Estão abertas as candidaturas à 5ª edição do FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, iniciativa do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano que procura “uma mudança de paradigma” na forma como se encara a diáspora portuguesa, no actual mundo globalizado. O VER conversou com as equipas dos três projectos vencedores em 2015, para saber como vão os negócios sociais destes empreendedores portugueses “espalhados pelo mundo”
POR GABRIELA COSTA

“Lá se pensam, cá se fazem”

Estão abertas, até ao próximo dia 29 de Fevereiro, as candidaturas à nova edição dos dois concursos do FAZ – Empreendedorismo Inovador na Diáspora Portuguesa, iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, em parceria com a COTEC Portugal, que pretende reaproximar esta rede de cidadãos portugueses e luso-descendentes do seu país: o IOP – Ideias de Origem Portuguesa e o Prémio Empreendedorismo Inovador na Diáspora Portuguesa.

Este prémio distingue cidadãos portugueses residentes no estrangeiro que constituam “exemplos de integração efectiva” e de “estímulo à cooperação” entre Portugal e os países de acolhimento, através do seu papel empreendedor e inovador nessas economias.

Já o programa FAZ – Ideias de Origem Portuguesa (IOP) procura “uma mudança de paradigma” na forma como se encara a diáspora portuguesa, no actual mundo globalizado, onde “já não há o cá e o lá”. O que há “são 15 milhões de portugueses com uma cultura e identidade próprias e uma ligação forte a Portugal”, dos quais cerca de 5 milhões “estão espalhados pelo mundo” e “representam um activo incalculável para o nosso país, em termos de conhecimento, de rede, e de oportunidades de inovação”.

Lançado em 2010, o FAZ-IOP é um movimento “catalisador dessas oportunidades”, identificando, dinamizando e financiando a implementação de ideias com impacto social para Portugal geradas pela diáspora, nas áreas do ambiente e sustentabilidade, inclusão social, diálogo intercultural e envelhecimento.

Ao período de candidaturas desta 5ª edição, em curso desde Novembro, segue-se a fase de pré-selecção das ideias finalistas – apresentadas por equipas de três pessoas que incluam pelo menos um português ou luso-descendente residente no estrangeiro -, as quais serão anunciadas até ao dia 17 de Abril.

Entrega do prémio ao projecto vencedor do FAZ-IOP 2015, “Território Criativo”
Entrega do prémio ao projecto vencedor do FAZ-IOP 2015, “Território Criativo”

Os vencedores serão conhecidos a 10 de Junho, no âmbito das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, numa cerimónia que conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República. As três candidaturas seleccionadas serão financiadas com um total de 50 mil euros (25 mil, 15 mil e 10 mil euros, respectivamente) pela Gulbenkian, com vista à implementação dos projectos no terreno.

Apostar num “Território (rural) Criativo”

A edição de 2015 do FAZ-IOP reuniu 54 projectos (envolvendo cerca de 200 participantes de 28 países), entre os quais foram seleccionados dez finalistas, que receberam acompanhamento e formação em empreendedorismo social através de um bootcamp IES-SBS Powered by INSEAD, antes de o júri do concurso escolher os vencedores. Oito meses depois de terem sido distinguidos, o VER conversou com as equipas dos três projectos, para saber em que fase de implementação estão os seus negócios sociais.

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Instalar rebanhos comunitários em terrenos baldios, aproveitando recursos abandonados ou pouco explorados, é a proposta do projecto Território Criativo, que mereceu o primeiro lugar da 4ª edição das Ideias de Origem Portuguesa do programa FAZ (dando depois origem à associação Território com Vida). O grande objectivo do projecto situado na freguesia rural de Rio Frio, concelho de Arcos de Valdevez, “onde o abandono da pequena agricultura e o envelhecimento da população levou ao avanço das matas sobre as povoações e ao consequente risco de incêndio”, e a falta de ordenamento do território, “principalmente das áreas baldias”, favorece a sua propagação, é “disseminar a prática da silvo-pastorícia devidamente ordenada, como instrumento de prevenção de incêndios em matas e florestas e de gestão da paisagem”.

Em declarações ao VER, a equipa constituída por três amigos naturais desta freguesia (dois a residir em Portugal e um na Suíça) explica que, face às características do terreno, “muito acidentado e de acesso difícil”, a melhor forma de controlar a vegetação é, “como acontecia no passado”, através do pastoreio.

Existem hoje 5 milhões de portugueses espalhados pelo mundo, que representam “um activo incalculável para o País, em termos de conhecimento, de rede, e de oportunidades de inovação”

Preparada a apresentação da ideia ao FAZ-IOP “com um conhecimento razoável da realidade dos meios rurais do País, particularmente dos territórios de montanha”, e numa abordagem com várias perspectivas, “desde os valores ambientais à conservação da biodiversidade, aproveitamento e valorização de recursos genéticos e integração de pessoas carenciadas”, hoje os maiores desafios do Território com Vida são “a alteração de políticas públicas no domínio do ordenamento do território, a instituição de práticas preventivas em detrimento de acções de combate aos fogos e o reconhecimento e justa remuneração dos serviços ao ecossistema para garantia da sustentabilidade do projecto”.

