A “atomização da sociedade” contemporânea, com a “desagregação das estruturas sociais tradicionais” e a orientação desenfreada para os “resultados imediatos”, colocou a humanidade no actual “ponto de ruptura mundial”. A propósito do Ano Internacional do Entendimento Global, Luiz Oosterbeek analisa os grandes desafios que se colocam no século XXI, defendendo “a construção de estratégias locais de gestão cultural integrada do território”
POR GABRIELA COSTA

“É preciso reaprender a investir no futuro”

2016 é o Ano Internacional do Entendimento Global (IYGU, na sigla em inglês), proclamado por três organismos representantes da comunidade científica internacional com vista a promover um melhor entendimento sobre o impacto global das acções locais. O grande objectivo é estimular políticas inovadoras que respondam aos grandes desafios globais, como as migrações ou as alterações climáticas.

Em Portugal, o “Regional Action Centre” do IYGU para a Península Ibérica e o Sudoeste Europeu está sediado no Instituto Terra e Memória (ITM), em Mação, e no Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, sob a coordenação da professora Helena Henriques, da direcção do CGeo.

Numa grande entrevista ao VER, Luiz Oosterbeek, presidente do Instituto Terra e Memória, pró-presidente do Instituto Politécnico de Tomar, membro da direcção do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra, secretário-geral do Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (Unesco, Paris) e membro da Comissão Internacional de Coordenação e do Conselho Científico do Ano Internacional do Entendimento Global (Jena, Alemanha), sublinha, a respeito do IYGU, que “o entendimento global é em primeiro lugar cultural e científico”. Isto é, tem de se basear na compreensão de que a satisfação das necessidades e interesses das pessoas “só pode ser bem servida no quadro de uma convergência global dos comportamentos locais orientados para a sustentabilidade”.

No actual contexto de instabilidade mundial, de algum modo dominado pelo medo e pela incerteza relativamente a questões como o terrorismo, a ameaça nuclear, as alterações climáticas ou os crescentes fluxos de refugiados, entre tantas outras, como caracteriza os principais grandes desafios globais?

© MASTER Dynamics of Cultural Landscapes and heritage Management Luiz Oosterbeek, membro da Comissão Internacional de Coordenação e do Conselho Científico do Ano Internacional do Entendimento Global
© MASTER Dynamics of Cultural Landscapes and heritage Management
Luiz Oosterbeek, membro da Comissão Internacional de Coordenação e do Conselho Científico do Ano Internacional do Entendimento Global

É indiscutível que o mundo vive um processo de profundas transformações, nos domínios da cultura, da sociedade, da economia, da comunicação ou do ambiente. É indiscutível também, porém talvez menos evidente para grande parte das pessoas, que o processo de aceleração dessas mudanças já se iniciou há várias décadas e, o que é igualmente muito importante, a transformação é uma característica inerente às dinâmicas humanas no planeta, desde sempre.

Refiro esta questão porque o medo face à incerteza parte, em grande medida, da ilusão de que no passado não existiam incertezas, o que não é verdade. O que existia em momentos passados, pelo menos de forma mais robusta do que hoje, era a compreensão de que as mudanças eram a norma e de que as dificuldades não podiam ser encaradas como problemas de curto prazo. Havia uma noção mais extensa do tempo, que em parte decorria de uma esperança média de vida menor (as pessoas morriam mais cedo, pelo que entendiam que era fundamental a articulação intergeracional), e em parte de processos de mudança que eram efectivamente mais lentos.

Não é a primeira vez na História, e mesmo na História recente, que o medo ganha terreno sobre a razão e a capacidade de pensar e agir no médio e no longo prazo, que são as únicas escalas em que a incerteza não implica, também, angústia (sendo que é a angústia, e não a incerteza, que está na raiz do medo paralisante). Vimos essa realidade na década de 1930, ou na década de 1840, por exemplo, com consequências que foram muito negativas, e que se resumem numa palavra: guerra.

