Chamam-lhes progressos. As coisas já foram piores do que são hoje. Há que ver o lado positivo. Muitas barreiras foram já ultrapassadas. Degraus foram galgados. Tectos de vidro foram rachados. Chovem relatórios. Discutem-se propostas. Propõem-se quotas. Mas só no século XXII, e se tudo correr bem, é que se alcançará igualdade entre géneros. E nem sentadas as mulheres poderão esperar por ela
POR
HELENA OLIVEIRA

Na revista do Expresso da semana passada, a jornalista Clara Ferreira Alves recordava, a propósito da possibilidade de Hillary Clinton vir a ser eleita como a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, a famosa frase de Neil Armstrong “um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade” e acrescentava que, decerto, “ninguém se lembraria de dizer, ao dar o primeiro passo humano na lua, que era um grande passo para a mulher”. A jornalista acrescentava ainda que “o género feminino nunca serve para nomear coisas” e que “homem serve para toda a humanidade”.

Helena Oliveira é editora executiva do portal VER
Helena Oliveira é editora executiva do portal VER

Num só parágrafo, três verdades de La Palisse, tanto na Terra como na lua, servem para dar conta de mais um extenso, completo e denso relatório publicado pelo Fórum Económico Mundial, sobre a desigualdade de género, tema que é objecto de análise desde 2006 e que visa registar os progressos – ou os passos – no sentido da paridade entre homens e mulheres em quatro áreas: habilitações académicas, saúde e sobrevivência, oportunidades económicas e empowerment político. Até aqui nada de novo. É apenas mais um relatório, com 391 páginas, com muitos gráficos, figuras e rankings, que analisa 144 países e que conclui que, a nível global e mantendo-se as actuais tendências, serão necessários 83 anos para se atingir a igualdade entre géneros e 170 anos para o grande feito acontecer na esfera económica (a edição de 2015 apontava que a igualdade em termos de salários e emprego seria atingida daqui a 118 anos).

À primeira vista, a novidade diz apenas respeito a um pequeno detalhe: em vez de se estreitar o gap económico, como seria de esperar num mundo civilizado e em constante progresso (?), estamos perante um retrocesso e não só face às previsões do ano passado, mas de volta aos níveis de 2008, depois de se ter registado um “pico” em 2013. Uma “boa” notícia é o facto de, na dimensão política, que representa a maior das desigualdades, o tal do gap ter-se estreitado 9% em uma década, o que significa que, e caso as condições “favoráveis” se mantenham, mulheres e homens poderão dividir entre si e equitativamente os cargos políticos dentro de 82 anos. O que significa também que, caso lhes fosse permitido, as mulheres poderiam esperar sentadas para celebrar este feito.

Mas e mal-grado a sua falta de tempo para se sentarem, a verdade é que é muito cedo ainda para que nasçam meninas que, daqui a 172 anos, possam afirmar que vivem num mundo onde não são necessários relatórios sobre esta temática, nem jornalistas que escrevam sobre eles – e muito menos que existam calculadoras que nos permitam saber que idade teremos quando a igualdade for atingida. No meu caso, e depois de ter calculado o “gender gap closing”, fiquei a saber que terei completado 216 primaveras até que tal feito seja consumado. Se tudo correr bem, é claro.

Do “glass ceiling”aos grupos de trabalho que estudam “propostas de correcção das disparidades”

Quando iniciei as minhas lides profissionais na área da escrita, nomeadamente numa revista de gestão, e mais ou menos em meados da década de 1990, a “liderança no feminino” dava também os seus primeiros passos. E quando se escrevia, de forma fértil, sobre os motivos que impediam as mulheres de chegarem tão longe quanto os homens – e no contexto empresarial, em particular – não havia artigo, livro ou opinião que não citasse a frase que se tornaria famosa e irremediavelmente colada a essa condição de se “ser mulher” e desejar “ascender ao topo”. Sim, estou a falar do “glass ceiling”, termo utilizado pela primeira vez uma década antes, e mais concretamente em 1987, numa entrevista realizada pelo Washington Post a Alice Sargent, a propósito do seu livro intitulado “The Androgynous Manager”.