Distinguindo-se pelo foco “na resolução de um problema social negligenciado, numa abordagem preventiva”, e pelo contributo dado na melhoria “da vida de pessoas em risco de exclusão ou com dificuldades de acesso ao mercado de trabalho, criando emprego e riqueza em regiões deprimidas económica e socialmente”, o projecto conseguiu já, com a ajuda do financiamento atribuído pela Gulbenkian, construir um abrigo para os animais, formar pastores e adquirir o primeiro rebanho comunitário na freguesia de Rio Frio, constituído por cem cabras bravias que pastoreiam os terrenos baldios.

Actualmente, a equipa está a trabalhar num programa de apadrinhamento das cabras e de ‘seguidores’ do rebanho (os quais podem dar o seu contributo para a sustentabilidade desta iniciativa, em troca de experiências como uma estadia numa casa rural ou serem pastores por um dia), numa estratégia que visa replicar este modelo de desenvolvimento sustentável a nível nacional.

Na “Teia” da internacionalização portuguesa

TEIA – Transforming Emigration Into Action, um “marketplace online” que junta empreendedores portugueses que querem internacionalizar os seus negócios com emigrantes portugueses estabelecidos profissionalmente no estrangeiro, foi o vencedor do segundo lugar do IOP-FAZ em 2015.

A ideia de criação do projecto surgiu numa colaboração entre três jovens que, durante cerca de um ano foram vizinhos em Santiago, no Chile. Regressado a Portugal em 2014, um deles teve a ideia de candidatar ao concurso da Gulbenkian um projecto relacionado com “o lado bom da emigração”, algo com que todos se identificavam. Daí à constituição desta “equipa ideal” e do nome do projecto, bem revelador de uma transformação positiva, foi um passo – dado “entre emails e conversas no skype”.

Os três projectos vencedores do FAZ-IOP serão conhecidos em Junho, e financiados pela Gulbenkian num total de 50 mil euros

Hoje, a equipa está ciente que “só com o apoio da Gulbenkian e do IES é que tem sido possível passar a TEIA do papel para a realidade”, ou seja, pôr a funcionar uma plataforma online onde “empresas portuguesas que se querem internacionalizar podem encontrar profissionais portugueses que vivem no estrangeiro e que querem manter-se ligados ao tecido empresarial português, apesar da distância a que estão”.

O objectivo é conseguir “juntar as empresas certas com os portugueses certos, contribuindo para o crescimento do País e para a valorização dos portugueses residentes no estrangeiro, que são um dos maiores activos do nosso país”. O grande desafio é, pois, “sermos uma ferramenta útil, tanto para as empresas como para os portugueses no estrangeiro”, sublinham ao VER.

Ganho o concurso, e depois de “três dias intensivos a trabalhar com os formadores do IES, fundamentais para dar forma à TEIA que conhecemos hoje”, a equipa está a aplicar o prémio maioritariamente no desenvolvimento informático da plataforma. Paralelamente, tem investido no estabelecimento de parcerias com entidades que partilham os objectivos do projecto, como o protocolo assinado recentemente com o Alto Comissariado para as Migrações, enquadrado no GARE (Gabinete de Apoio ao Regresso Emigrante), um “apoio fundamental” para investir mais no desenvolvimento da plataforma.

Até ao final deste mês, a TEIA quer ter um protótipo funcional, para durante o mês de Abril lançar a sua primeira versão deste “marketplace online”.

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“Rádio Miúdos” fala e canta em português

Uma rádio online para crianças foi o projecto distinguido com o terceiro lugar na 4ª edição do concurso FAZ-IOP. Falada e cantada em português, para as crianças e famílias portuguesas e luso-descendentes residentes em qualquer parte do mundo, a Rádio Miúdos surgiu para colmatar uma lacuna – não existe qualquer outro projecto do género dirigido ao público infantil na ‘língua de Camões’ -, disponibilizando um conjunto de conteúdos dirigidos aos mais pequenos, mas também aos pais e educadores.

À ideia de uma jovem visionária que trabalha com crianças há duas décadas juntou-se a larga experiência de um profissional de rádio e mais tarde, a vontade de uma residente na Noruega de preservar, entre os filhos pequenos, a língua e cultura portuguesas. E, em alternativa a um projecto com ‘emissão terrestre’, “muito dispendioso”, foi desenhada a ideia de uma webrádio, que por si só abre “possibilidades imensas: não só permite chegar a todo o mundo, inclusivamente aos portugueses e luso-descendentes na diáspora e aos falantes de português” (como os brasileiros e os PALOP), como pôde arrancar com menos recursos, como explica ao VER a equipa.

A radiomiudos.pt iniciou as suas emissões experimentais em Novembro de 2015, já com uma equipa alargada, disponibilizando conteúdos, música, linguagem e informação adaptados ao seu público-alvo, 24h/7dias por semana.

