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A vida do presidente da adira dava um livro
por Daniel Deusdado a 18-06-2012

ADIRA VANGUARDA INDUSTRIAL PORTUGUESA A vida do presidente da adira dava um livro O que foi fazer o número dois de Angela Merkel à Rua de Bessa Leite? Ver a Adira. A empresa portuense inventou uma máquina que deixou os alemães de olhos em bico. Vanguarda industrial portuguesa? Sim, pela mão de um gestor cuja carreira dava um livro. Os portugueses que inventaram as dez quinas Por Daniel Deusdado A bandeira nacional deveria começar a ter dez quinas em vez de cinco. Se é verdade que as cinco representam a derrota dos cinco reis mouros às mãos de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique, as dez quinas da Adira levam o conceito para um outro campo: uma máquina inovadora a nível global para quinar chapa com alta precisão em 10 posições diferentes através de uma intervenção tão simples que "até a minha mãe sabe fazer isto", diz António Cardoso Pinto, o líder da Adira. Eis o glorioso e desconhecido mundo português onde se fazem máquinas complexas mesmo quando comparadas a nível global. Indo por partes. A Adira é 100% portuguesa e faz parte do lote das melhores empresas do Mundo a fazer quinadoras hidráulicas, guilhotinas ou máquinas de corte laser. Se andar pelos corredores da fábrica da Rua de Bessa Leite, em pleno centro do Porto, ou pelas novas instalações de Canelas, em Vila Nova de Gaia, percebe o que é a internacionalização. Nos corredores alinham-se máquinas a ser construídas, uma a uma. Imagine que entrou numa oficina automóvel moderna e em cada lugar, em vez de um carro, tem uma máquina de corte de chapa ou quinação. No dia em que o JN visitou a fábrica, o corredor não tinha nenhum lugar vazio. A montagem de cada unidade começa à segunda e acaba à sexta. Na lateral das máquinas estão as bandeiras do país para onde vão: Marrocos, Brasil, Argentina, Espanha, México, Colômbia... Cardoso Pinto já deu a volta ao Mundo a gerir projetos (ver caixa). A compra da Adira, em 2007, à família Dias Ramos, ocorreu quase em simultâneo com o início da grande crise financeira do Ocidente e às restrições ao crédito que se seguiram. Por isso o empenho colocado na gestão tem de ser ainda maior e uma das ideias que reforçou na empresa foi a de que as máquinas se deveriam construir como 'legos', apesar das diferentes especificações dos clientes. Esta capacidade de fazer linhas de montagem com padrão de produção permite dar saltos de produtividade e fiabilidade em prazos de entrega essenciais para mercados como este. Em simultâneo, a empresa deu um salto na estratégia e criou dois perfis de máquinas diferentes: as quinadoras de elevadíssima inovação (as 'Fórmula 1' como lhes chama Cardoso Pinto), batizadas de Greenbender, capazes de quinar chapa em 10 pontos diferentes, e as 'low-cost'. "O nosso engenheiro-chefe, Tiago Brito e Faro, esteve no MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos) e quando chegou propôs-me: em vez de fazermos o que sabemos, devíamos avançar para algo diferente: uma máquina de alta precisão gerida por um simples tablet". E foi assim que a tecnologia nasceu. O convénio do Governo português com o MIT resultou para algumas empresas nacionais em verdadeiros saltos no tempo. A Adira envia todos os anos um engenheiro para fazer uma pós-graduação em Boston, recebe dois doutorandos vindos do MIT, e incorpora ainda cinco mestrandos de Engenharia da Faculdada de Engenharia do Porto e três de Gestão da Católica. "Isso mantém-nos vivos. Fazem perguntas. Fazem-nos pensar". A Greenbender acaba de receber o Prémio Inovação Cotec 2012 para o segmento Industrial, resultado das colaborações em investigação com a Faculdade de Engenharia do Porto, INEGI, Minho, Aveiro, Inst. Sup.Técnico (Lisboa) e Universidade de Vigo. Aliás, a relação com a investigação faz com que 12 pessoas da Faculdade de Engenharia da Invicta estejam ligadas ao "centro fabril de excelência", como "demo center" nas instalações de Canelas. No entanto, num cenário de corte de investimento global em máquinas, a Adira resolveu apostar em simultâneo numa versão low-cost. As 'Guimadira' são "máquinas super-enxutas para vendermos durante a crise". Objetivo: não degradar o preço de produtos topo de gama - até porque o mundo não acaba hoje. Quem compra atualmente low-cost amanhã pode vir a escolher