SOL/ Confidencial
Fazer mais com os portugueses
por Ricardo Reis a 06-05-2011

Fazer mais com os portugueses Apesar de muito progresso nos últimos 50 anos, Portugal ainda é um país pobre. Em 2010, um alemão era em média 62% mais rico do que um português, e até um grego era 10% mais rico do que nós. A última década agravou este atraso. O nosso PIB per capita cresceu só 2,2%. Para pôr este número em perspectiva, a estagnação económica japonesa entre 1992 e 2002 ficou famosa como a 'década perdida'. Quanto cresceu o Japão durante este período? Mais do dobro do que Portugal nos últimos 10 anos: 5,7%. Porque somos tão pobres? Não é porque trabalhamos pouco. Em relação à nossa população, mais portugueses trabalham do que gregos ou alemães, e cada um passa muito mais horas no local de trabalho - 26% mais do que os gregos e 8% mais do que os alemães. Também não é porque investimos pouco ou porque temos equipamentos e infra-estruturas insuficientes. Em relação ao que produzimos, o nível do nosso capital é semelhante ao de outros países europeus. A causa da pobreza portuguesa é fazermos pouco com os meios à nossa disposição. Desta falta de produtividade, destacam-se dois componentes. Primeiro, a falta de capital humano. Em 2010, em média, um português passou 7,7 anos na escola, contra os 10,4 anos dos nossos vizinhos espanhóis, e os 12,4 anos dos norte-americanos. Na última década fez-se um progresso notável nesta área, mas ainda temos uma das maiores taxas de abandono escolar da OCDE. Menos apreciado é a baixa qualidade da nossa educação. Um ano a mais de escola em Portugal produz um aumento de rendimento de 2%. Um ano a mais uma escola espanhola leva a um aumento de 4,8%. E, numa escola alemã, 8,3%. Estas diferenças de rentabilidade são bem maiores do que a diferença nos anos de escolaridade. Por isso, não basta pôr os portugueses na escola. Mais difícil, mas também mais importante, a escola tem de melhorar muito. O segundo factor é a má gestão. Um estudo recente mediu as práticas de gestão em 17 países no Mundo com base em grandes amostras a empresas. Talvez não surpreenda o leitor que a qualidade da nossa gestão é má. Mas a surpresa está em saber quão má ela é. As práticas de gestão portuguesas estão abaixo das mexicanas ou polacas e só acima das brasileiras e das gregas. Olhando para as categorias individuais, os portugueses dão-se pior nos recursos humanos. Deste estudo fica a impressão que, comparado com outros países, praticamente não existem bons incentivos no local de trabalho em Portugal. Recompensar os melhores funcionários e castigar os piores, incluindo despedi-los, são actos invulgares na indústria portuguesa. O mesmo estudo notou que, mesmo num país onde as práticas de gestão são muito más, as multinacionais norte-americanas conseguem ter sucesso. Não há nada de inato ou cultural que torna os habitantes locais ineficientes. São, simplesmente, mal geridos. Para enriquecermos, temos de fazer mais com os portugueses. Fazer mais na sala de aula e fazer mais nas horas passadas no local de trabalho. Ricardo Reis

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