O projecto Empreender 45-60, da Fundação AEP, identifica os drivers para impulsionar o empreendedorismo sénior a Norte do País, combatendo o desemprego acima dos 45 anos. Numa grande entrevista ao VER, Paulo Nunes de Almeida explica os modelos de actuação deste programa inovador que apoia já dezassete planos de negócio individuais, sublinhando que é fundamental criar um “ecossistema do empreendedorismo” envolvendo as pessoas com 45 ou mais anos, ultrapassando alguns preconceitos da sociedade
POR GABRIELA COSTA

Num contexto socioeconómico ainda marcado de forma expressiva pelo desemprego gerado nos anos da crise financeira, com apenas metade dos portugueses que têm entre 55 e 64 anos empregados, e com Portugal a liderar o ranking dos países mais envelhecidos da União Europeia (na 4ª posição, com 20% da população portuguesa acima dos 65 anos, segundo dados da Pordata relativos a 2014), é premente definir uma estratégia global para o envelhecimento activo, com impactos não apenas sociais mas também económicos.

Para colmatar as graves lacunas que existem na oferta de soluções eficazes para a atenuação do desemprego em faixas etárias superiores a 45 anos, a Fundação AEP lançou em Janeiro de 2016 o Empreender 45-60, um projecto apoiado pelo Portugal 2020, que define uma Estratégia de Apoio ao Empreendedorismo Sénior na Região Norte.

Com um investimento elegível de 583.637,29 euros, financiados em 496.091,70 euros (85%) pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do Norte 2020 – Sistema de Apoio a Acções Colectivas – Promoção do Espírito Empresarial, a iniciativa apoia a criação de auto-emprego e de estratégias de emprego, particularmente entre indivíduos com elevados níveis de qualificação, na região Norte do País, onde se regista uma maior taxa de desemprego qualificado na faixa etária entre os 45 e os 60 anos.

Com o objectivo, já superado, de implementar, até ao final de 2017, dez projectos-piloto de empreendedorismo sénior, o programa dinamizou um conjunto de actividades com vista a potenciar as competências empreendedoras deste target, tendo culminado com o apoio final a dezassete planos de negócio individuais.

É o caso de um estudo de benchmarking internacional que identifica modelos de apoio ao empreendedorismo sénior, recolhendo boas práticas internacionais passíveis de serem adaptadas ao País; um diagnóstico que avalia o estado do desemprego qualificado sénior em Portugal e define uma estratégia de desenvolvimento para o empreendedorismo e o espírito empresarial junto deste público-alvo; várias acções de sensibilização e capacitação, como uma conferência internacional sobre Empreendedorismo Sénior, realizada a 14 de Novembro, que promoveu a partilha de experiências e casos de sucesso, um ciclo de seminários que consciencializou para esta problemática e workshops de capacitação para as vantagens do empreendedorismo intergeracional, em parceria com as Universidades; e o Senior Match Business, um programa piloto de apoio ao empreendedorismo sénior, sustentado num modelo mutualista de geração de ideias e desenvolvimento de negócios inovadores.

Numa grande entrevista ao VER, em destaque nesta edição especial dedicada ao empreendedorismo sénior, o presidente da Fundação AEP, Paulo Nunes de Almeida, sublinha que é preciso criar “um modelo europeu adaptado às necessidades crescentes do empreendedorismo sénior”, num contexto em que os rápidos desenvolvimentos tecnológicos “geram [também cada vez mais] incertezas quanto ao futuro do emprego”, numa sociedade “reconhecidamente” envelhecida.

Qual é o contributo do projecto Empreender 45-60 para a promoção do emprego e do empreendedorismo sénior?

Num contexto mais geral o projecto Empreender 45-60 permitiu identificar e analisar estratégias de emprego implementadas em países pertencentes à União Europeia, direccionadas à população desempregada e qualificada, com idade superior a 45 anos, procurando identificar os principais drivers de sucesso, que poderão encontrar acolhimento nacional, por parte das instituições/organismos potencialmente responsáveis pela sua implementação.

Por outro lado, permitiu avaliar os principais constrangimentos do lado da oferta e da procura que impedem o desenvolvimento de atitudes empreendedoras por parte deste grupo de população, na região Norte, e identificar as condições que favorecem o empreendedorismo sénior, propondo modelos de actuação inovadores que contrariem os factores inibidores de uma atitude empresarial pró-activa, quer nesta ou noutras regiões do país.