A nível global e mantendo-se as actuais tendências, serão necessários 83 anos para se atingir a igualdade entre géneros e 170 anos para o grande feito acontecer na esfera económica

A frase, em tradução literal, era a seguinte: “As mulheres na América corporativa estão a bater com a cabeça nos telhados de vidro”. Para mim, mulher, jovem e manifestamente ingénua, e de tanto a ler e escrever, a declaração em causa causava-me uma certa alergia. Não sendo necessariamente feminista – simplesmente porque acredito na igualdade do esforço e na avaliação meritocrática – cedo aprendi que quando se escreve sobre determinado “problema”, por mais estranho que o mesmo possa parecer, é porque ele existe. Mas e em simultâneo, não existindo nenhuma razão objectiva para o facto, sempre acalentei esperanças de que, mais cedo ou mais tarde, os telhados de vidro explodiriam, que as empresas olhariam para o mérito e não para os saltos altos – outra “condição” que deveria sempre acompanhar as mulheres que queriam dividir igualmente o palco da liderança com os seus pares masculinos – e, dado que em termos académicos, as mulheres estavam largamente a ultrapassar, e no geral, os homens, tudo isto se resolveria mais ano menos ano.

Ora e mais de 20 anos passados, eis-me a escrever – como tenho feito ao longo de duas décadas – com doses extras de alergia, a par de menores doses de ingenuidade, sobre o mesmo tema. E não é necessário percorrer as 390 páginas do relatório do FEM para dar graças por não ter nascido no Iémen, no Paquistão, na Síria, na Arábia Saudita ou no Chade – os cinco países que estão na cauda do ranking do FEM (apesar de dar graças, sim), os quais, em conjunto com tantos outros continuam a enfrentar injustiças impensáveis em pleno século XXI. As graças deveriam ser ainda maiores se pensarmos que Portugal “até” ocupa uma honrosa posição em termos globais e em 144 países – 31º lugar – e que em uma década, subimos dois degraus nesta escada torta da desigualdade.

E o que poderia ter apaziguado minimamente a irritação alérgica caiu por terra ao ler que, e no âmbito do Dia Nacional para a Igualdade Salarial, “celebrado” na passada segunda-feira, “o Governo prepara-se para criar um grupo de trabalho, desta vez para estudar propostas ‘que contribuam para a correcção das disparidades salariais que persistem entre mulheres e homens”, como anunciado pela Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE).

Em Portugal e de acordo com os dados disponíveis, “os salários médios das mulheres são inferiores em 16,7% aos dos homens”

Na mesma notícia, publicada pelo jornal Público, escreve-se ainda que em Portugal e de acordo com os dados disponíveis, “os salários médios das mulheres são inferiores em 16,7% aos dos homens”, o que pode ser exemplificado de uma outra forma ainda mais surpreendente: “por comparação aos homens, as mulheres trabalham 61 dias sem remuneração”.

Tal significa que as mulheres do nosso país estão, desde dia 1 de Novembro, a trabalhar gratuitamente, mas e mais uma vez, não se podem dar ao luxo de esperarem sentadas até ao próximo dia 2 de Janeiro, para recomeçarem a ser pagas pelo seu trabalho. Afinal, e duas décadas passadas a bater com a cabeça nos telhados de vidro, o mais que se conseguiu, e a muito custo, foi abrir algumas brechas. De vidro os telhados, ou de betão as paredes, a verdade é que passar para o “lado de lá” continua a ser tema de livros, artigos, seminários e, é claro, de “estudo de propostas” para corrigir disparidades várias. E isto, é claro, apenas nos países ditos desenvolvidos.

