Tão evoluídos que somos, tão civilizados que parecemos, tão inovadores e progressistas nos consideramos e nunca a espécie humana atingiu feitos tão disruptivos como agora. O problema é que, e de forma crescente, continuamos a considerar, e desde tenra idade, que “uns são mais humanos que os outros”. O fenómeno da desumanização está em franca progressão e as suas consequências são imprevisíveis
POR
HELENA OLIVEIRA

Apesar de existirem “decretos” legais, constitucionais e biológicos que estabelecem orientações claras que determinam a classificação dos indivíduos enquanto humanos, os padrões psicológicos para o estabelecimento da “humanidade” são ainda, e como sabemos, muito voláteis. E, ao contrário do que seria de esperar, numa sociedade evoluída e supostamente civilizada, este tema está, cada vez mais, na ordem do dia. A desumanização – ou o olharmos o outro como menos capaz ou inteligente, mais animalesco ou “menos humano” – não é apenas fruto de uma discriminação cultural e social, mas também profundamente “mental”.

Ou, e por outras palavras, o nosso próprio cérebro – ou os programas mentais que nele estão profundamente codificados – e por mais perturbador que tal possa parecer, integra o que os psicólogos e cientistas de áreas conexas denominam como “desumanização” ou a capacidade para olharmos os nossos “iguais” como menos humanos que nós.

Há muito que os psicólogos estudam este fenómeno e existe um conjunto substancial de investigação empírica que comprova que a desumanização facilita a discriminação e a agressão relativamente ao “outro”, para além de provocar um “contraciclo” potencialmente perigoso.

Basta pensarmos nos inúmeros exemplos presentes na nossa História recente (o que significa que não é preciso remontar a um passado distante) de pessoas que associavam (e, pelos vistos, continuam a fazê-lo) grupos sociais específicos a animais: a propaganda nazi retratava os judeus como uma “praga ”, os defensores da escravatura – e já na América “moderna” – consideravam os afro-americanos com macacos – aliás e como sabemos também, Barak Obama também não escapou a este epíteto – os europeus referiam-se, muito abertamente, aos ciganos como “vermes” e, durante o genocídio no Ruanda, os extremistas hutus consideravam a minoria tutsi como “baratas” que tinham de ser exterminadas.

Como temos vindo a testemunhar – e em particular desde que deflagrou a crise dos refugiados e, numa espécie de simultaneidade de infeliz mau gosto (ou de causa-efeito para muitos), o aumento dos ataques terroristas um pouco por todo o mundo -, não só se multiplicaram os movimentos de ódio e intolerância e os discursos anti-imigração, como a ideia de “olhar o outro” como diferente, menos humano ou até como um monstro se agudizou. Apesar de o sentimento de “superioridade” nunca ter deixado de existir, a verdade é que parece que estamos num perigoso regresso ao passado e num “blackout” de memória demasiado generalizado e cada vez mais aceite como “normal”.

A ajudar, a vitória de Donald Trump e as medidas que tem vindo a tomar – contra, em particular, os muçulmanos e também face aos mexicanos – com o muro que pretende construir a dividir, literalmente, cada vez mais as hostes -, tem dado origem a vários novos estudos que visam compreender, exactamente, como o processo de desumanização está a atingir níveis ainda mais profundos face à discriminação que, na verdade, nunca deixou de existir e face a inúmeros “grupos”. Os exemplos seriam demasiados – basta recordar as palavras do eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke, em relação à desigualdade de salários entre homens e mulheres, e que, e muitíssimo bem, foram sancionadas pela Comissão Europeia, para nos recordarmos que os (as, neste caso em particular) “mais fracos, mais pequenos e menos inteligentes” parecem, na mente de muitos, carecer de um estatuto de “humanos de pleno direito” Mas e neste artigo, não é sobre desigualdade de género em particular de que se fala, mas do fenómeno crescente da desumanização e das suas perigosas consequências.