É fundamental apostar na criação de uma ’escola de empreendedorismo’ que envolva as pessoas com 45 ou mais anos

De realçar ainda que este projecto promoveu um amplo debate em torno desta temática, pela partilha dos resultados obtidos nas suas diversas fases, e desenvolveu um conjunto de acções de capacitação dos principais agentes ligados ao empreendedorismo, promovendo o networking e a criação de redes de apoio que permitam minimizar os constrangimentos identificados.

Por fim, sustentou a implementação de um projecto-piloto de apoio ao empreendedorismo sénior, com base num modelo de mutualismo de geração de ideias e criação de negócios, associado ainda ao empreendedorismo intergeracional, onde esteve envolvido um número significativo de indivíduos com elevados níveis de qualificação, ao qual foi dada a oportunidade de participar num amplo ciclo de capacitação/actividades, que visou trabalhar desde a identificação da ideia de negócio até à criação da sua própria empresa. Neste âmbito, o programa contemplou um conjunto de actividades, que visou potenciar as suas competências empreendedoras, tendo culminado com o apoio final a dezassete planos de negócio individuais:

  • Grupos de Brainstorming – formados por empreendedores e uma equipa especialista em empreendedorismo, que teve por objectivo a identificação e desenvolvimento das ideias de negócio;
  • Business Plan – desenvolvimento dos planos de negócio das ideias resultantes do ponto anterior, em articulação com especialistas nesta matéria;
  • Capacitação – sessões temáticas em gestão, empreendedorismo, liderança, marketing, comunicação, finanças para não financeiros, apoios ao empreendedorismo e como apresentar um pitch, direccionadas aos empreendedores com vista à melhoria das suas competências profissionais e pessoais;
  • Brokerage – acções de divulgação das ideias de negócio em instituições de ensino superior, estimulando o envolvimento das gerações mais novas, potenciando assim o empreendedorismo intergeracional;
  • Pitch direccionado a entidades financiadoras – apresentação das ideias de negócio pelos empreendedores a potenciais investidores/parceiros, com vista à captação de financiamento para a criação da própria empresa;
  • Mentoringapoio à criação do próprio negócio: acompanhamento técnico e jurídico, aconselhamento especializado aos primeiros passos da empresa e na criação de redes de contactos.

Que balanço faz desta iniciativa no que respeita ao cumprimento dos objectivos propostos face às actividades já desenvolvidas, como o benchmarking internacional e o diagnóstico em Portugal?

Em termos globais os objectivos propostos foram amplamente cumpridos, visto que as actividades da iniciativa Empreender 45-60 foram todas realizadas, envolvendo um número bastante significativo de indivíduos. Mesmo na última actividade do projecto, que se encontra actualmente em curso, até ao final do ano, e que pressupunha a criação de dez planos de negócio, a Fundação AEP encontra-se a acompanhar dezassete empreendedores.

Numa lógica mais abrangente, quer o Estudo de Benchmarking quer o Diagnóstico permitiu identificar modelos europeus de sucesso no apoio ao empreendedorismo sénior, recolhendo boas práticas passíveis de serem adaptadas ao nosso país. Embora se tenha percebido que a própria Europa tem um conjunto de intenções “empreendedoras” que não estão ainda a ser aplicadas na prática, é verdade que tem dado mais atenção ao “empreendedorismo sénior”. Mas também é verdade que ainda há muito por fazer.

Dar resposta às necessidades identificadas pelo Empreender 45-60 é um desafio para Portugal

A criação de um “ecossistema do empreendedorismo” que dê resposta às necessidades identificadas pelo projecto Empreender 45-60 constitui, portanto, um desafio para toda a Europa e para Portugal, em particular.

Há exemplos nos EUA de associações que estão dedicadas a estes assuntos há mais de 50 anos, podendo constituir modelos que inspirem a criação de “um modelo europeu” adaptado às necessidades crescentes do empreendedorismo sénior. O tempo urge, no sentido em que mais desenvolvimentos tecnológicos geram incertezas quanto ao futuro do emprego, numa sociedade – europeia – reconhecidamente mais sénior.

Ressalva-se a necessidade de interconectar todos os actores chave do processo: ligar candidatos a empreendedor com outros empreendedores (jovens e seniores), com mentores (classificados por competência), com entidades de apoio públicas, privadas e empresas, com ferramentas de gestão, financeiras e de networking digital.

Adicionalmente conclui-se que é fundamental apostar na criação de uma “escola de empreendedorismo”, em que as pessoas com 45 ou mais anos estejam envolvidas, ultrapassando alguns preconceitos da sociedade, através de um esforço articulado de reconhecimento do valor destes recursos (experiência e know-how) para a economia do país e da sua promoção por parte de meios de comunicação social e das principais instituições e empresas.

