A inteligência artificial, ou seja, a capacidade de certas máquinas bem programadas conseguirem aprender, está a entrar em muitos campos da vida humana e traz consigo muitas questões éticas. Afinal, a máquina pode assumir responsabilidades? E será que nos tornámos dependentes das máquinas ou ainda somos senhores das máquinas?
POR P. DUARTE DA CUNHA

Desde há algum tempo que tenho andado preocupado com o facto, de que se vai falando cada vez mais, de a Inteligência artificial ser algo que não conseguimos muito bem perceber se é ficção científica, se é simples desenvolvimento das máquinas ou se é algo mais grave e importante.

Durante muito tempo, os homens procuraram fazer máquinas para facilitarem algumas tarefas do seu quotidiano e para realizarem obras para as quais precisavam de ajuda. Até há pouco parecia evidente que as máquinas, nascendo da imaginação dos homens e dos seus estudos, eram fabricadas para serem usadas por eles.

A ficção científica, já no início do século XX, começou a imaginar alguns perigos. Sobretudo o medo de que as máquinas tomassem o poder e os homens não as conseguissem desligar. Esta ideia estava presente quando E.M. Forster escreveu, em 1928, o seu conto “The machine Stops” (“A máquina parou”). E desde então há muita literatura e filmes a explorarem este perigo. São imagens assustadoras, mas que as novas tecnologias fazem parecer mais verosímeis.

O tempo da inteligência artificial exige muita reflexão, para que a técnica não se divorcie da ética

É um facto que em muitos casos a máquina passou de ajuda a substituto dos homens. No início servia para fazer o que os homens não conseguiam fazer, sobretudo porque era necessário muita força ou muita precisão. Aos poucos vão aparecendo máquinas – computadores – capazes de substituir os homens nos raciocínios e até nas decisões. Basta pensar em certos exames médicos onde a máquina, por assegurar mais precisão no diagnóstico, também é capaz de indicar o tratamento adequado. Até quando poderão ainda o médico e o doente concordar ou discordar com a máquina?

A inteligência artificial, ou seja, a capacidade de certas máquinas bem programadas conseguirem aprender, está a entrar em muitos campos da vida humana e traz consigo muitas questões éticas. Afinal, a máquina pode assumir responsabilidades? E será que nos tornámos dependentes das máquinas ou ainda somos senhores das máquinas?

É previsível que em breve haverá ainda mais máquinas capazes de nos ultrapassar em precisão e eficácia. E isso terá implicações, por exemplo, no mercado de trabalho. O desenvolvimento tecnológico é muito mais rápido do que a capacidade de aprender a usar o que se vai inventando. A chamada geração digital, que nasceu já rodeada de computadores, consegue usar muito melhor as máquinas do que alguém que só aos 30 anos viu um computador. Mas daqui a uns anos os que hoje são jovens já terão sido ultrapassados por outros.

Ora, se tudo isto obriga a pensar no que desejamos fazer e no que realmente conseguimos fazer – e há ainda espaço para inventarmos muitas coisas – também nos ajuda a repensar o que somos e confirmar que a pessoa humana é mais do que uma máquina.

Amar não é uma reacção química, nem o resultado de um algoritmo

Esta é a grande oportunidade que a Igreja deve agarrar, e que a Europa, por toda a sua história, deveria aproveitar para voltar a ter um papel decisivo no mundo. Afinal, o homem não se define só pelo que consegue fazer. A sua dignidade não está dependente do que tem nem do que consegue fazer, é algo que faz parte do seu ser. Este é o momento para redescobrir o que é o Homem. É tempo de voltarmos a falar de interioridade e de consciência. Paradoxalmente, as discussões à volta da inteligência artificial acabam por extravasar as questões técnicas; voltamos a discutir dilemas morais, problemas de consciência e percebemos que nos homens há algo de espiritual, que não é de natureza física. Mas, mais ainda, damo-nos conta da necessidade de procurar a sua verdade.

É aqui que surgem as grandes questões: pensemos no amor e na religião. Sim, amar não é uma reacção química, nem o resultado de um algoritmo. Uma máquina até pode aprender a imitar um ser humano apaixonado, mas nunca fará a experiência interior do amor! E sim, poder conhecer e amar a Deus exige uma alma, que é o que ‘contradistingue’ as pessoas dos animais e das máquinas.

O tempo da inteligência artificial exige, portanto, muita reflexão, muita atenção para que a técnica não se divorcie da ética. É preciso estar atento ao que vai mudar na maneira de viver e não criar novos problemas sociais. Mas ela cria esta oportunidade que poderá ser verdadeiramente revolucionária: mostra que afinal o homem é outra coisa. Não é uma máquina que se deve desenvolver, nem sequer um animal racional, é uma criatura criada à imagem de Deus e chamada a tornar-se filho de Deus.

Artigo originalmente publicado em A voz da Verdade