A Herdade de Maria da Guarda é o associado número mil do Compromisso Pagamento Pontual, da ACEGE. Em entrevista, João Cortez de Lobão, accionista desta sociedade agrícola que é a segunda maior produtora nacional de azeite, defende que é numa perspectiva em que “a principal missão da empresa é criar valor” para os colaboradores, para a comunidade, para o investidor, para o sector e para o País que “cabe como uma luva a prática do pagamento pontual”
POR
GABRIELA COSTA

A Herdade de Maria da Guarda (HMG) está integrada na Casa Agrícola Cortez de Lobão há mais de três séculos. Localizada em Serpa, dedica-se à produção de azeite numa área de 600 hectares, onde tem 1,1 milhão de oliveiras plantadas e três linhas no lagar.

Em 2005, a herdade alentejana produzia 500 quilos de azeitona. Fruto de um investimento de cerca de 16 milhões de euros, realizado na expansão dos olivais e na modernização do processo de produção e fabricação de azeite virgem extra destinado à venda a granel, em 2016 atinge um recorde que representa mais de 2% da produção nacional.


Este resultado, graças ao qual o lagar da Herdade de Maria da Guarda é hoje um dos maiores lagares privados do país, com uma capacidade para transformar em azeite fresco (em menos de seis horas e preservando a qualidade) entre 800 a 900 toneladas de azeitona por dia, começou a ser trabalhado há já 11 anos, quando tudo mudou: João Cortez de Lobão, um dos filhos do proprietário da herdade que estava na família há centenas de anos, decidiu deixar a Gestora de Fundos de Investimento do Grupo BCP, onde era administrador, para se tornar empresário agrícola. Investimento feito, a sociedade agrícola multiplicou exponencialmente o número de postos de trabalho, empregando actualmente mais de três dezenas de pessoas, para o que também contribuiu a mecanização do olival e o acesso à rega do Alqueva.

A exemplo de outras 999 organizações portuguesas, públicas e privadas, que se associaram ao projecto da ACEGE dedicado a impulsionar a economia nacional através do pagamento de facturas dentro dos prazos previstos, a Herdade de Maria da Guarda aderiu, recentemente, ao Compromisso Pagamento Pontual, tornando-se no associado número mil da iniciativa. A cerimónia de adesão da HMG decorreu em Serpa, na presença do Secretário de Estado da Agricultura, Luís Medeiros Vieira.

A herdade é assim a mais recente empresa a integrar a lista de associados, que chega agora às mil adesões, a nível nacional. Para João Cortez de Lobão, “este projecto é de extrema importância pelo contributo activo que pode ter para a economia nacional”. Como sublinha, “na Herdade de Maria da Guarda podemos orgulhar-nos de pagar sempre dentro dos prazos a todos os nossos fornecedores, fazendo investimentos sustentáveis e uma gestão equilibrada dos nossos custos”.

Não podemos deixar que nos imponham a linguagem do lucro

Sob o mote “Pagar a horas, fazer crescer Portugal”, este compromisso pretende respeitar os prazos dos pagamentos, que tendem a derrapar e afectam outras empresas directa e indirectamente. O objectivo é contagiar esta atitude de ética empresarial a toda a economia.

Segundo um estudo de Augusto Mateus encomendado pela ACEGE, em Portugal apenas cerca de 20% das empresas ou instituições paga pontualmente as suas obrigações na data acordada. Este estudo conclui que um atraso médio de 12 dias no prazo acordado tem um impacto na economia que reduz em cerca de 0,39 pontos percentuais o PIB nacional, e é directamente responsável pelo desaparecimento de mais de 14 mil postos de trabalho por ano.

Quais são as razões que levaram a Herdade Maria da Guarda a aderir ao Compromisso Pagamento Pontual?

João Cortez de Lobão, accionista da Sociedade Agrícola Herdade de Maria da Guarda, na Cerimónia de adesão ao Compromisso Pagamento Pontual

A Herdade Maria da Guarda tem, como todas as empresas portuguesas, a preocupação social e a consciência da sua responsabilidade na sociedade. Essa atitude resulta de fazermos parte de uma história maior, de um projecto e de uma herança de um Portugal que está sempre em busca de algo melhor.

Quais são os principais  critérios de gestão que levaram a HMG a ser a segunda maior produtora nacional de azeite?

Ser segundo, primeiro ou quinto em dimensão não tem importância absolutamente nenhuma, e não pode ser objectivo. Não queremos ser os mais altos, os mais gordos ou os mais bonitos. O que importa é procurar ser o mais eficiente. Enquanto formos do grupo dos mais eficientes,  estaremos a garantir que o capital e o trabalho estão a desenvolver-se bem, criando nova capacidade de investimento e mais emprego. As empresas que se esquecem deste foco acabam a destruir postos de trabalho e a destruir dinheiro.

Como é possível conciliar a gestão de uma empresa agrícola no Alentejo profundo com a aposta na tecnologia?

A beleza da evolução tecnológica está também na faculdade que ela nos dá de ter informação de forma instantânea. Estar em Lisboa, em Serpa ou em Milão com o terminal tablet ou telemóvel permite observar o funcionamento da “máquina” ao vivo que é a empresa e, simultaneamente, poder trocar opinião e tomar decisões com a equipa toda e fazer mais rapidamente os ajustamentos, as melhorias ou corrigir os erros.

Referiu que a maior obrigação de uma empresa não é procurar o lucro, mas criar valor para todos os seus stakeholders. Como é que se concretiza esta afirmação?

Estamos sempre em constante atitude de autocrítica para melhorar as premissas iniciais do projecto e, assim, adoptar práticas que sejam cada vez mais virtuosas. O objectivo da empresa não é – repito não é –  o lucro, ainda que isso seja importante na equação. E não podemos deixar que nos imponham essa linguagem de que essa é a principal missão da empresa.

A principal missão da empresa é criar valor: criar valor para os colaboradores, para a comunidade em que a empresa está inserida, para o investidor, para o sector e para Portugal. E é nesta perspectiva que cabe como uma luva a prática do “pagamento pontual”.

Garantimos que o capital e o trabalho se desenvolvem bem, criando capacidade de investimento e mais emprego

Lembrava algumas práticas que não trazem lucro à Herdade de Maria da Guarda, mas seguramente acrescentam respeitabilidade e valor ao projecto. E talvez também por isso, os colaboradores levam para o café ou para as férias em família o brio de serem parte de uma empresa que tem consciência de qual é a sua missão.  Por exemplo, distribuímos um prémio de mil euros a cada colaborador pelo nascimento de um seu filho, além de um cabaz de compras de cerca de 40 euros mensais por cada filho até aos dez anos. Todos os colaboradores têm um prémio anual e, desde o ano passado, 50 euros de prémio mensal,  se assumirem correctamente as suas funções – o que tem acontecido a uma taxa de 100% todos os meses.

Estamos em constante atitude de autocrítica para adoptar práticas que sejam cada vez mais virtuosas

Tudo isto para além, naturalmente, do apoio à creche, ao lar e a instituições de carácter social da região de Serpa e Beja. Ou de termos recuperado a cerimónia antiga na tradição da Igreja de, no inicio da colheita, com o pároco de Serpa e em horário  laboral, fazer a bênção dos primeiros frutos, em acção de graças pelo ano de sacrifícios e esforços, para que culmine neste milagre da abundância de bens na colheita.

Tudo isto são elementos que mostram que a nossa missão é criar valor. E criando valor estamos mais saudáveis no mercado.