Por outro lado, o Diagnóstico permitiu-nos constatar que o empreendedorismo se centra na identificação de oportunidades e consequente criação de uma nova actividade económica, através da criação de uma nova organização, combinando a inovação, a capacidade de arriscar e a pró-actividade – características estas, muitas vezes consideradas como alicerces de um perfil empreendedor. Neste contexto, foram identificados dois tipos de empreendedorismo, o empreendedorismo por necessidade e o empreendedorismo por oportunidade. O primeiro impulsionado por motivações externas ou factores push e o segundo por motivações internas ou factores pull.

Muito embora haja escassez de estudos relativos ao empreendedorismo sénior, foi possível ainda identificar diferentes tipologias de empreendedores sénior. Podemos então ter os empreendedores relutantes, aqueles que são empurrados para a criação do próprio negócio pelo constrangimento do desemprego; os empreendedores constrangidos, que apresentam uma relativamente elevada tendência empreendedora, mas que, devido a constrangimentos diversos (familiares ou financeiros), não puderam numa fase anterior da sua carreira profissional agir em conformidade com esta apetência; e os empreendedores racionais, que se caracterizam por ser pessoas que vêem no auto-emprego a evolução natural da sua carreira.

O projecto identifica estratégias de emprego implementadas em países da UE que poderão encontrar acolhimento nacional

A idade surge no contexto do empreendedorismo sénior como um factor que lhe é indissociável. Assim, se por um lado a idade mais avançada é sinónimo de mais experiência, mais conhecimento, da detenção de uma rede de contactos profissionais mais desenvolvida, de um nível elevado de competências técnicas e de gestão e, até mesmo de uma posição financeira mais sólida, por outro, também pode significar uma menor propensão para o risco e uma menor sensibilidade para a utilização das novas TI e para a inovação.

Este segmento de desempregados, que evidenciará no futuro uma tendência de crescimento, apresenta uma baixa motivação para a criação do próprio negócio, o que os coloca na posição de potenciais empreendedores relutantes. A intergeracionalidade pode funcionar aqui como um instrumento de estímulo a estes potenciais empreendedores seniores, alavancando as suas potencialidades e mitigando as suas fragilidades.

A concluir, diríamos que é condição sine qua non para a dinamização deste segmento de desempregados, potenciais empreendedores, que as entidades com responsabilidade ao nível da definição e implementação de programas neste domínio trabalhem em conjunto, com vista à identificação e desenvolvimento de mecanismos de intervenção e promoção do empreendedorismo sénior.

De que modo contribuiu a conferência internacional realizada a 14 de Novembro para potenciar a articulação entre os diversos agentes com responsabilidades na implementação de programas de apoio ao empreendedorismo depois dos 45 anos, a partir da reflexão e do debate aí produzidos?

A articulação entre os diversos agentes com responsabilidades na implementação de programas de apoio ao empreendedorismo depois dos 45 anos foi potenciada pela conferência internacional, atendendo ao interesse demonstrado pelos organismos públicos – CCDRN, IAPMEI, POISE e IEFP – nesta temática, aceitando o convite da Fundação AEP e marcando presença na referida iniciativa, onde esteve também presente o Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, José Vieira da Silva.

De realçar que estas mesmas entidades já tinham demonstrado o seu interesse na iniciativa Empreender 45-60, participando sempre que solicitado noutras actividades do projecto, nomeadamente em entrevistas individuais e focus group.

Propomos modelos de actuação que contrariem os factores inibidores de uma atitude empresarial pró-activa

No final da conferência internacional os referidos organismos públicos reconheceram a importância do projecto para o país, ficando em aberto a possibilidade de colaboração futura na prossecução de outras iniciativas destinadas a este público-alvo, alargando-o a outras regiões de Portugal.

Como define o estado da arte do empreendedorismo sénior em Portugal e, concretamente, a Norte?

Relativamente à problemática do desemprego, questão central ao empreendedorismo sénior por necessidade, o foco do nosso estudo, as estatísticas evidenciam que a região Norte apresenta o maior índice de desempregados seniores qualificados e de longa duração no total das cinco regiões do país continental. Contudo, esta problemática estende-se às restantes regiões do país, embora não de forma tão evidente.

Quais são os principais desafios que se colocam ao desenvolvimento do empreendedorismo sénior no País? Tendo em conta as boas práticas já existentes em Portugal nesta área, como comenta as estratégias de apoio ao empreendedorismo depois dos 45 anos em curso?

De todo o trabalho realizado pela Fundação AEP no âmbito do projecto Empreender 45-60 pode-se concluir que o país terá de desenvolver uma estratégia de promoção e de apoio ao empreendedorismo sénior e ao espírito empresarial deste público-alvo.