Neste quadro, é certo que há muitos desafios, mas penso que podem ser resumidos dois, que por sua vez podem gerar uma consequência positiva. Por um lado é preciso difundir a compreensão de que os processos em que vivemos, na escala dos locais onde nos movemos, são hoje indissociáveis dos processos globais, e se pautam sobretudo por dilemas (face aos quais é preciso fazer escolhas) e não apenas problemas (face aos quais se buscam soluções). Se repararmos bem no debate público, ele é essencialmente orientado pelos problemas que as pessoas sentem (desemprego, aquecimento global, cuidados de saúde, qualidade do ensino, segurança, terrorismo, refugiados…) e não para uma lógica de escolhas (mesmo quando este debate se propõe, tende a ser rejeitado).

Por outro lado, é preciso compreender que as dificuldades não são uma colecção de problemas separados (o que gera as actuais estratégias, algo disléxicas e certamente ineficientes, quando não desumanas, de reacção a questões como as migrações) e sim um processo integrado que carece de uma resposta global. Por exemplo, se se pensar na questão das migrações e da segurança no corredor que vai da Ásia Central ao Médio Oriente (e que depois se prolonga no Mediterrâneo), é fundamental perceber que os efeitos das mudanças ambientais e a desertificação, para além dos processos estritamente históricos, agravaram as tensões nessa região, e estão na origem do colapso dos Estados e das guerras a que assistimos.

Se as sociedades encararem melhor a necessidade de debaterem e agirem sobre dilemas e de forma integrada, não apenas no curto prazo mas medindo as consequências no médio e longo prazo, um primeiro resultado será a diminuição da incerteza (que em grande medida resulta da ignorância e do simples facto de não se reflectir sobre essas escalas temporais) e, consequentemente, a diminuição do medo e uma governança mais estável dos territórios.

Que políticas, estratégias e acções, a nível local, são necessárias para garantir um impacto efectivo sobre a resolução desses grandes desafios, a nível global?

Em primeiro lugar é preciso que se difunda a compreensão dessa relação entre o local e o global, não de uma forma demasiado abstracta mas partindo das necessidades quotidianas das pessoas: comer, beber, dormir, praticar desporto, etc. Isso é o que o Ano Internacional do Entendimento Global pretende fazer. É um processo que, para ser bem-sucedido, precisa não apenas de programas de coordenação de cima para baixo, mas da mobilização das comunidades. A iniciativa da rede de Agrupamentos de Escolas associados da UNESCO, com o Encontro Internacional dos Jovens Cientistas do Futuro, que se inicia a 13 de Janeiro e toma o IYGU por foco, é um bom exemplo do que deve ser feito. O encontro da rede Europeia de Gestão do Território APHELEIA, que juntará pessoas de dez países europeus em Mação, em Março, é outro exemplo.

A manutenção prolongada de um desemprego estrutural sempre conduziu as sociedades à radicalização e à guerra

Mas a dificuldade de desenvolver e implementar novas dinâmicas decorre, em grande medida, da atomização da nossa sociedade, com a desagregação das estruturas sociais tradicionais. Por isso, reorganizar a matriz social territorial, a partir dos conhecimentos e saberes locais, com dinâmicas intergeracionais, é crucial. Bem sei que isso não produz resultados imediatos, mas a verdade é que é a estratégia orientada para os resultados imediatos que nos trouxe ao ponto de ruptura mundial em que estamos. É preciso reaprender a investir no futuro, e em futuros que em boa medida serão sobretudo para os filhos, os netos, e os que estão para nascer. Só essa perspectiva, aliás, poderá devolver alguma tranquilidade às pessoas.

Dito isto, é preciso também agir no imediato, combatendo as pressões de ruptura. Importa compreender, por exemplo, que a manutenção prolongada de um desemprego estrutural superior a 10%, e bem superior entre a juventude, sempre conduziu as sociedades do passado à radicalização e à guerra, pelo que não há nenhuma razão lógica que nos permita supor que será diferente agora. E não falo da Síria, falo de Portugal, do Reino Unido, da Itália, ou, se preferir, dos movimentos separatistas e xenófobos que despontam por toda a Europa.

Compreender que a questão do desemprego não é apenas económica, mas cultural e identitária, é fundamental para uma reconciliação das pessoas com a sociedade. Mas é igualmente urgente um reforço da formação integrada em ciências naturais, exactas e humanas, que existia no passado e foi abandonada nas últimas décadas, em quase todos os países, com graves consequências no plano da compreensão da realidade. A redução drástica dos conteúdos escolares em Humanidades criou gerações certamente mais rapidamente qualificadas em técnicas, mas mais despreparadas para as relações interculturais.