Para além do primeiro objectivo – “dar às crianças que falam português uma rádio sua”, a iniciativa constitui uma ferramenta para que os portugueses e luso-descendentes que vivem fora de Portugal “consigam manter a língua e a cultura portuguesas sempre vivas”, numa “forte ligação às suas raízes”. O projecto alarga-se ainda a associações portuguesas no estrangeiro e a todos os interessados, promovendo a participação de todos.

Uma programação direccionada para as crianças e “futuramente feita também por elas”, acessível em qualquer parte do mundo, a partir do acesso à internet em qualquer dispositivo (tablet, smartphone, computador); a disponibilização da oralidade portuguesa aos emigrantes, que têm nesta rádio “a possibilidade de ouvirem português” sobre todo o tipo de temas, “numa linguagem não infantilizada mas adaptada às crianças”, e através de “muita música portuguesa de todos os géneros” (infantil, pop, rock, fado, música tradicional); e a possibilidade de interacção, na emissão em directo, em entrevistas, participando em passatempos ou desafios ou enviando mensagens, desenhos, gravações, e dicas de informação, por exemplo, são os três elementos distintivos da Rádio Miúdos.

A vontade de torná-la realidade permitiu organizar uma candidatura ao concurso da Gulbenkian a menos de uma semana do final do prazo, até porque já havia “muito trabalho pensado e estruturado” (nos tempos livres), e a forte determinação de que este “era um projecto único, necessário e de grande valor”. Valor que foi reconhecido no bootcamp realizado para os finalistas do FAZ-IOP, pelo “pioneirismo da ideia, a solidez do projecto e a determinação da equipa”. O prémio foi aplicado na aquisição de material de estúdio necessário para o arranque da Rádio e na burocracia associada à implementação do projecto e à realização do site.

Neste momento, para além de um regime de auto dj com música, histórias ou entrevistas, a Rádio Miúdos dispõe de emissão em directo de segunda a sexta-feira , entre as 14h e as 16h, horário que deverá ser alargado. No futuro, os ‘locutores’ que animam a programação e a informação destas emissões online passarão também a ser de palmo e meio – de crianças para crianças.

Resta dizer que, paralelamente ao financiamento que serviu de capital semente à implementação destes três projectos vencedores do FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, todos eles (e os outros sete finalistas) tiveram apoio e acompanhamento durante seis meses, “num compromisso” da Fundação Calouste Gulbenkian em “continuar a apostar nos talentos da comunidade portuguesa no mundo, ligando-a aos desafios e oportunidades da sociedade” por cá, porque, pelo menos no que respeita a ideias inspiradoras, “ já não há [mesmo] o cá e o lá” da diáspora e do País.


Agarrar o fio à meada dos produtos nacionais

04022016_FAZerNa5Em 2014, o projecto Salva a Lã Portuguesa foi um dos três vencedores do FAZ-IOP. Alcançando o segundo lugar da iniciativa da Gulbenkian que promove o empreendedorismo na diáspora, esta é uma genuína Ideia de Origem Portuguesa, já que recupera a lã merino nacional, “considerada como uma das melhores do mundo” no século XVII, altura em que era oferecida pelos reis da Ibéria aos nobres, “por ser muito quente e confortável”. Com o seu valor comercial ameaçado desde o aparecimento das fibras sintéticas industriais, esta lã tem vindo a ser desperdiçada “pelos produtores portugueses após a tosquia das ovelhas, por não ter canais de distribuição”, como divulga a equipa responsável por valorizar a sua preservação e aproveitamento, produzindo fios de diferentes raças autóctones e recuperando técnicas ancestrais de fiação.

O “Salva a Lã Portuguesa” é, pois, um projecto que valoriza este património natural português, através da capacitação dos pastores e donos de rebanhos, recuperação de equipamentos e técnicas e comercialização de uma marca nacional “para um segmento de mercado em crescimento que usa fios de lã para confecção de vestuário”.

Mais de um ano depois de merecer a distinção FAZ-IOP, o projecto apresentou, em Dezembro último, a sua primeira edição do fio. Em declarações ao VER, os responsáveis do Salva a Lã Portuguesa explicam que este prémio, que “serviu para implementar o projecto”, permitiu a conclusão do piloto “nas 3 frentes” previstas pela equipa para “salvar” a lã: divulgação, formação e produção. A equipa participou nas duas últimas edições do Festival GreenFest, no Estoril e na Festa do Outono, em Serralves; deu workshops de fiação da lã através do processo manual, no atelier-sede do projecto, em Lisboa, onde tem as ferramentas e a matéria-prima; e, ao nível da produção, “concluiu o ciclo da lã”, com a compra da lã de pequenos rebanhos a pastores locais, o acompanhamento da transformação da lã em fio e a criação da referida edição do fio, que está agora à venda na loja online do projecto. Para o dia 20 deste mês, está já agendado mais um workshop para fiar lã com a roda.