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Espelho meu, quem é menos humano do que eu?

Emile Bruneau é um neurocientista no MIT que há muito se dedica a investigar a base neural dos conflitos existentes “entre grupos” e as suas consequências cognitivas e psicológicas. Por seu turno, Nour Kteily, professor de Gestão e Organizações na Kellogg School of Management, utiliza também as ferramentas da psicologia social para investigar o como e o porquê das hierarquias sociais e das disparidades de poder emergirem entre diferentes grupos e de que forma é que esta realidade influencia as suas relações. Ambos com um extenso trabalho publicado em diferentes, mas conexas, áreas do denominado fenómeno da “desumanização”, e a propósito das recentes medidas anunciadas pelo presidente Trump que visam travar a imigração nos Estados Unidos, os dois investigadores assinaram um estudo intitulado “Backlash: The Politics and Real-World Consequences of Minority Group Dehumanization, o qual teve como objectivo analisar a crescente desumanização das minorias no geral e, em particular, a de muçulmanos e mexicanos durante as primárias republicanas para as presidenciais de 2016.

Tomando como ponto de partida uma interessante e inovadora ferramenta que avalia a tendência das pessoas em olharem para os outros e considerá-los menos humanos comparativamente a si mesmos – e que mais não é do que a mais do que conhecida e utilizada imagem da evolução da espécie humana (apesar de cientificamente errada), a qual ilustra as silhuetas da passagem lenta dos nossos ancestrais desde a altura em eram quadrúpedes até conseguirem “chegar” à posição de se manterem de pé em cima das duas pernas, Kteily resolveu utilizá-la também nas suas pesquisas, pedindo aos participantes que avaliassem pessoas pertencentes a grupos diferentes a partir desta mesma imagem e para as “classificar” de acordo com o grau de evolução que “consideravam” que tivessem num espectro “evolucionista”.

Como afirma o professor, num interessante artigo publicado no jornal universitário KelloggInsight e intitulado The Dangers of Dehumanization, “apesar de sabermos que estávamos perante uma métrica provocadora, queríamos mesmo capturar a desumanização da forma mais horrível e inequívoca possível”.

O primeiro grupo envolveu 201 americanos, aos quais foi mostrado o diagrama da Evolução do Homem num computador, em conjunto com um universo de 13 nacionalidades diferentes e/ou grupos étnicos e religiosos. Os participantes tinham apenas que fazer deslizar uma barra posicionada ao pé de cada uma das nacionalidades/ grupos e arrastá-la para um qualquer ponto “representativo” da escala em causa. Por último, os cientistas converteram as suas respostas num ranking numérico – de 0 a 100, com o 100, naturalmente, a representar o ponto mais elevado da evolução, ou seja, a silhueta correspondente ao “totalmente humano”.

Os resultados mostraram que os europeus e os americanos ocupavam os dois lugares cimeiros na “escala da humanidade”, com pontuações de 91,9 e 91,5, respectivamente. Seis outros grupos receberam menos dois pontos face à classificação dos americanos, considerados, no entanto, como estatisticamente indistinguíveis dos primeiros: os suíços, os franceses, os japoneses, os australianos, os austríacos e os islandeses. E os cinco grupos com resultados mais baixos nesta suposta escala evolutiva foram os chineses (88,4), os sul-coreanos (86,9), os imigrantes mexicanos (83,7), os árabes (80,9) e os muçulmanos, em último, com apenas 77,6 pontos alcançados. [a distinção entre árabes e muçulmanos nem sempre é clara mas, em termos breves, os primeiros são considerados enquanto cidadãos de países árabes e os segundos os que seguem a religião islâmica].