A resposta mais eficiente, porém, porque permite ao mesmo tempo enfrentar as dificuldades imediatas e programar ações reflectidas para o futuro, é a construção de estratégias locais de gestão cultural integrada do território. Há diversos exemplos bem-sucedidos, e esse é um dos temas do IYGU mas, também, da Conferência Mundial das Humanidades, que estamos a preparar no Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH), com a UNESCO, e que se realizará em 2017.

Numa sociedade aparentemente ‘desumanizada’, de que modo se constroem pontes, entre os diferentes países, povos e comunidades, capazes de promover o entendimento a uma escala global, como é desígnio do IYGU? Que papel assume o conhecimento científico nessa construção?

O entendimento global é em primeiro lugar cultural e científico. Isto é, tem de se basear nas necessidades de sobrevivência das pessoas (que são em grande medida comuns em todo o planeta, embora em contextos muito diversos), nos seus interesses directos, e na compreensão de que a satisfação dessas necessidades e interesses só pode ser bem servida no quadro de uma convergência global dos comportamentos locais orientados para a sustentabilidade.

A redução drástica dos conteúdos escolares em Humanidades criou gerações mais despreparadas para as relações interculturais

As pontes sólidas são construídas na base de interesses solidários, como dizia Thomas Jefferson. O pensamento único, qualquer que ele seja, é fruto da ilusão de que existem interesses iguais para todos os seres humanos. Isso é uma ilusão, se se pretender ir mais além das simples necessidades fisiológicas. Os humanos são seres culturais, e a diversidade não é para eles um problema, sempre foi o seu principal factor de sucesso, de resiliência. Preservar a diversidade e promover o entendimento de base científica, racional, convergindo na direcção do conhecimento, é o caminho que permite diminuir as dificuldades e promover a paz. Volto a dizer: sempre foi assim, e não existe nenhum fundamento ou exemplo que nos permita pensar que será agora diferente.

A ciência é o mais importante instrumento que a Humanidade concebeu para responder às suas carências. Mas note-se que falo de ciência, que é um conhecimento especializado mas integrado, ao mesmo tempo naturalista, humanista e matemático, e não apenas de técnica, que é um subproduto. O IYGU é um Ano de valorização da ciência, da relação umbilical entre cultura e natureza, e não é por acaso que esta é a primeira vez que, desde o início do século XX, as ciências humanas, sociais, naturais e exactas se envolvem num projecto mundial comum.

Segundo o professor Benno Werlen, um dos mentores do IYGU, “só quando compreendermos verdadeiramente as consequências das nossas escolhas pessoais no planeta (…) é que poderemos fazer mudanças adequadas e efectivas”. Num mundo globalizado e dominado pela sociedade do consumo, acredita ser possível tornar a sustentabilidade efectivamente real, a prazo?

A verdade é que não existe alternativa. Vivemos tempos muito difíceis, mas é importante difundir na sociedade que os avanços tecnológicos hoje, por exemplo, permitem cada vez mais diminuir os factores de poluição e aquecimento global, acelerar o acesso universal a recursos básicos ou aumentar radicalmente a qualidade de vida. Ao mesmo tempo, esta tecnologia gera desemprego (o que nos obrigará a criar novos tipos de ocupação remunerada, assentes em algum tipo de taxação sobre as novas economias digitais, um pouco à maneira de Bismarck, quando “inventou” o Estado Social no século XIX, afastando o espectro da guerra civil que quase todos consideravam inevitável), e existem passivos sociais e ambientais que exigem não apenas um não agravamento, mas estratégias de reversão que têm custos financeiros claros. O investimento em ciência e humanidades diminuiu gravemente, com a ilusão de que só a tecnologia seria suficiente para resgatar a sociedade.

