A progressiva aplicação das tecnologias da digitalização, concretamente o desenvolvimento da bitcoin e a transmissão de dados via blockchain, ripple, etc., levantou uma série de dúvidas sobre a ética da sua operacionalidade, em temas como a opacidade e a sua utilização para movimentar fundos provenientes da lavagem de dinheiro
POR JORGE SOLEY
Estas críticas não deixam de ter parcialmente razão, especialmente em relação à bitcoin, pois este produto digital está a ser inflacionado sem autorização monetária que tutele nem garanta o seu funcionamento. O blockchain é uma tecnologia e a bitcoin e a transmissão de dados são produtos desta tecnologia.

A rapidez na movimentação de fundos, fruto da eliminação de controlos administrativos, foi a chamariz de estudiosos e practionners de um “suposto” liberalismo.

Por que motivo as moedas devem ser emitidas pelos bancos centrais, ou os fluxos de fundos precisam de passar pelas câmaras de compensação com um elevado custo administrativo?

A relação de confiança “peer to peer” deveria ser suficiente, diminuindo assim, com as novas tecnologias algorítmicas, a necessidade do intermediário bancário que garantia a operacionalidade do sistema.

A rapidez na movimentação de fundos foi chamariz de estudiosos e practionners de um “suposto” liberalismo

Razão parece que não lhes falta ou, pelo menos, soa atractiva. No entanto, por vezes, queremos esquecer-nos da natureza da moeda como factor chave de uma economia.

O BCE “esqueceu” até agora a existência e o crescimento da bitcoin, mas já se mexeu, impulsionado pela Alemanha e pela França, para solicitar a regulamentação dessa bitcoin, que qualifica “como objecto puramente especulativo que tenta fazer-se passar por uma moeda”.

A volatilidade da sua cotação nos mercados, de 20 mil dólares em dezembro, para menos de 10 mil dólares, com um número muito limitado de criadores de mercado, o facto de nas transacções emissor e receptor permanecerem no mais absoluto anonimato, o medo de que as criptomoedas se convertam numa gigantesca bolha que possa destabilizar o sistema financeiro suscitou, por fim, uma intervenção supervisora.

Neste ponto, seria de perguntar quais as razões para a falta de rapidez dos supervisores diante de uma realidade económica e social cada vez em maior mutação.

Será ética a “avidez” de certos investidores que perante uma “rentabilidade especulativa” esquecem as chamadas de atenção à prudência?

Será ético não intervir num facto que pode tornar-se tóxico para os investidores, dado o relativo escasso volume desta prática?

E será ética a “avidez” de certos investidores, os quais perante uma “rentabilidade especulativa”, esquecem, uma vez após a outra, as chamadas de atenção à prudência em face deste ou de outros activos, e que diante de situações extremas, ignoram as instituições de intermediação, o que não será possível desta vez?

A tecnologia blockchain é chamada a revolucionar o sistema bancário de movimentação de fundos, mas a bitcoin como moeda, com as suas actuais caraterísticas, tem um futuro mais incerto.

Nota: O Professor Jorge Soley é um dos oradores convidados no seminário “Ética Empresarial: Aplicações no sector financeiro” que se realiza a 9 e 10 de Abril em Lisboa, no âmbito da Cátedra de Ética na Empresa e na Sociedade AESE / EDP.

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