Nos últimos meses, primeiro com o caso da Cáritas e mais recentemente com a Raríssimas e outras entidades, tem-se assistido ao que parece ser uma tentativa de moldagem da opinião pública contra as instituições sociais, pondo em relevo algumas das suas fragilidades e colocando em causa o papel que constitucionalmente lhes está confiado. Se existe matéria julgável e condenável, julgue-se e condene-se, mas sem que se provoquem generalizações infundadas sobre milhares de pessoas e organizações que diariamente dão o melhor de si para ajudar quem menos pode ou tem
POR TIAGO ABALROADO

As instituições sociais em Portugal representam, pela sua natureza, pela sua capilaridade e pelo seu fortíssimo impacto junto das comunidades, uma fonte desafogada de valor económico e social que abrange e envolve os vários actores da sociedade na promoção do desenvolvimento humano, da justiça e do bem comum. A sua missão materializa-se na propiciação de respostas específicas com vista à colmatação das necessidades e privações das populações dos vários territórios em substituição do Estado, que assume nesta acção o papel de co-responsável e regulador.

Nos últimos meses, primeiro com o caso da Cáritas e mais recentemente com as polémicas em torno da Raríssimas e de outras entidades, tem-se assistido ao que parece ser uma tentativa de moldagem da opinião pública contra as instituições sociais, pondo em relevo algumas das suas fragilidades e colocando em causa o papel que constitucionalmente lhes está confiado. Da discussão pública desencadeada emergiu um vasto leque de posições e opiniões, mais e menos fundamentadas, evidenciando maiores e menores graus de esclarecimento e conhecimento, que trouxeram para a “praça” um conjunto de ideias aparentemente novas e sensíveis.

Muitos são aqueles que afirmaram que as notícias vindas a público mancham o sector social e põem em causa a credibilidade das instituições, chegando mesmo a sugerir que o actual modelo de cooperação com o Estado seja repensado e redefinido, particularmente no que diz respeito aos mecanismos de financiamento das diferentes respostas sociais.

Estamos notoriamente perante um intento de se fazer tomar o todo pela parte, provocando uma miopia aguda e intencional sobre uma realidade que é multissecular na sociedade portuguesa e que nos vários momentos de crise tem sido capaz de, sendo fiel à sua missão, servir de suporte e amparo aos cidadãos.

Se há erros, reparem-se; se existe matéria julgável e condenável, julgue-se e condene-se, mas sem que se provoquem generalizações infundadas sobre milhares de pessoas e organizações que diariamente dão o melhor de si para ajudar quem menos pode ou tem.

É, no entanto, lícito e expectável que, após toda a agitação de águas desencadeada pelo debate ocorrido, os vários dirigentes e responsáveis das organizações promovam internamente momentos de reflexão e de autoavaliação com vista a monitorizar a sua capacidade de fazer uma utilização eficiente dos recursos e os níveis de qualidade associados aos serviços por si prestados.

Bem sabemos, não obstante o manifesto relevo das instituições sociais para a sociedade e a criticidade da sua intervenção, que, nalguns casos, têm subsistido, ao longo dos anos, determinados problemas genéricos de natureza organizativa e estrutural cuja resolução é fundamental nos tempos actuais, designadamente a ausência de projectos organizacionais, a pouca valorização atribuída às dimensões de planeamento e avaliação, a existência de fracos níveis de participação e de compromisso por parte das estruturas internas, o baixo envolvimento da comunidade enquanto agente activo, o reduzido índice de inovação nas respostas e serviços prestados, a estruturação segundo modelos de cariz monocrático e, não raras vezes, a existência de uma relação ambígua com o Estado, a qual é potenciadora de uma crescente dependência financeira.

Espera-se que o impacto para estas organizações, provocado pelas controvérsias e discussões ocorridas, seja não mais do que o reforço colectivo das práticas de gestão desenvolvidas a fim de que a orientação dos seus recursos e capacidades seja cada vez mais focada na maximização do valor que é por si proporcionado.

O factor crítico e determinante para o sucesso de qualquer instituição social, agora e no futuro, será, assim, a detenção de uma forte capacidade organizativa que lhe permita compreender e responder eficazmente aos problemas sociais emergentes, que seja aberta à constante reinvenção de práticas e à actualização de estratégias e centrada em critérios transparentes e rigorosos de gestão de recursos.

Tiago Abalroado é autor do livro “A Criação de Valor Estratégico nas Instituições Sociais da Igreja em Portugal

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