tecnologia de ponta. Até há bem poucos anos, a empresa vendia 80% dos equipamentos para a robusta indústria europeia onde a criação de valor suporta investimentos elevados e a procura da melhor tecnologia. Hoje é ao contrário: exporta para 46 países, mas a maioria das máquinas vai sobretudo para a América Central e do Sul onde a indústria, nos países em vias de desenvolvimento está a dar os primeiros passos na automação. Custo e simplicidade na operação industrial são pontos-chave. Ora, como sabemos, um parceiro português neste tipo de abordagem é normalmente uma enorme mais-valia para empresas cuja estruturação de competências (recurso humanos e capacidade técnica) é ainda limitada. A paciência portuguesa para ensinar e ultrapassar obstáculos é uma mais-valia raramente ao alcance de um alemão ou um japonês... Máquinas como estas são "a mãe da produtividade" de outras indústrias, diz Cardoso Pinto. Elas catapultam a produção de empresas do setor automóvel, agulhas, ferramentas, alimentação, mobiliário metálico, etc... Uma das intenções da Adira é a de encontrar empresas em Portugal que consigam tornar-se demonstradoras de tecnologia de ponta. Esta disseminação da tecnologia, também em Portugal, teria duas vantagens: aumentos de produtividade para quem compra as máquinas e capacidade de melhorar ainda mais o nível de inovação da Adira como resposta às necessidades dos clientes nacionais. Em simultâneo, a empresa tem nos seus planos a médio prazo deslocalizar a fabricação das máquinas low-cost para países onde é mais barato produzi-las e vendê-las (em mercados ávidos de soluções técnicas, como a Índia ou na América do sul) e concentrar em Portugal as 'Greenbender' de alta tecnologia e valor acrescentado. Para isso falta apenas estancar o medo que estrangula o crescimento da economia mundial. Quando isso acontecer a lista de espera por máquinas para a indústria vai ser longa... e a empresa portuense cá estará para multiplicar a velocidade de produção. PERFIL CARDOSO PINTO DA SHELL À PETROGAL, PASSANDO PELO GES E EFACEC António Cardoso Pinto é um lisboeta a gerir no Porto. Nasceu na capital, tirou o curso de Engrenagens e Soldaduras no Técnico e foi trabalhar para uma fábrica, a Presmalte, em Santa Iria da Azóia. Atravessou o "Verão Quente" e aos 25 anos viu-se a comandar cem pessoas face aos problemas de saúde do patrão de empresa. Mas, como tinha a ambição de evoluir, candidatou-se, seis anos depois, a uma bolsa da Culbenkian para uma pós-graduação de Engenharia de Produção, em Inglaterra. A bolsa foi atribuída mas, num jantar prévio à partida, ainda em Lisboa, o ainda jovem Cardoso Pinto foi apresentado ao presidente da Shell Portuguesa (um brasileiro de origem alemã). Dessa conversa saiu o desafio de ir trabalhar para os escritórios da multinacional em Lisboa. Dois anos depois, estava na sede em Londres. Na capital britânica, conheceu Manuel Ricardo Espírito Santo e dessa amizade surgiu o desafio para ser vice-presidente do BES-lnvestimento numa altura (1989) em que o grupo ia entrar nos setores a privatizar em Portugal. Decidiu então usar o cheque de prémios ganhos ao longo da vida para se aventurar em 2007 na compra de uma empresa industrial. Apesar de ter estado nas maiores empresas mundiais, Cardoso Pinto sente-se confortável numa empresa detida a 100% por si e pelos seus dois irmãos - Lúcia Cardoso Pinto, no marketing, e Francisco Cardoso Pinto na direção comercial. UM SETOR ESTRATÉGICO COM MUITAS MICROEMPRESAS O segmento das maquinas de corte e modelação de metal é uma pequena parte do setor da metalomecânica nadonaL O volume de negódos aproxima-se dos 90 milhões de euros em 2012 e tem registado um crescimento na casa dos dois dígitos no último triénio. Segundo a Associação das Indústrias Metalomecânicas e Afins de Portugal (ATMAP), num cluster com perto de 50 empresas e quase um milhar de trabalhadores, os números dos últimos anos deixam perceber uma aposta muito forte das empresas nacionais nas exportações. Os principais destinos em 2011 foram Angola, Espanha, Brasil e Alemanha que, juntos, representaram mais de metade do que vendemos ao exterior. Do lado das importações, as marcas alemãs, espanholas e italianas valeram mais de dois terços da maquinaria importada no ano anterior. A Europa produziu 22 mil milhões de euros em bens de equipamentos.

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