Apesar de estas percepções serem extremadas – com muitas pessoas a darem a pontuação “máxima” ou conferindo a ideia de “totalmente humano” aos membros de alguns grupos, a verdade é que, e como alerta o professor da Kellogg, os respondentes que não conferiram os 100% de humanidade aos seus semelhantes não pertencem a nenhum “franja” ou não são apenas uma ou duas pessoas a “discriminar” os grupos elencados. Kteily conclui, pelo contrário, que “existiu um número significativo de pessoas conscientemente disposto a desumanizar alguns dos grupos em apreciação”.

Num artigo sobre esta mesma temática, publicado pela Vox na semana passada, é igualmente citada uma experiência recente e que acaba por ser ainda mais “chocante”, na medida em que os participantes são crianças entre os cinco e os seis anos, às quais foram inicialmente mostradas uma série de imagens de rostos (v. imagem abaixo). As fotografias em causa representavam, inicialmente, rostos humanos, os quais foram, numa segunda fase, digitalmente manipulados para se parecerem com bonecos de plástico e representativos de geografias diferentes. Os responsáveis pelo estudo concluíram que existe uma tendência clara para as crianças percepcionarem os rostos “extra-grupo-geográfico” como menos humanos, a qual se agrava ainda mais nos miúdos mais velhos. Esta pesquisa, em conjunto com outras similares, conduzida, como conta a Vox por Adam Waytz, psicólogo na Northwestern University, que colabora igualmente com Kteily, serve para demonstrar que até as crianças têm a noção perfeita, e desde tenra idade, que o mundo é dividido entre o “nós versus os outros”, sendo o fenómeno da “alteridade” mais comum do que se pensa.

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Susan Fiske, professora em Princeton e cuja investigação aborda de que forma os estereótipos, os preconceitos e a discriminação são encorajados ou desencorajados por relações sociais como a cooperação, a competição e o poder, concorda veementemente com o facto de os imigrantes e os refugiados estarem a ser uniformemente discriminados um pouco por todo o mundo. E, em algumas pesquisas de neurociência que já conduziu ficou demonstrado que quando desumanizamos os outros, as regiões do cérebro associadas à repugnância ou à repulsa são “ligadas”, ao mesmo tempo que as relacionadas com a empatia são “desligadas”. Comentando a pesquisa de Kteily, e ainda no mesmo artigo da Vox, a investigadora afirma que aquilo que mais a chocou nos resultados obtidos foi o facto de as pessoas estarem “dispostas a admitir que têm, na verdade, escalas ‘relativas’ de humanidade dentro de si”. E o perigo que essa ideia representa no sentido de aumentar a violência, a hostilidade e a intolerância para com o “outro”.

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Desumanização gera menor sentimento de pertença e maior hostilidade

Exactamente oito dias depois de Trump ter sido eleito, a 16 de Novembro de 2016, os media dariam a conhecer o relatório do FBI sobre as estatísticas de crimes de ódio, realizado anualmente, o qual alertava não só para o aumento generalizado dos mesmos como, e em particular, para o facto de os ataques contra muçulmanos terem registado o maior dos picos.

Como reportou a CNN, em apenas um ano (e num período em que já se conhecia a agenda de Trump mesmo que em fase de pré-campanha), os crimes de ódio contra muçulmanos tinham subido 67%, tendo igualmente atingido o seu nível mais elevado desde o 11 de Setembro (sendo de sublinhar, também, que os ataques terroristas na Europa contribuíram para esta realidade).

Ora, e retomando o estudo realizado por Nour Kteily e Emile Bruneau, e num artigo de opinião publicado pelos mesmos no The Washington Post a propósito dos primeiros decretos presidenciais de Trump no que respeita à construção do muro com o México e à interdição da entrada de refugiados e muçulmanos de sete países nos EUA, os investigadores não deixam de ironizar: “apesar de ser claro que as políticas de Trump reflectem uma mudança de maré no que respeita à abordagem americana à segurança nacional – será que a mesma tornará os americanos mais seguros? [“make Americans safe again”, no original e no seguimento do seu famoso claim].”

