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Numa altura em que “está a ser feito um esforço de inclusão digital dos mais novos, de modo alargado, a famílias com poucos recursos, é importante ter presente que muitos pais não usam ainda o computador ou a Internet e que podem ter dificuldade em entender a informação online”, defende, em declarações ao VER, a coordenadora nacional de um estudo do EU Kids Online, cujas conclusões foram apresentadas na última Sexta-feira, em Lisboa POR GABRIELA COSTA
São cada vez mais, e mais novas, as crianças portuguesas que utilizam a Internet, mas são poucos os pais que as acompanham. Assinalando o final da primeira fase de implementação, o projecto EU Kids Online, que reuniu em Portugal investigadores, académicos e decisores políticos, conclui que, atendendo à tenra idade destes jovens e ao facto de acederem mais à Web do que os seus progenitores, não estão a ser desenvolvidas estratégias de mediação parental adequadas à sua protecção face aos riscos inerentes à utilização da Internet.
São já 68 por cento as crianças portuguesas utilizadoras da Internet, mas apenas 32 por cento dos pais são utilizadores frequentes – contra os 54 por cento da média europeia – o que agrava o fosso entre pais e filhos, no que concerne a explicação dos cuidados que os jovens devem ter ao utilizarem os meios digitais e as situações para as quais devem estar alertas, quando expostos aos seus riscos. Um terço dos pais é utilizador ocasional da Internet e outro tanto nunca utiliza esta ferramenta.
Na opinião de Cristina Ponte, professora auxiliar do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e coordenadora nacional do projecto financiado pelo Programa Safer Internet Plus, da Comissão Europeia (que envolve uma rede de 21 países), esta realidade decorre do “atraso educacional que o País ainda atravessa”. Uma razão estrutural que não impede a urgência de implementar meios de formação tecnológica parental, num país que é dos poucos europeus em que os mais novos acedem com maior regularidade à Internet do que os seus pais, sustenta a coordenadora do EU Kids Online.
Os perigos na “idade da inocência” Ao lado da Hungria, Malta, Polónia e Roménia, Portugal é um dos poucos países que recebem um alerta da Comissão para a implementação urgente de medidas de sensibilização para este problema, dada “a adopção recente e rápida da Internet” e o facto dos pais, tendo poucos hábitos de utilização de recursos tecnológicos, tenderem a prolongar a “idade da inocência”, incorrendo no perigoso adiamento da consciencialização das crianças para os riscos da Internet. É que, na verdade, se tiverem informação adequada, as crianças que navegam na Web tendem a ser mais cautelosas.
Como explica Cristina Ponte, apesar de oitenta por cento dos pais declararem, num estudo do Eurobarómetro de 2008, um sentimento de preocupação sobre esta matéria – percentagem que ultrapassa a verificada em países onde mais pais e mais crianças usam a Net -, a maioria deles não desenvolve estratégias de mediação que contrariem a vulnerabilidade dos seus filhos face aos perigos associados à utilização da Web, como o risco de contactos para assédio sexual ou a exposição a conteúdos pornográficos e a condutas violentas, como o bullying (intimidação e/ou violência física e psicológica entre pares).
Mais grave, esta falta de acompanhamento verifica-se sobretudo entre os progenitores das crianças mais novas, que presumem ser demasiado cedo para preocupá-las com esse tipo de questões, embora sejam elas as novas potenciais utilizadoras, impulsionadas, entre outros fenómenos (como a proliferação de redes sociais), pelos programas do Plano Tecnológico para a Educação, como o e-escolas e o Magalhães.
| A falta de acompanhamento verifica-se sobretudo entre os progenitores das crianças mais novas, que presumem ser demasiado cedo para preocupá-las, embora sejam elas as novas potenciais utilizadoras |
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A este propósito, Cristina Ponte considera, em declarações ao VER, que “quando está a ser feito um esforço de inclusão digital dos mais novos, de modo alargado a famílias com poucos recursos, é importante ter presente que muitos pais não usam ainda o computador ou a Internet e que podem ter dificuldade em encontrar e em entender a informação online sobre segurança que tem sido disponibilizada”.
Assim, para além de esforços de inclusão digital das famílias (por exemplo, com uma maior acessibilidade de pequenos cursos, nas escolas, feitos por jovens monitores e em que se fale também de como acompanhar os filhos nesta fase, sobretudo os mais novos), seria desejável que existissem linhas telefónicas de apoio a pais, para situações de perigo que estes detectem e com as quais “não sabem lidar”, adianta ainda a docente da UNL: “note-se que a maioria dos pais recorre em primeiro lugar a conhecidos e amigos e que, nesta matéria, até ouvem conselhos de jovens com experiências online”.
Neste contexto, Cristina Ponte aconselha as famílias a colocarem os computadores ligados à Internet em espaços comuns, como a sala ou o escritório, em detrimento do quarto da(s) criança(s). “Ver o que fazem os filhos, navegar com eles, perceber os usos que fazem e conversar sobre as possíveis consequências” dessa utilização pode “ajudar a diminuir os riscos da impulsividade, que marca muito este meio”. Um estudo conduzido pela equipa portuguesa do EU Kids Online, na Universidade Nova de Lisboa, com vista a aprofundar dados do Eurobarómetro, revela que por vezes são os próprios pais que aprendem primeiro com os filhos como utilizar a Internet, para então poderem alertá-los sobre os perigos eminentes.
| Segurança na Internet comparada na UE |
Depois de apresentados os resultados gerais do estudo realizado no âmbito do EU Kids Online, a segunda fase do projecto europeu foi já anunciada. Através do programa Safer Internet, a Comissão Europeia irá financiar, com 2,5 milhões de euros, esta nova fase que permitirá comparar questões de segurança online, envolvendo crianças dos nove aos dezasseis anos e os seus pais, em mais de vinte países-membros da União Europeia (UE).
Esta pesquisa comparada será conduzida entre 2009 e 2011 e nela serão utilizados os mesmos instrumentos de inquirição, traduzidos nas diferentes línguas. Os riscos online abrangem a exposição a conteúdo desadequado, como pornografia, contactos indesejados, como assédio sexual, e conduta desadequada pelas próprias crianças, incluindo bullying.
Segundo a professora Sonia Livingstone, da London School of Economics, no Reino Unido, que coordena a rede EU Kids Online, a segunda fase do projecto “vai examinar a natureza, a dimensão e as consequências das experiências dos mais novos com o risco online, como reportadas aos investigadores pelas mil crianças dos nove aos dezasseis anos em cada um dos mais de vinte países europeus, para informar as políticas públicas e contrariar o pânico nos media”.
Em declarações à comunicação social, Cristina Ponte considerou o financiamento de 2,5 milhões de euros um sinal de reconhecimento da necessidade de estudos comparativos transnacionais: "uma das conclusões do nosso primeiro projecto foi que não existem estudos comparados que permitam uma visão global do tema". Por outro lado, o novo trabalho deverá permitir cruzar, pela primeira vez, o entendimento que pais e filhos fazem do fenómeno Web, com amostras anónimas (via inquérito directo) de cerca de vinte países e dezoito línguas. Os primeiros resultados deverão ser conhecidos em Junho de 2010. |
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