Já houve outros momentos em que a sociedade de consumo foi dominante, tendo chegado a pontos de ruptura decorrentes do custo económico insuportável do inflacionamento financeiro que esse modelo pressupõe, e que sempre conduz a cargas tributárias maiores e perda de direitos. Foi assim no fim do império romano, foi assim no final do antigo regime aristocrático, foi assim também na década de 20 do século passado. Mas é possível preservar economias de mercado, de troca e cooperação, que geram riqueza e bem-estar, sem a deriva do consumo pelo consumo, que entre outras coisas agrava o fosso social, aumenta a pressão sobre o ambiente e reduz o espaço da diversidade cultural.

Benno Werlen, que é o principal idealizador do IYGU, e que não por acaso é um geógrafo (tendo sido a União Geográfica Internacional a entidade que propôs oficialmente o IYGU), tem absoluta razão no que diz, pois só faremos escolhas adequadas quando estivermos conscientes das suas consequências. É por isso que a questão ambiental é, em primeiro lugar, uma questão de cultura.

Face aos objectivos do IYGU, que perspectivas tem para os resultados deste Ano Internacional proclamado por três organismos representantes da comunidade científica internacional?

Creio que a fortíssima adesão que o IYGU tem tido, que em grande medida parte “da base”, o que é especialmente positivo, nos permite ter a consciência de que o principal resultado será atingido. Ninguém tem obviamente a ilusão de que em um ano se pode mudar o entendimento global de forma generalizada. Mas o IYGU não será apenas um spot publicitário com a duração de um ano. O simples facto de estar a ser assumido por todos os conselhos internacionais das ciências, mas também retomado pelas universidades, pelos jornalistas, por inúmeros governos, revela que ele se inscreve numa mudança de paradigma, que ajuda a consolidar. E essa mudança é a da revalorização da importância social e científica da cultura e das Humanidades. É também por isso que algumas grandes iniciativas do IYGU serão, simultaneamente, eventos de preparação da Conferência Mundial das Humanidades, com a UNESCO, como será publicamente anunciado na Conferência de imprensa que a UNESCO, o CIPSH e o LiegeTogether realizarão, em Paris, no próximo dia 18 de Janeiro (aniversário do CIPSH).

Em Portugal, o que está para já previsto para dinamizar o Ano Internacional do Entendimento Global?

Como referi, estão em fase final os processos de estruturação orgânica do IYGU em Portugal, dado que o início oficial do Ano Internacional será a 2 de Fevereiro, com uma cerimónia em Jena, na Alemanha. Tal não impede que já existam diversas acções em curso, algumas das quais também já referi, mas que incluem diversas outras, como um ciclo de palestras organizado pela Universidade de Évora (que se abre no próximo dia 20 com o Dr. Ramos Horta), um concurso nacional para jovens que será anunciado em breve, diversas iniciativas municipais e universitárias, diversas publicações (incluindo dossiers de apoio aos professores nas escolas) e uma conferência nacional.

O espírito do IYGU é o de federar e fazer convergir as iniciativas que são expressão das dinâmicas das instituições, e não o de dirigir o que quer que seja a partir do topo. Se se pretende mudar o paradigma, isso passa por mudar os procedimentos, confiando na criatividade e inteligência que existem na sociedade e nas instituições. O papel do IYGU será o de ajudar a alinhar e a fazer convergir essas acções em torno da necessidade de compreender a relação entre global e local, destacando a importância dos comportamentos locais e da dimensão cultural e social das questões ambientais.

Irão ocorrer diversos eventos temáticos, também, por iniciativa de especialistas de temáticas como o direito ou a gestão territorial. Neste campo, e se me permitem, terminaria com o convite para que os profissionais da comunicação social organizassem um seminário ou evento de debate, sobre como esta pode inscrever-se neste processo, não apenas em 2016 mas nos próximos anos, promovendo o seu próprio olhar, que é por definição transdisciplinar e humanista, sobre as questões dos dilemas da sustentabilidade e da consciência crítica dos cidadãos. Creio que os académicos podem fazer muito, mas a comunicação social tem o maior poder e eficácia na construção de uma nova dinâmica. Quem sabe, o Portal VER poderia dinamizar algo neste sentido?

Nota:
O Portal VER irá acompanhar o Ano Internacional do Entendimento Global, dinamizando, à sua escala, as acções possíveis face ao objectivo de dar respostas locais aos grandes desafios globais