Porque ainda é preciso provar que a paridade de género beneficia o mundo em geral, e a economia em particular

Quando os argumentos “normais” e óbvios não são suficientes para se convencer os decisores sobre determinado fenómeno, injustiça ou necessidade de mudança de paradigma, o “truque”, geralmente infalível, é o de se recorrer aos possíveis dividendos económicos que possam advir da correcção dessa mesma injustiça ou de uma alteração efectiva do “fenómeno” em causa. Vários exemplos que suportam o que é denominado como “business case” integram temas recentes como a responsabilidade social das empresas, a sustentabilidade e, mais recentemente, as alterações climáticas.

E também no que respeita à paridade de género (em termos económicos) há muito que esses estudos são elaborados, publicados e “sugeridos” como leitura obrigatória aos que alguma coisa podem fazer, haja vontade para isso, e por respeitados organismos tão diferentes como o FMI ou o Banco Mundial, e por várias (re)conhecidas consultoras também.

As mulheres do nosso país estão, desde dia 1 de Novembro, a trabalhar gratuitamente, mas não se podem dar ao luxo de esperarem sentadas até ao próximo dia 2 de Janeiro, para recomeçarem a ser pagas pelo seu trabalho

Ao longo dos últimos nove anos, o VER tem vindo a dar conta de inúmeros estudos que “comprovam” que a igualdade de género é positiva para a economia – e não só, é claro – mas existe um em particular, publicado pelo McKinsey Global Institute, em Setembro de 2015, que faz muitas contas e cujos resultados deveriam convencer até os mais cépticos: intitulado “The Power of Parity: How Advancing Women’s Equality Can Add $12 Trillion To Global Growth”, o estudo, e depois de analisar 15 indicadores de níveis de género em 95 países, estima que se a desigualdade no trabalho fosse significativamente reduzida, entre 2014 e 2025, as mulheres contribuiriam para aumentar o PIB mundial em 12 triliões de dólares. Na altura, as mulheres analisadas nestes 95 países eram responsáveis pela geração de 37% do PIB global, apesar de representarem 50% da população activa, sendo que 75% do trabalho não pago no mundo inteiro recaia nos seus ombros. Ainda no mesmo estudo, estimava-se que num “cenário de pleno potencial”, no qual as mulheres teriam uma participação na economia idêntica à dos homens, o PIB global anual sofreria um acréscimo na ordem dos 26% em 2025 comparativamente ao cenário habitual do “business as usual”. O impacto deste valor era, na altura, mais ou menos equivalente à dimensão combinada das economias dos Estados Unidos e da China.

E também no Gender Gap Report agora publicado pelo FEM, estes dividendos económicos significativos voltam a ser analisados. O relatório cita estimativas mais recentes que sugerem que caso a paridade económica fosse atingida, o PIB no Reino Unido (20º no ranking) aumentaria em 240 mil milhões de dólares, em 1,201 mil milhões nos Estados Unidos (45º), 526 mil milhões no Japão (que bem precisava, visto posicionar-se numa vergonhosa 111ª posição) e 285 mil milhões no PIB da Alemanha (13º). Uma outra estimativa sugere que a China, em 99º lugar no ranking global, poderia adicionar ao seu PIB, e até 2020, a interessante quantia de 2,5 triliões de dólares e que a América do Norte e a Oceânia poderiam acrescentar ao mesmo, e no mesmo período de tempo, 3,1 triliões se “fechassem” o fosso entre géneros.

A pobreza é sexista e Bono é a “mulher do ano”

Porque por vezes o impacto nas mentalidades, ou nos bolsos, é mais levado a sério se falarmos em perdas, o FEM inverteu igualmente os cenários. Sublinhando que a redução na desigualdade em termos de emprego na Europa – a nível regional, a Europa Ocidental poderá ser a segunda, globalmente, a atingir a igualdade de géneros, em 61 anos, e depois do sul da Ásia, que a deverá alcançar dentro de 46 – tem sido um importante estímulo para o seu crescimento económico na última década, o seu contrário, ou seja, a limitação do acesso das mulheres no mercado de trabalho, resultaria em enormes custos. E, por exemplo, enquanto região, a Ásia Oriental e Pacífico reportou perdas que variam entre os 42 e os 47 mil milhões de dólares anualmente graças ao acesso limitado a oportunidades de emprego para as mulheres, com o Banco Mundial a estimar igualmente custos dramáticos no Médio Oriente, no norte de África e em toda a região da África subsaariana.