Como referi, este segmento de desempregados está pouco motivado para a criação do próprio negócio, pelo que a intergeracionalidade pode constituir um instrumento de estímulo a estes empreendedores seniores.

É condição sine qua non para a dinamização deste segmento de desempregados interconectar todos os actores chave do processo de promoção do empreendedorismo sénior

Como também sublinhei, para dinamizar estes potenciais empreendedores é essencial que as entidades responsáveis pelo desenvolvimento de programas de empreendedorismo sénior trabalhem em conjunto. Para tal pressupõe-se a partilha de informação, conhecimento e know how com vista ao alcance de sinergias, que resultem no desenho de projectos multidimensionais com potencial de impacto e efeito multiplicador ao nível económico e social na região Norte.

A possibilidade de criação de um ecossistema empreendedor especializado para este alvo também seria de fomentar, indo ao encontro das necessidades e desejos dos empreendedores mais idosos, e procurando a integração de todas as vertentes necessárias à criação do ecossistema em si, numa perspectiva de promoção da inovação e empreendedorismo no ensino. Nesse sentido, consideramos ser óbvia a necessidade de ligação directa a entidades financiadoras (por exemplo, entidades bancárias e de apoio ao microcrédito e desenvolvimento empresarial) ou plataformas de obtenção de financiamento (crowdfunding; business angels e outros programas de apoio). Seguindo esta linha de pensamento, a criação de uma rede de mentores e coaches é também muito importante, na medida em que a sua experiência irá conduzir, por certo, a uma reflexão por parte dos empreendedores ao nível das acções a desenvolver.

Alicerçada nos resultados e constatações apresentados, propõe-se, para o empreendedorismo sénior, uma estratégia de desenvolvimento do tipo enfoque, centrada na alavancagem das suas forças e na atenuação das suas fraquezas.

A região Norte apresenta o maior índice de desempregados seniores qualificados e de longa duração

Emerge daqui a proposta de criação de uma plataforma, cuja designação se propõe “Empreender 45-60”, construída numa lógica de modelo integrativo, ou seja, aglutinadora de um conjunto de funcionalidades que vão desde a ligação a outras plataformas, de crowdfunding especificamente, a entidades de microcrédito e business angels, até à promoção de casos de sucesso e insucesso e de partilha de experiências (Story Telling).

A integração de todas estas valências numa só plataforma permite a criação de um ecossistema empreendedor direcionado para o alvo do projeto, desempregados com idades compreendidas entre os 45 e os 60 anos, respeitando as suas características, promovendo a superação de eventuais factores desmotivadores ao envolvimento em actividades empreendedoras, na linha das tendências de inovação do ensino e possibilitando a integração da componente inovação na perspectiva dos jovens empreendedores, conciliando-a e explorando as vantagens dos empreendedores seniores.

Na sua opinião, qual é a relevância de promover o empreendedorismo sénior no actual contexto socioeconómico? Que impacto poderá a dinamização deste sector ter na sociedade portuguesa?

No actual contexto socioeconómico, marcado pela precariedade do emprego e por incidência de desemprego na população activa acima dos 45 anos, a promoção do empreendedorismo sénior assume papel estratégico como via de (re)empregabilidade desta população, podendo ser a alavanca de um círculo de emprego, criação de riqueza, bem-estar social e promoção do consumo.

Está em aberto a possibilidade de colaboração futura, alargando o Empreender 45-60 a outras regiões de Portugal

A população normalmente designada por “sénior” reúne tendencialmente um conjunto de características e potencialidades que, sendo muitas vezes negligenciadas pela sociedade em geral, podem assumir papel de relevo no sucesso da criação de novos negócios, pela sua visão crítica, experiente e distanciada face ao sucesso/insucesso dos negócios.

Que tipo de actuação prevê a Fundação AEP realizar nesta área, no futuro?

A Fundação AEP, no âmbito da sua própria missão, propõe-se a desenvolver a “realização, apoio e patrocínio de acções de carácter técnico, promocional, cultural, científico, educativo e formativo que contribuam para o desenvolvimento do empreendedorismo e para a modernização e melhoria de condições na área empresarial” e “a difusão de conhecimentos na área das ciências empresariais, em ordem a apoiar a comunidade, as empresas e os empresários, na resposta aos desafios da sociedade contemporânea”.

Neste contexto continuará a dinamizar, com o apoio dos financiamentos disponíveis no Portugal 2020, projectos na área do Empreendedorismo, na região Norte e no país, onde este tipo de intervenções possa ser estrategicamente interessante.