos de colaboração com os CPLP. Foi um momento muito bonito e gratificante!

Concretamente em relação ao projecto Be Positive, em progresso, que impacto esperam obter com esta avaliação do conceito de Positive Youth Development? Que outros projectos e áreas de intervenção projectam implementar no futuro?

O Be Positive vem alinhado na nossa linha de pensamento. Queremos jovens competentes e com uma voz poderosa na definição das políticas que lhes dizem respeito; mas queremos isso porque o consideramos um direito de cidadania, mas também porque a investigação nos diz que este tipo de situação favorece o bem-estar e a saúde física e mental dos jovens, diminuindo comportamentos associados ao risco ou/e à alienação e ‘desengajamento’ social.

Em Janeiro de 2018 vamos fazer a sexta série do estudo HBSC, de uma rede europeia ligada a OMS e onde participamos desde 1996.

Esta questão do bem-estar, da cidadania activa e da participação social vão estar no foco do nossa atenção, bem como a questão das expectativas face ao futuro e aos seus desafios.

Ao longo da sua carreira privilegiou sempre a investigação académica associada à intervenção comunitária. Como vê o actual sistema de ensino em Portugal?

A escola não pode “resolver tudo” na vida dos jovens e desde há muito sentimos esta necessidade de deslocar para “fora da escola” algum investimento (centros de jovens na comunidade; juntas de freguesia, clubes desportivos e culturais, etc.)

Mas a escola não podendo “resolver tudo” tem todavia que resolver algumas coisas. Uma das coisas que ressaltou do nosso estudo HBSC de 2014 foi o afastamento dos jovens portugueses da escola, e o modo como eles são críticos em relação às matérias (o seu carácter obsoleto, pouco relevante e de extensão desmesurada), em relação à alimentação na escola (que caracterizam em termos muito negativos) e mesmo em relação ao que percebem como o excesso de pressão dos pais pelas notas.

A extinção das áreas curriculares não disciplinares foi um (infeliz) exemplo de teimosia governamental

A importância da escola como espaço de aprendizagem e de socialização não teve o olhar atento que merecia, nomeadamente nos anos da recessão onde, tal como já referi, algumas alterações se foram fazendo, sem avaliação do que se fazia, sem se olhar para os efeitos colaterais…. A extinção das áreas curriculares não disciplinares foi quanto a mim um (infeliz) exemplo de teimosia governamental que inverteu um percurso de desenvolvimento positivo na área da educação, que, aliás, já vinha de vários governos anteriores.

Nesse contexto, como vê a inclusão da nova disciplina “cidadania e desenvolvimento sustentável” ao nível do 2º e 3º ciclos das áreas de ciências sociais e humanas?

Estou de acordo e até saúdo essa medida, que aguardo com expectativa. Viria recuperar a questão dos espaços de saúde/ desenvolvimento/bem-estar, extintas há anos! A minha dúvida é se a medida vai sair e enraizar-se ou se se vai diluir…

Que leitura faz do projecto do Ministério da Educação para a flexibilização curricular, que atribui maior autonomia às escolas? E das dez competências incluídas no Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória?

Este governo apanhou logo à entrada não um diagnóstico mas “uma autopsia” para fazer… apanhou uma classe docente desmoralizada, alunos desmotivados, sem expectativas no futuro e sem confiança neles.

Um dos capítulos do relatório “ O Estado da Nação” do CNE, que se baseou parcialmente nos dados do nosso estudo HBSC de 2014, mostrou isto com clareza. E nós, num conjunto de visitas a escolas portuguesas no âmbito de um dos projectos de avaliação que realizámos em 2012, ouvimos os professores realçar a “desconsideração” de que se sentiam alvo por parte do Ministério, o seu burn-out e a sensação de “falta de relevância” da sua actividade. O modo como “as coisas” se iam concretizando “no papel” não correspondia a verdadeiras mudanças da cultura das escolas.

A relevância da flexibilização curricular parece evidente a todos. Mas eu fico prudentemente à espera…

A relevância da flexibilização curricular parece evidente a todos. Devolver aos professores a sua confiança em si e na relevância da sua acção educativa parece básico… Mas eu fico prudentemente à espera, para ver como vai o processo ser concretizado; e como vai ser acompanhado e avaliado.

Vai ser uma medida de “revitalização” da cultura escolar? Ou uma mera operação de cosmética? Ou (pior) será que vai ser uma operação “chumbada” à partida pela paralisia da carga burocrática associada (por cada flexibilização proposta será necessário centenas de horas a preencher papéis?)

Em geral, o “tempo político” não é o “tempo das coisas” e, assim, “as coisas” raramente se tornam numa mudança cultural… será desta?

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