Como seria de esperar, e tendo em conta a sua própria investigação, a resposta é um redondo “não”. Ou, pelo contrário, a de que a desumanização das minorias, tanto por palavras como por actos, estimulada pela retórica e pelas políticas de Trump, deverá, muito possivelmente, promover exactamente as mesmas acções que, supostamente e de acordo com o presidente, deveriam evitar.

Os investigadores explicam ainda no mesmo artigo de Opinião que, e no processo das primárias para a eleição presidencial, recolheram outros dados, via online, de dois grandes grupos de amostra compostos por cerca de 700 pessoas, avaliando as suas tendências políticas, as suas atitudes relativas aos imigrantes mexicanos e muçulmanos e questionando o seu apoio a algumas das promessas políticas do então candidato republicano (e directamente do seu website de campanha).

A adicionar aos níveis de “humanidade” já anteriormente citados – com os imigrantes mexicanos e os muçulmanos a ocupar os últimos lugares da escala – os autores do estudo questionaram também até que ponto estes mesmos grupos poderiam ser caracterizados por traços “animalescos” como “selvagens”, “primitivos, “isentos de auto-controlo” e “pouco sofisticados”.

Num universo específico de 455 americanos, todos não-muçulmanos e numa pesquisa paralela com 342 americanos não-latinos, os investigadores afirmam ter observado “elevados níveis de preconceito e desumanização” relativos a estas duas minorias, sendo que aqueles que classificaram os muçulmanos em termos “particularmente animalescos” foram os mesmos que os consideraram como uma potencial ameaça e, sem surpresas neste caso, os que apoiavam a “restrição à sua entrada nos Estados Unidos”. Adicionalmente, os que caracterizaram os imigrantes mexicanos de forma similar demonstraram um forte apoio no que respeita às políticas anti-imigração como a construção do muro, por exemplo.

E o que sentem estas minorias face a este sentimento de desumanização?

Como é referido num outro artigo publicado pela Pacific Standard, questionado um universo constituído por 124 muçulmanos residentes nos Estados Unidos sobre o facto de se sentirem discriminados, por Trump em particular, e pelos republicanos no geral, e vistos como “sub-humanos”, a resposta à pergunta “quão disposto está para colaborar com a polícia em termos de prevenção do terrorismo?” não poderia ser positiva. Como detalha a Vox, em média, os muçulmanos inquiridos na amostra afirmaram sentirem-se “fortemente não apreciados e desumanizados”. Numa escala de 1 a 7, com o 1 a indicar “nada desumanizado” e o 7 “intensamente desumanizado”, a média dos respondentes atingiu os 5,66 pontos (sendo os resultados similares no que respeita aos imigrantes mexicanos).

Como escrevem os investigadores, “ o sentimento de desumanização por parte dos americanos não-muçulmanos está profundamente associado a sentimentos de menor integração no país em que residem, a uma maior hostilidade emocional, a um maior apoio de acções colectivas violentas e, consequentemente, a uma menor predisposição para reportar algum tipo de suspeita de actividade terroristas às autoridades”.

Os investigadores encontraram também correlações interessantes – e preocupantes – entre a predisposição dos participantes para desumanizarem “os outros” e os seus próprios traços de personalidade, os quais foram também determinados em testes de avaliação específicos. Ao KelloggInsight, Kteily e Bruneau explicam que os seus estudos demonstram uma forte correlação entre o acto de desumanização e a denominada “orientação para a supremacia social”, que reflecte a crença dos que acreditam na noção hierárquica de que alguns grupos são, inerentemente, superiores a outros.

Ou, em suma, tal poderá significar que a América de Trump – e não só, pois o fenómeno está a generalizar-se – poderá, mais cedo ou mais tarde, ter de provar do seu próprio veneno. Ou que estamos perante um ciclo vicioso com consequências imprevisíveis e onde os perigos da intensificação das hostilidades produzidas pela desumanização são bem possíveis.

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