Como sabemos também, a pobreza afecta, em particular, as mulheres, e os exemplos multiplicar-se-iam, tal como se multiplicam os efeitos positivos da igualdade de género nas quatro dimensões estudadas pelo FEM – participação económica, educação, saúde e política – na medida em que as interdependências entre as mesmas são inegáveis.

Se existisse, nos países em desenvolvimento, um investimento nas “raparigas” em idade escolar no sentido de estas poderem vir a completar o ciclo educativo ao mesmo ritmo que os seus pares masculinos, estas seriam responsáveis por um aumento do PIB que poderia variar entre os 54% e os 68%

Ou seja, não é difícil perceber que o aumento da paridade de género na educação diminui as taxas de mortalidade infantil, bem como as das próprias mães, aumenta as taxas de participação na força laboral e, por consequência, os rendimentos, para além de estimular um maior investimento na educação das raparigas. Para terminar os exemplos óbvios – ou melhor, os argumentos económicos – o Banco Mundial concluiu, e depois de analisar um conjunto alargado de países em desenvolvimento, que se existisse, hoje, um investimento nas “raparigas” em idade escolar no sentido de estas poderem vir a completar o ciclo educativo ao mesmo ritmo que os seus pares masculinos, estas seriam responsáveis por um aumento do PIB dos seus países, o qual poderia variar entre os 54% e os 68%.

Inversamente, a exclusão das raparigas do mapa educativo trava consideravelmente o potencial produtivo de uma economia, a par do seu desenvolvimento. Para a Ásia Oriental e Pacífico, especificamente, é estimado que, anualmente, sejam perdidos entre 16 e 30 mil milhões de dólares como resultado da desigualdade de género na educação. E, tal como na educação, o investimento em saúde – em particular nos cuidados maternos, neonatais e infantis – os efeitos multiplicadores são igualmente diversos.

Todavia e mesmo assim, que sejam celebrados os grupos de trabalho, que se estudem propostas para corrigir as disparidades salariais, que se gastem milhões a fazer relatórios, e outros tantos a estimar ganhos e perdas, que se discutam quotas para aumentar os assentos nos conselhos de administração, na política, nas empresas, que sejam necessárias directivas europeias para as fazer cumprir, que se ouçam as mulheres a pedir “ajuda” aos seus companheiros para as lides domésticas, que se façam juras globais para acabar com a violência no feminino, em todas as suas variadas formas, que se multipliquem as campanhas de educação para as raparigas e que se continue a achar que isto da igualdade de género é coisa… de mulher.

E, por falar em mulher, uma nota para o prémio atribuído na passada quarta-feira pela revista “Glamour” a Bono, vocalista dos U2, ou mais concretamente à sua organização sem fins lucrativos ONE e à campanha Poverty is Sexism. Ao longo de 27 anos, a revista tem vido a homenagear mulheres que se destacam na luta pela igualdade de géneros e, pela primeira vez, é um homem a ganhá-lo. Se não existiam mulheres que o merecessem mais? Muito provavelmente, sim e são já vários os coros de críticas, de feministas assumidas e não só, a condenar o facto. Mas e feminismos ou sexismos à parte, a verdade é que tal como a população mundial está dividida em quase duas metades “perfeitas”, com uma quase equivalência no número de homens e mulheres, o desafio tem de ser igualmente repartido. Porque só com a vontade de homens e mulheres é que a desigualdade deixará de ser tema. E sim, esta é mais uma verdade de La Palisse.

Contudo, talvez em 2186 alguém tenha a felicidade de poder escrever: um grande passo para as mulheres e um gigantesco passo para a humanidade. Se tudo correr bem, é claro.

Para aceder ao relatório do Fórum Económico Mundial, clique aqui.